IDIOTICE DA SEMANA

Equívocos padronizados

Por Alvaro R. Velloso de Carvalho


Esta coluna está prestes a fazer aniversário. Daqui a duas semanas, isto é, na última semana de julho, fará um ano que escolhemos uma frase ou um artigo peculiarmente idiotas e mostramos por que é idiota. De início, seria apenas um breve comentário, quase uma notinha. Com o tempo, as notinhas foram se tornando artigos, e quase ensaios - os últimos tiveram 5, 6 páginas em letra corpo 12.

Mas não estou dizendo isso para lamber minha própria cria. Pensei até em fazer um balanço geral, mas, se o fizer, vai ficar para depois. O que quero dizer é que, à medida que o tempo passou, não só o número de linhas nos textos aumentou, mas aumentou também o número de leitores - mais que triplicou, na verdade. Com esse aumento, aumentam também as incompreensões, as interpretações equivocadas, as atribuições de intenções malévolas, e assim por diante.

Em geral, isso vem de uma doença crônica do leitor brasileiro, diagnosticada pelo educador Cláudio Moura Castro nas páginas de Veja há cerca de dois anos. Existe uma mania nacional de ler não o que está escrito, mas o que o leitor imagina que está escrito. O leitor cria uma intenção subjetiva para um autor que ele nunca nem viu pessoalmente, e passa a criticar essa intenção, tornando-se cego para o que efetivamente foi escrito. Essa deficiência na leitura ainda adquire, nas faculdades de letras, ares de grande validade científica, graças à teoria da recepção e ao desconstrucionismo, teorias que enfatizam o leitor em detrimento do autor, e defendem a "mobilidade" do texto. De tão móveis, os textos acabam não querendo dizer nada, e a leitura vai se tornando cada vez mais inútil.

Com efeito, como disse semana passada, ou lemos para entrar no pensamento do autor, ou a leitura não serve para nada. Mas ler para projetar os próprios pensamentos no papel está se tornando um cacoete mental do brasileiro, e muitos dos "críticos" que escrevem para O Indivíduo parecem sofrer dele.

Mas esse não é o único problema. Há, também, o medo do vocabulário. Um dos efeitos do jornalismo ter vivido algum tempo sob censura foi que certas palavras foram banidas da imprensa. Hoje, a censura continua, mas com sinal invertido e sem suporte estatal, de forma que certas palavras continuam sendo proibidas. E uma legião de imbecis acha que esse é o padrão normal da imprensa, que todos os escritores e jornalistas têm que se conformar a escrever segundo as regras politicamente corretas. Por isso, essa gente, mui sensível, fica chocada com a linguagem de O Indivíduo e, não duvido, especialmente com a linguagem desta coluna - afinal, a única coluna do jornal destinada exclusivamente à polêmica. Claro, ficar chocado com isso é também um sinal de profunda incultura - já que todo polemista que se preze, de Chesterton a Bernard Shaw, de Léon Bloy a Karl Marx, de Voltaire a De Maistre (estou ressaltando autores os mais díspares possíveis), todos costumam usar linguagem forte para ridicularizar seus oponentes.

O problema, aqui, é o seguinte: um dos pontos principais, para quem quer queira organizar uma confusão, é saber dar nome às coisas. A linguagem tem esse imenso poder de equalizar um problema, de permitir que comecemos a tentar resolver uma dúvida, ao conseguirmos expressá-la. Como diz Benedetto Croce, através da expressão o homem objetiva seus estados interiores e toma posse de si mesmo, tornando-se sujeito criador de seus atos. Qualquer limitação auto-imposta à expressão é, portanto, uma limitação ao pensamento. E não é outro o objetivo do movimento de controle semântico: impedindo o uso de certas palavras, cria inibições no pensamento de quem se sujeita a seu controle.

Eis por que, se proíbem o uso do termo "preto", eu vou continuar usando "preto". E se querem impedir o uso de "imbecil", "idiota", "cretino", não vou deixar de usar essas palavras, mas, ao contrário, vou usá-las até mesmo para categorizar quem quer impor essa limitação - porque, afinal de contas, quem acha que é pior dizer "imbecil" do que ser "imbecil", só pode mesmo ser um imbecil...

Não, não vou moderar a linguagem só porque algumas donzelas se sentem ofendidas com termos um pouco mais duros. Agora, dizer que só argumento através de adjetivos, é mentira - e eu teria que ser o sujeito mais imaginativo do mundo para encher seis páginas com adjetivos. Os adjetivos vêm, sempre, como um reforço retórico às demonstrações, muitas vezes bastante cuidadosas, que costumo fazer a respeito do texto criticado. E chamar um idiota de idiota não é uma adjetivação sem cuidado - é, sim, uma adjetivação bastante precisa.

