IDIOTICE DA SEMANA

Pérolas da vida cultural brasileira

Por Alvaro R. Velloso de Carvalho


Alguns exemplos de personagens e idéias comuns na nossa vida cultural, todos já nossos velhos conhecidos, e que andaram aparecendo por aqui nesta semana.

O jornalista babão e o filosofante

Zuenir Ventura, sábado, 24 de julho, querendo falar mal do técnico da seleção brasileira (essa mesma que ganhou todos os últimos jogos que disputou):

[Wanderley Luxemburgo] falou mais de filosofia que Leandro Konder, que tem doutorado na matéria e já leu todos os filósofos, com exceção desse novo, talvez.

Sabemos por que o nosso amigo Konder tem doutorado: escreveu uma tese de duzentas páginas sobre "quem leu Marx no Brasil", tese que levou seis anos fazendo, com despesas divididas entre o dinheiro do contribuinte e o dinheiro da mãe do Sr. Konder. Agora, qualquer um com mais de meio neurônio sabe que uma porcaria dessas não é suficiente para garantir título de filósofo para ninguém, muito menos para o Sr. Konder, que nunca escreveu um único livro de filosofia, sendo todos os seus livros ou de doutrinação política, ou de compilação de idéias de outros autores. E, ao contrário do que faz supor Zuenir, esses autores cobrem um espectro extremamente pobre - mais especificamente, os chamados "socialistas utópicos", mais Karl Marx e Bertolt Brecht. Nem sinal de que Konder tenha algum dia passado perto de Aristóteles, Leibniz ou Husserl.

Ao repetir que Konder é "filósofo" só porque tem um diplominha assinado pelo dr. Gerd Bornheim, Zuenir não diz nada sobre Konder, mas diz muito sobre si: mostra que mal consegue conter a baba que escorre toda vez que chega perto de um diploma universitário. E aproveita para mostrar que não entende nada de futebol - ou, talvez, que entende de futebol tanto quanto Wanderley Luxemburgo e Leandro Konder entendem de filosofia.

O mundo melhor esquerdista

Declaração da filha de Che Guevara ao jornal argentino La Nación, reproduzida por O Globo:

Há liberdade de expressão em Cuba, sim, apesar de alguns erros cometidos. E, se meu pai tivesse vencido a luta, talvez o mundo não estivesse como está hoje.

Engraçado que só os que apóiam Fidel digam que há liberdade de expressão em Cuba, enquanto todos os outros ou conseguem fugir para onde consigam realmente falar o que quiserem, ou precisam se contentar em engolir estrume nas cadeias onde são cometidos os "erros" do regime.

Mas numa coisa concordo com a dona Guevarinha: se seu pai tivesse vencido a guerra, o mundo estaria diferente - estaria muito pior. Exceto que, no caso de Guevara, vencer a guerra era quase impossível: o homem era tão incompetente que foi expulso de Cuba pelo próprio Fidel, que o transferiu para as guerrilhas latino-americanas, onde ele ainda cometeu a façanha de ser morto em combate pelo pior exército da América Latina, o boliviano. Entendo que a esquerda precise gastar tanta tinta para retocar a memória desse personagem, que deveria ser um de seus maiores motivos de vergonha.

De neoliberal a centralizador

Anúncio do livro Falso amanhecer, do inglês John Gray, no caderno Prosa ao inverso, do "Globo":

A mão à palmatória.

John Gray é um dos mais importantes pensadores ingleses da atualidade. John Gray inspirou o neoliberalismo adotado pela ex-primeira dama inglesa Margaret Thatcher. John Gray mudou de idéia.

"Falso amanhecer é uma análise poderosa sobre as profundas instabilidades do capitalismo global." - George Soros.

Entendo que os protecionistas e os centralizados comemorem que um neoliberal mude de idéia. Mas sugerir que só porque esse tal John Gray mudou de idéia, o programa econômico de Margaret Thatcher fica com a credibilidade abalada, já é um certo exagero.

