IDIOTICE DA SEMANA

O Brasil e a globalização

Por Alvaro R. Velloso de Carvalho


Um debate como esse a que assisti no Manhattan Connection (programa do canal a cabo GNT) desta semana (apropriadamente, 07/09/99) talvez nem caiba aqui nesta coluna. Isto porque, verdade seja dita, os protagonistas estavam léguas à frente dos freqüentadores habituais deste espaço. Mas, mesmo em se tratando de algumas nossas melhores cabeças, o debate serve de excelente ilustração das incoerências e ignorâncias de nossos intelectuais.

Debatiam, nesse programa, um ex-teórico do PT, Paulo Nogueira, um economista neoliberal, Eduardo Giannetti, e um historiador supostamente não-ideológico, Jorge Caldeira (autor de uma breve História do Brasil que realmente é mais interessante do que a média). Nenhum deles pode, nem de longe, ser chamado de imbecil, mas ao mesmo tempo nenhum deles é o que diz ser. Já me explico.

O debate era mediado por Arnaldo Jabor, de quem acho melhor nem dizer nada. Ele começou trazendo à tona o assunto preferido dos intelectuais, a globalização. E foi justamente em torno da globalização e do papel do Brasil nesse fenômeno que girou o debate.

O economista Paulo Nogueira começou dizendo que a globalização é, mais que tudo, um fenômeno ideológico. Que ela não está acontecendo de verdade, mas é do interesse do Governo Federal nos fazer crer que está, para nos impor sua política neoliberal. E argumentou com as porcentagens de comércio externo e interno do PIB, mostrando que a segunda é muito maior que a primeira. Caldeira respondeu que o fenômeno nada tinha a ver com o PIB, mas era derivado da tecnologia, e da informatização crescente das empresas, imaginando casos (reconhecidamente teóricos) de empresas que poderiam ser chefiadas à distância via internet.

Ambos chutaram para fora. Nem chegou a ocorrer aos dois que, antes de mais nada, a globalização é muito mais que um fenômeno meramente econômico - que ele se reflete nas legislações, na vida cultural, em uma série de fatores. Além disso, o Nogueira deixou de levar em conta que, desse comércio interno, a maior parte é feita por empresas vindas do exterior - sinal claríssimo da interdependência comercial entre as nações - e o Caldeira esqueceu que, muito embora os computadores sejam responsáveis por boa parte dos motivos para a integração, não são os únicos. Os computadores, afinal, nada têm a ver com a disseminação de certas modas culturais, ou com a criação de ONGs, ou com a campanha ecológica, e nem com muitos outros aspectos culturais da mesma onda globalizante.

A discussão descambou para o papel do Brasil diante disso tudo. As posições são as mesmas de sempre, mas foram defendidas com mais brilho do que de costume.

O sr. Nogueira começou a argumentar contra as reformas do Estado brasileiro, naquela base retórica a que já estamos acostumados. Giannetti lhe respondeu com um monte de números e um monte de argumentos lógicos.

O problema é que, mais uma vez, a discussão se restringiu aos aspectos econômicos. Nogueira falou em reforçar o Estado brasileiro, em recuperar a brasilidade, coisas assim - mas o único meio em que conseguiu pensar para fazer isso foi "dignificar o funcionário público" e "parar as privatizações".

É realmente impressionante como alguém pode confundir assim nação e Estado, cultura e economia. Ora, reforçar o Estado não é reforçar a nação - não há, no caso dos Estados, nenhuma incompatibilidade entre força interna e fraqueza externa. Aliás, esse é justamente o modelo da Nova Ordem Mundial: internamente, sobre o próprio território, os Estados estão adquirindo cada vez mais poderes, estão interferindo cada vez mais sobre as vidas privadas dos cidadãos; externamente, são servis às determinações das grandes organizações, tipo ONU, Banco Mundial, UNESCO, FMI, e coisas assim. O discurso de Nogueira, apresentado como alternativo à globalização, na verdade é impotente para nos livrar dela (ou ao menos de seus aspectos mais incômodos).

O prof. Giannetti respondeu com sua visão do Estado. Para ele, o Estado brasileiro é um "Leviatã anêmico" - que interfere demais onde não deve interferir e não interfere onde deve interferir. Disse que o Estado tem de se retirar da área produtiva, tem de deixar o mercado livre, e tem de se preocupar com educação, saúde etc.

Parece um discurso muito razoável, mas o que exatamente o prof. quer dizer com "educação" e "saúde"? Ele explicou logo depois: o Brasil precisa, através do sistema público de saúde, controlar seu aumento de população, adotando técnicas de planejamento familiar e legalizando o aborto; ao mesmo tempo, precisa treinar sua mão-de-obra.