Vale a pena aprofundar um pouco mais o assunto. Prometo, até, um dia, fazer como o S.L. Goldman (um jornalista perto de quem meus artigos não passam de belos gracejos) e fazer uma lista de meus insultos preferidos. Mas, por ora, acrescento apenas que um insulto não é tirado do nada. Há um motivo para ele. Não haveria nenhum sentido, por exemplo, em dizer que o Baltazar Garzón é um cretino. Ele não é um cretino - é, sim, um palhaço. Ao mesmo tempo, o Luís Fernando Verissimo não é um palhaço, mas é um cretino. Já o Emir Sader é, ao mesmo tempo, palhaço e cretino - e os motivos para essas distinções são bastante claros por si mesmos, e, aliás, já foram expostos com alguns detalhes em artigos anteriores.

Expliquei isso porque essa semana chegaram ao e-mail de O Indivíduo duas cartas que sintetizam esses dois tipos de equívocos e críticas infundadas. Responder às duas em público serve para responder, a priori, a qualquer outra que venha repetir as mesmas coisas.

A primeira delas vem do Sr. Mauro Almeida Neto, e começa dizendo o seguinte:

Cheguei ao site do jornal pela página do Olavo de Carvalho. Realmente impressiona a determinação de todos em refutar todas as manifestações que possam assumir o que vocês chamam de "esquerdismo". É, portanto, de se aplaudir a iniciativa pelo que esta contém de realização democrática: o exercício da livre manifestação do pensamento.

Eu nunca imaginei, em toda a minha vida, que fosse ver alguém aplaudir uma iniciativa exclusivamente por ser um exercício da livre manifestação de pensamento. Quer dizer, qualquer livro que é lançado, qualquer site que se abre na internet, qualquer programa de TV que começa, o sr. Neto julga ser digno de aplauso por se tratar de livre manifestação de pensamento! Nunca passou pela cabeça dele que as pessoas devam escolher o que manifestar ou não, ou que certos pensamentos não devessem ser manifestados (o que não quer dizer, leitores mal intencionados, que eles devessem ser proibidos por alguma autoridade exterior, mas apenas que a própria pessoa deveria ter sensatez suficiente para não manifestá-los - por exemplo, eu jamais proporia que se proibissem os livros da Bianca Ramoneda, mas acho que ela devia ter bom senso o suficiente para nunca publicá-los).

Mas não é esse o assunto da carta do Sr. Neto. O assunto só veio mesmo se manifestar, de forma incrivelmente confusa (mas a confusão mental é outra doença amplamente disseminada no Brasil, em parte fruto das limitações auto-impostas à expressão, em parte fruto simplesmente da decadência geral da cultura), nos demais parágrafos. Ei-los:

Entretanto, o que me pareceu, ao ler vários dos artigos assinados pelos redatores de "O Indivíduo", é que vocês repetem os mesmos "erros", atribuídos aos idiotas, burros, imbecis, satânicos, nojentos, maus, representantes de uma suposta trama global da ideologia comunista, que, afinal, já se desmanchou no ar.

A adjetivação ideológica e raivosa endereçada a quase todo mundo, que vocês empreendem, faz merecer o rótulo - sinal trocado - de DIREITA. Afinal, se o tratamento dispensado aos que defendem idéias contrárias às suas é tão discriminatório, ou melhor, polarizado, o alvo de seus ataques - a ESQUERDA - é na verdade o seu ESPELHO.

Viva a Democracia !!

Eu sei que não vale a pena responder a isso aí, mas só quero apontar quão significativa enquanto fenômeno sociológico é a cartinha do Sr. Neto.

Em primeiro lugar, ele não acredita na existência da esquerda. Ele acha que o esquerdismo se "desmanchou no ar". É preciso ser cego para acreditar nisso, mas esse é o mito preferido dos liberais brasileiros desde a queda do muro de Berlim. Essa legião de seguidores dos Estados Unidos acredita que basta cair um muro para se desfazer uma teoria que levou 100 anos se disseminando pelo mundo e impregnando a mente das pessoas. Nunca deram o menor sinal de perceber, por exemplo, que, com o fim do comunismo, a casta dirigente nos países ex-comunistas permanece a mesma. Nunca pararam para olhar um instante sequer para a existência do regime chinês, uma perfeita convivência da economia de mercado com uma política comunista tão rígida quanto sempre foi.

Não sei se o Sr. Neto é um liberal, mas ele ao menos compartilha da cegueira deles. Cegueira que é ainda pior no caso brasileiro, porque, aqui, basta abrir um jornal qualquer a esmo para encontrar manifestações do velho comunismo. Vou fazer essa experiência, agora mesmo: aqui do meu lado está O Globo de hoje, 19/07. Abro na página de opinião. Aqui está um artigo do juiz Siro Darlan, defendendo a tese de que, se a lei de menores causa certas distorções, não é a lei que tem que mudar: o Estado é que tem que mudar as pessoas para que elas se adeqüem à lei. Se isso não é exatamente o que pregava o regime soviético, não sei o que é.

