30 anos de desinformação
Por Alvaro R. Velloso de Carvalho
Vimos todos esta
semana as lindas comemorações dos 30 anos do Jornal Nacional, segundo
o jornal (que dúvida!) o jornal O Globo, a maior fonte de informações
do brasileiro.
E, realmente, 30
anos do Jornal Nacional significam que, há 30 anos, existe uma fonte
praticamente única de notícias para o brasileiro médio. Sim, eu sei que não
tem sido assim há 30 anos, mas digamos que, pelo menos, de uns 15 anos para
cá, o Jornal Nacional congrega todas as atenções populares. É através
do telejornal da Globo que as pessoas recebem as notícias, é através dele que
ficam sabendo do que, teoricamente, precisam saber, e é através dele que aprendem
o que devem pensar a respeito de tal ou qual assunto.
Mas achar isso
bom ou mau depende da função que cada um acredita que um telejornal deve desempenhar.
O ponto é: a seleção de notícias nunca é tão imparcial quanto parece, e muito
menos a forma de apresentá-las. Tenho dois exemplos na mente agora, mas poderia
citar muitos outros.
Em dezembro de
1997, o jornal O Indivíduo entrou numa tremenda polêmica com a direção
da PUC-Rio e com certos líderes de movimentos negros mais radicais. Tudo por
causa de um artigo intitulado A negra noite da consciência, escrito por
Pedro Sette Câmara para a primeira edição do jornal.
Depois de algumas
semanas com a polêmica rolando, a Globo resolveu se meter, e fez uma matéria
a respeito do caso.
No texto do jornal,
havia um parágrafo que dizia: "Falar de uma consciência negra como se ela
fosse essencialmente diferente de uma consciência branca ou árabe é ridículo"
– isto é, é preciso reconhecer que a raça não interfere na consciência, e que,
essencialmente, todos os seres humanos são iguais.
Na matéria do Jornal
Nacional, o trecho do artigo veiculado foi o seguinte: "Falar de uma
consciência negra é ridículo". Percebem a troca sutil? Percebem como, com
a supressão de uma frase, o que era um apelo ao entendimento e à boa convivência
vira um arremedo de libelo racista?
Um outro exemplo
é o das sucessivas matérias que o jornal apresentou a respeito das armas. Numa
delas, o apresentador dizia: "As armas mataram milhares de pessoas nas
metrópoles no ano passado".
É incrível: obviamente,
não foram as armas que mataram as pessoas; foram os assassinos. As armas são
apenas um instrumento – e o instrumento pode ser um revólver, um machado, um
martelo, um vidro de veneno, qualquer coisa que o valha. Mas, claro, falando
desse jeito, fica parecendo que os culpados pelos assassinatos são os revólveres
– bobagem na qual muitos brasileiros acreditam, graças à massiva campanha global.
Pois é assim que
funciona o Jornal Nacional.
Mas não é só assim
– e esse é um ponto importante que muitos esquecem. A Globo não desinforma e
manipula o telespectador apenas através de deturpações. Esse nem mesmo é o método
preferido. O método preferido são as omissões.
Assim, para ficar
com os casos já citados, quando tratou da polêmica sobre O Indivíduo,
a Globo nunca mencionou que a reitoria da PUC retirou as acusações que pesavam
sobre o jornal, e afirmou que os autores do jornal não fizeram "nada grave".
Nas matérias sobre as armas, ninguém nunca mencionou que já existe uma legislação
altamente rigorosa sobre armas no Brasil, que os bandidos não têm armas registradas,
e que uma conhecida pesquisa do professor da Universidade de Chicago John Lott
provou que, quanto menos leis restringindo o uso de armas pela população ordeira
existe, menor é o número de crimes no local. Ninguém ficou sabendo de nada disso,
porque o interesse do Jornal Nacional não é informar o telespectador,
e sim compeli-lo a apoiar certas coisas e odiar outras.
Desta forma, as
acusações graves que pesam sobre o presidente americano, Bill Clinton, são apresentadas
como delírios de uma direita raivosa; a ação assassina da OTAN nos Bálcãs fica
parecendo uma linda ação humanitária; o racismo de um sujeito americano que
vem ao Brasil abrir uma escola só para negros é apresentado como exemplo de
tolerância racial; a ação ilegal do Governo inglês prendendo o General Pinochet
é mostrada como uma nova etapa do direito internacional; a ação defensiva da
polícia do Pará é chamada de "massacre de Sem Terra"; e assim por
diante, num emaranhado crescente de mentiras, omissões, deturpações, nas quais
a única coisa proibida é permitir que o público tenha acesso à verdade dos fatos.
Voltando ao que
disse no início: se você pensa que a um telejornal cabe tomar o partido da verdade,
e nenhum outro; que um órgão da imprensa não deve deixar de fora fatos que sejam
relevantes ao que está noticiando; que a função da imprensa é informar, e não
fazer lavagem cerebral – então você, como eu, não deve ver nenhum motivo para
celebrar o aniversário do Jornal Nacional, e muitos para lamentá-lo.
E, certamente, os únicos 30 anos que você deve achar dignos de ser celebrados
essa semana são os da internet, que, entre inúmeras funções, tem justamente
a de nos permitir saber o que a Globo não quer que saibamos.
Mas não pensem que estou repetindo os discursos de Leonel Brizola. Nada disso. A Globo não existe para ajudar a "direita", até porque nem mesmo existe direita no Brasil. A Globo existe para ajudar os senhores do novo mundo globalizado – e esse mundo globalizado se marca, justamente, pela aliança perversa entre neoliberais e esquerdistas. A Globo não privilegia uma dessas correntes – apóia, em cada momento, aquela que melhor sirva aos interesses da globalização e das entidades responsáveis por ela. A Globo serve, justamente, para preparar os brasileiros para aceitar como carneirinhos qualquer proposta dos Senhores do Novo Mundo, por mais absurda, abjeta, irracional e estúpida que seja. Estão aí o desarmamento, a affirmative action, as intervenções militares e muitos outros casos que não me deixam mentir.