Não chega a ser absurdo que ele proponha isso. Absurdo é que ele o faça e ainda se diga liberal. O que o dito "liberal" está propondo, na verdade, é a liberdade econômica e a tirania em todo o resto. Está propondo que o Estado deixe as pessoas fazer os comércios que quiserem (e, até aí, concordamos), mas ao mesmo tempo regule até mesmo quantos filhos cada um deve ter, institucionalize (como o Estado americano) a matança de bebês, e ainda por cima use a educação pública para "criar mão-de-obra". Em suma: Giannetti quer substituir o "Leviatã anêmico" pelo Leviatã puro e simples.

E mais: um Leviatã inteiramente servil aos interesses dos novos senhores do mundo. Ele propõe, realmente, que o Brasil se torne um inferno para melhor servir a esses senhores.

Nesse momento, Caldeira interferiu para fazer uma análise da mentalidade brasileira. Segundo ele, o Brasil ainda vive no "mercantilismo". Toda a nossa economia é mercantilista, e, por causa disso, nosso Estado ainda precisa ser reformado para passar a ser um Estado burguês e, depois, um Estado moderno (isto é, de tempos de globalização). Ele disse também que a mentalidade predominante, em termos de responsabilidade, é sempre de cima para baixo, e que ninguém "de cima", no Brasil, é responsabilizado por nada.

Ao segundo comentário, Giannetti respondeu, com muita propriedade, que, nos últimos anos, tem ocorrido justamente o contrário. Lembrou que todos os seus alunos saíram para protestar contra o Collor, mas não viam nenhum problema em colar na prova - em suma, a responsabilidade é sempre "dos outros" e, especialmente, dos governantes, nunca dos próprios indivíduos. Quem quer que tenha vivido dentro do Brasil, e não dentro de uma universidade qualquer, sabe que é exatamente assim que costumam pensar os brasileiros - exatamente o inverso do que imagina Caldeira.

Mas o que é realmente impressionante não é isso; é a primeira parte do discurso do historiador. O que impressiona é o cacoete mental de estabelecer tudo em termos marxistas, mesmo inconscientemente. Ora, não há absolutamente nada na História que garanta que as etapas percorridas pelos países europeus são as etapas necessárias do desenvolvimento histórico. Esse era o mito marxista, que também previa que o comunismo nasceria do capitalismo, o que nunca se verificou. Mas, mesmo desligado de suas origens comunistas, o mito persiste, e influencia a maneira como praticamente todos os intelectuais vêem o Brasil.

Ora, nossa economia só pode ser "mercantilista" analogicamente; não há mais as condições históricas do mercantilismo, não há um dos fatores centrais do mercantilismo, que é o horror das importações. Não há nada que garanta que esse tipo de abordagem basta para explicar o que realmente é o Brasil e o que realmente precisa ser feito do Brasil.

E Caldeira não pára para pensar que, se tentamos, à força, contar a nossa história do ponto de vista europeu, já estamos derrotados; já estamos condenados a ser periféricos. Afinal, desse ponto de vista, somos apenas um pequeno pedaço de história que nunca se desenvolveu. Mas, e se tentarmos contar a história do nosso ponto de vista? E se pararmos de tentar macaquear a maneira como as coisas se deram na Europa, e passarmos a pensar no Brasil em termos brasileiros, isto é, em termos de necessidades reais de nosso povo?

Um dos gêneros literários mais difundidos no nosso mercado acadêmico, e um gênero perfeitamente idiota, é o dos livros que tentam explicar o "atraso" brasileiro. Ora, atraso pressupõe um objetivo a alcançar, e pressupõe uma medida. A medida que todos esses livros tomam é o do desenvolvimento dos países europeus e dos Estados Unidos, como se toda a história brasileira visasse a chegar aonde os Estados Unidos chegaram. Acontece que, em primeiro lugar, esse nunca foi nosso objetivo, e nosso povo é substancialmente diferente do povo americano. E, principalmente, esse não é o único modelo possível. Esse não é o único desenvolvimento possível. Para dizer a verdade, não creio que esse seja um desenvolvimento sequer desejável.