Mas não são só os jornais. Basta entrar numa livraria - coisa que, imagino, o Sr. Neto não deve ter feito nunca. Quando o fizer, que procure, por lá, livros de autores liberais, como Murray Rothbard, Ludwig Von Mises, Friedrich Hayek. A não ser que seja na livraria do próprio Instituto Liberal, não vai encontrar nunca. Que procure, agora, livros de autores católicos, como Joseph De Maistre, Léon Bloy, Georges Bernanos - acho que também não vai dar. Vamos além: que procure livros de autores muçulmanos, como Martin Lings ou Seyyedd Hossein Nasr. Ou de simples conservadores de tipo americano ou inglês - Russel Kirk, Malcom Muggeridge, Roger Scruton. É, acho que a busca vai ser totalmente infrutífera. Invertamo-la, então. Procuremos livros do dr. Leonardo Boff, do pseudofrei Bettinho, de Antonio Gramsci; ou da mais recente sumidade globalista, como o dr. Zygmund Bauman. Ah, agora ficou mais fácil. É capaz de estarem até em destaque.

Proponho, a quem se interessar no assunto, fazer outro teste: analisar as teses de mestrado e doutorado publicadas por uma universidade qualquer (pode até ser uma universidade católica). Analise quantas vezes se falar, ali, em temas espirituais, em salvação da alma; ou quantas vezes se defendem bandeiras conservadoras, como a proibição do aborto, e comparem com quantas teses falam em "igualdade social", em controle populacional, em leis especiais para minorias, em defesa da pederastia, da pedofilia, do bestialismo, e não sei mais que outra perversão. Garanto, para qualquer um, que o segundo grupo vai ganhar de muito. Mas isso, claro, é porque o comunismo "se desfez no ar"...

Junto com essa cegueira, há uma acusação simplesmente falsa. Diz o Sr. Neto que falamos em "trama global da ideologia comunista". Nunca escrevi isso. Nem eu nem nenhum outro colunista de O Indivíduo. Temos, ao contrário, sempre enfatizado a bipolaridade ideológica da chamada Nova Ordem Mundial, temos mostrado como é perfeitamente possível a convivência de liberalismo e comunismo, como a globalização é uma via de mão dupla, etc.. Nesse ponto, o Sr. Neto viu o que quis e não o que realmente estava escrito. Pirou na batatinha, diria uma amiga minha.

Chegamos, assim, à parta mais linda da carta do Sr. Neto. Segundo ele, porque usamos uma linguagem muito dura e cruel para tratar a esquerda, isso automaticamente nos qualifica como direita - e ele escreve em letras maiúsculas, de forma grandiloqüente, DIREITA, como quem escreve uma acusação de assassinato ou de estupro. E diz mais: diz que a direita é o espelho da esquerda.

Bom, todo mundo sabe que os termos "direita" e "esquerda" são ambíguos e, no fim das contas, acabam sendo apenas rótulos redutores que não explicam coisa nenhuma. Apesar disso, uso o termo "esquerda" para designar, no Brasil, aqueles que concordam, de uma forma ou de outra, com alguns itens da seguinte agenda: direitos de minorias (sexuais e raciais), aborto, controle populacional, reforma agrária, controle estatal da economia, restrições ao mercado e ao capital estrangeiro, restrições aos direitos individuais, apoio a Cuba. Pode haver divergências internas sobre alguns itens, e sobre a forma de atingir a realização dessas metas, mas não são divergências substanciais.

Ora, se examinarmos os itens dessa agenda, veremos que não há um único homem público no Brasil que não concorde com ao menos um de seus itens. Claro, podemos criar uma nova categoria onde é possível enquadrar todos aqueles que são contra a interferência estatal na economia, embora sejam favoráveis ao aborto, aos direitos de minorias, ao controle populacional, etc. - esses são os ditos "liberais", que em geral fazem enormes concessões à social-democracia, a qual, por sua vez, nada mais é do que a união de relativa liberdade de mercado e enorme controle de todo o resto.

Bom, daí se vê que, se o termo "direita" é, em geral, equívoco, no caso brasileiro, ele simplesmente não se aplica a ninguém. No horizonte político brasileiro, é inimaginável um homem como Pat Buchanan, ou um teórico como Russel Kirk. É simples: não existe direita aqui.