O que realmente fica com a credibilidade abalada é um livro elogiado pelo George Soros - Soros, como bem mostrou Lew Rockwell, é o típico sujeito que enriqueceu com o livre mercado e, depois de rico, quer criar mil reservas de mercado e mil instrumentos de controle, porque, assim, não corre o risco de sofrer concorrência. Isso faz dele um ilustre herdeiro da tradição dos Rockfeller, Ford e Rotschild - que costumavam afirmar que "a concorrência é um pecado" e que ajudaram a financiar o regime soviético e o protofascismo do New Deal rooseveltiano.

À luz dessas idéias, até fica mais claro por que é que o Gray passou do liberalismo ao centralismo...

O escritor inculto

Resposta do escritor desconhecido José de Paula Machado à pergunta do mesmo caderninho cultural de "O Globo" sobre o maior clássico de sua vida:

Fico com Gore Vidal e, especificamente, um livro chamado 'Kalki', sobre final do mundo, que li ainda jovem, quando morava em Londres. Foi a primeira obra que li dele e curiosamente pouco ouvi falar dela aqui.

O rapaz faz a maior pose de Diogo Mainardi (por sua vez um imitador barato do Paulo Francis) e diz, com ar arrogante, que o autor mais importante de sua vida é Gore Vidal, especificamente uma obra que ele leu em Londres e que os pobres mortais brasileiros não conhecem direito.

Ir a público dizer que o melhor autor que já leu na vida é Gore Vidal é uma confissão inominável de incultura. Suponho que esse sr. Machado nunca tenha passado perto de Dostoievski, Shakespeare, Dante, Wasserman, ou mesmo Kafka. A julgar, pois, pela qualidade de suas leituras, o anonimato de suas obras parece ser mais que merecido.

Ainda Cuba

Num ato muito significativo, seis jogadores da seleção cubana de basquete acabam de deixar a seleção e pedir asilo político na Argentina, onde estavam disputando o pré-olímpico. Mas, segundo o repórter esportivo que cobriu o assunto, a atitude "não significa uma crítica ao regime cubano". Isso é que é tapar o sol com a peneira.

O cara de pau

Declaração de João Pedro Stédile ao Jornal do Brasil, esta semana:

No MST não há nenhum risco de radicalização. Nossa fortaleza consiste em utilizar mecanismos internos democráticos.

Isso numa mesma entrevista em que citava como exemplo de líder militar o ditador vietnamita Ho Chi Min, responsável pelo extermínio de mais de um terço da população de seu país. E na mesma semana em que o movimento nada radical e nada sanguinário que Stédile comanda destruía uma fazenda que foi obrigado a desocupar, e, em outro lugar, invadia a fazenda da frente da que deixava, sob o olhar complacente dos policiais.

É, quem vê nisso um movimento revolucionário, que segue à risca as estratégias leninista e maoísta, deve mesmo vendo coisas - afinal, aí está o Sr. Stédile para desmentir acusações tão falsas. Espera-se que, no seu próximo pronunciamento, Stédile venha dar as mais recentes provas científicas da existência de Papai Noel. E todos vamos, de novo, acreditar nele.

O bispo tresloucado

Eis o que disse Dom Cláudio Hummes, arcebispo de São Paulo, substituto da puta velha Arns, ao Jornal do Brasil:

Uma série de coisas precisa ser reelaborada. De um lado, o comunismo implodiu. De outro, o capitalismo se transformou, enveredou pelo caminho do livre mercado, totalmente aberto. Isso enseja o reestudo de toda a questão social, sobretudo o desemprego e as relações de trabalho.

Eu realmente não saberia o que responder a Dom Hummes, porque não entendi uma única palavra do que ele disse. Ou melhor: não entendi a relação entre os períodos de sua declaração. O que a implosão do comunismo tem a ver com o "reestudo" (sic) da questão social? Que capitalismo é esse que ele conhecia antes, sem livre mercado? Que de livre mercado totalmente aberto ele tem em mente? O brasileiro (faz-me rir!)? Por que é que Dom Hummes está se metendo nesses assuntos, dos quais manisfestamente não entende nada? São muitas as perguntas, são muitos os mistérios. E acho que, como de costume, as respostas ficarão a cargo da imaginação do leitor.