Mas o Sr. Neto diz que O Indivíduo é a direita. É óbvio que depende do que ele entende por isso. Se ser direita é opor-se à esquerda, então sou, realmente, "direita". Mas não sou direita no mesmo sentido que, por exemplo, o Roberto Campos é direita, nem no mesmo sentido que o dr. Plínio Correia de Oliveira, da TFP, é direita. Não concordo com as teses globalistas do primeiro, nem com as teses fascistas do segundo. Creio que isso complica um pouco as coisas. Então, vou simplificá-las desde já: "direita" não foi usado, pelo Sr. Neto, como um conceito preciso. Foi usado, apenas, como um xingamento. Foi o jeito de ele tentar rotular aquilo que não entende. É uma palavra que, da forma como ele a usa, não tem nenhum sentido denominativo, isto é, não indica o nome de nada, mas tem apenas um sentido expressivo: expressa seu sentimento a respeito de O Indivíduo. Então, ele diz "direita" como poderia dizer "fdp", ou "eu odeio vocês".

A prova disso é que ele não dá absolutamente nenhuma razão séria para essa designação. A razão que ele dá é ridícula: o uso de termos severos para ironizar o adversário não é prioridade de nenhuma corrente ideológica, como mostrei acima. Ao mesmo tempo, é de se notar que, em O Indivíduo, as discussões nunca são ideológicas. Não estamos, aqui, contrapondo uma ideologia à outra. Não estamos debatendo "capitalismo versus socialismo". Não sou platônico e não gosto de platonismos; gosto de debater questões concretas, não idéias puras.

Se olharmos para os artigos mais recentes desta coluna, vão ver que discuto, por exemplo, se se deve ou não censurar a internet, se a leitura deve ser exclusivamente para fins recreativos, se Cuba é um modelo para a humanidade; não se a direita é melhor que a esquerda. Tomar isso como uma discussão ideológica é, mais uma vez, ler o que não está no texto, é atribuir intenções que simplesmente não existem.

Agora, mais disparatado ainda é dizer que a direita é o espelho ideológico da esquerda. A não ser que se tome direita como sinônimo de nazismo - que é um truque retórico a que a esquerda brasileira não se cansa de recorrer, mas é obviamente falso, direita nada tem a ver com esquerda. Mas, mais uma vez, depende do que se entende por "direita". Mas, como parece que o Sr. Neto entende por "direita" O Indivíduo, não é difícil perceber que, aí, entramos no perigoso terreno do nonsense...

Acrescento apenas que, se um esquerdista diz que 2+2=5 e alguém responde que não, que é 4, isso não faz desse alguém um direitista anti-democrático. Faz dele, apenas, uma pessoa sensata. O tipo de erros de que temos tratado nesta coluna é, exatamente, desse tipo. Se querem me rotular, então, que me rotulem de defensor da sensatez contra os ataques da loucura - não importando a cor ideológica desta. O que importa é conhecer a verdade, e isso não é um problema de direção, como para frente, para trás, para a esquerda ou para a direita.

Creio já estar entediando o leitor. Peço, apenas, que ele leia junto comigo esta segunda carta, assinada apenas Marcelo - Londrina:

Fiquei boquiaberto com a falta de auto-crítica de " O Indivíduo". Qual o propósito, senão a má-educação e o a violência em tanto ataque e no uso de tantas palavras ofensivas (idiota, imbecil, etc, etc...)? É de trabalhos assim que a sociedade de hoje não precisa...

Não é difícil perceber que se trata, apenas, de mais uma donzela ofendida com uma linguagem a que não está acostumada. Mas ele diz não perceber nenhum propósito além da "má-educação" (sic) nas argumentações de O Indivíduo. Talvez ele prefira o reinado da loucura; talvez ele prefira que ninguém diga que o rei está nu; talvez ele prefira que nenhuma voz se levante contra o totalitarismo cultural esquerdista. Ele chega, na verdade, a afirmar diretamente isso. Segundo ele, a sociedade não precisa de nós.

Pronto, somos os proscritos, os indesejados, os anti-sociais. E ainda devemos fazer "auto-crítica", provavelmente nos moldes dos tribunais stalinistas onde o sujeito confessava publicamente crimes que não cometera (prática que persiste em Cuba e na China).

A sociedade não precisa de sanidade. Não precisa de crítica. Não precisa de um apelo a valores esquecidos. Talvez até o Marcelo pense que ela vai muito bem - que um pouquinho de intervenção governamental e um pouquinho de boa educação vão, juntas, diminuir o consumo de drogas, a matança de inocentes, a pobreza do ensino universitário, a mediocridade da imprensa, o absurdo de certas leis, e qualquer outro problema.

Mas não somos, ainda, governados pelo Marcelo, nem por seus pares. Ainda nos resta alguma liberdade. E pretendo continuar usando essa liberdade para discordar de quem pensa assim, e para tentar fazer pensar quem não tem medo de rever alguns preconceitos.

 

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