No entanto, é isso que os defensores da tese do "atraso brasileiro", Caldeira e Giannetti entre eles, querem nos fazer engolir. Eles querem nos convencer de que os países "desenvolvidos" de hoje são o modelo máximo da perfeição. Mas eles estão mentindo: esses países foram todos para o brejo. É verdade, eles são muito prósperos. Mas o Estado controla a direção dos olhares, controla o vocabulário, impede a prática do cristianismo, determina o número de filhos, determina o que pode e o que não pode ser ensinado aos cidadãos, e assim por diante. Dêem uma olhada na Suécia, ou procurem, para o caso americano, ler o livro The Shadow University, para terem uma idéia do que estou dizendo. Essa porcaria não pode ser modelo de coisa nenhuma, e não pode servir de paradigma para medirmos nosso "atraso". O Brasil não tem mesmo de ter nenhuma pressa em se adequar ao que os senhores do mundo querem dele.

Claro que, se depender dos "liberais", nós vamos avançar (direto pro brejo) o mais rápido possível. E o pior é que a solução também não está na esquerda dita nacionalista. Para chegar a essa conclusão, basta analisar o restante do discurso do Nogueira, aparentemente o único presente contra aquilo que chamam de "adequação do Brasil à modernidade". Ele não consegue pensar em nenhuma solução cultural: seu pensamento está todo confinado à economia. Ele só pensa em restaurar empresas estatais, e em aumentar a burocracia - como se, no fim das contas, isso fizesse alguma diferença.

É verdade que também Caldeira e Giannetti confinam-se à economia. Nenhum dos três consegue imaginar uma dissociação entre economia e cultura. Nenhum deles consegue sequer conceber que modernizar economicamente o país não implica aderir aos hábitos mentais da Nova Ordem Mundial, nem adotar as legislações que as grandes corporações impõem.

No fundo, a explicação para isso foi dada, surpreendentemente, pelo prof. Nogueira. Ele acertou na mosca: marxismo residual. O marxismo é, justamente, a doutrina segundo a qual tudo o que acontece na sociedade é apenas a superestrutura derivada da infraestrutura econômica. Para onde vai a economia, vai o resto (daí a explicação dos "modos de produção"). Não são só os esquerdistas que pensam assim - todos pensam assim, e isso ficou bem claro no debate.

O grande problema dessa linha de pensamento não é nem só a questão do determinismo econômico. O problema é que isso cria uma incapacidade de pensar em outros termos que não os econômicos - aquilo que Irving Kristol, num ensaio memorável, chama de "thinking economically". E, do ponto de vista puramente econômico, não há nenhum valor superior à eficiência. Economicamente, o objetivo de uma coisa é dar receita superior à despesa.

Desta forma, as crianças têm que morrer e as pessoas não podem ter filhos para "diminuir a quantidade de gente para quem repartir a renda"; as universidades devem servir apenas para criar mão-de-obra qualificada; a cultura deve servir apenas para nos adequar ao mundo moderno; a legislação deve servir para otimizar a produção, não importa a que custo nas liberdades não-econômicas; e assim por diante, até que as grandes empresas tenham todas as liberdades possíveis e sobre os indivíduos comuns pese de forma insuportável a mão estatal.

Chego a me lembrar de Bernanos, num dos ensaios brilhantes de La liberté, pour quoi faire?: "Todo homem que pensa já compreendeu que a Rússia e os Estados Unidos se opõem mais economicamente do que ideologicamente, que uma nação de trusts está sempre ameaçada a se tornar bruscamente totalitária. A Rússia se dedica cada vez mais a criar um tipo de operário lucrativo altamente semelhante ao operário de Detroit. E o operário sindicalizado de Detroi, ou o agricultor das grandes cooperativas americanas, não difere mais tanto do operário de Stalingrado, ou do camponês dos kolkoses."

Ou, ainda, de um outro trecho do mesmo ensaio (cito para incitar o leitor a ler o original que, além de muito mais amplo, é muito melhor que a tradução; grifo meu): "Ainda esta semana, um oficial, recentemente deportado, me contava o espetáculo a que ele tinha assistido na Alemanha, em seu campo de combate. Dois trens carregados de soldados alemães mutilados tinham chegado uma manhã. Eram mutilados graves, impróprios para qualquer tipo de serviço, em suma, por uma razão ou outra, considerados bocas inúteis. (...) No campo, a SS lhes tinha rendido honras (...). Depois, sob o pretexto de refrescá-los, eles foram levados, em grupos de 24, para a câmara de gás, ela mesma toda decorada com faixas comemorativas. A operação durou quatro horas. A testemunha dessa cena não está longe. Alguns de vocês talvez já até tenham escutado de sua própria boca o mesmo relato. De minha parte, eu considero a operação irreprochável do ponto de vista da técnica. Ah, já sei, vocês vão me dizer: --foram os alemães! Mas essas técnicas estão no ar, pois o princípio que as inspira e as justifica já penetrou, mais ou menos, em todas as consciências. Aceitamos perfeitamente que o destino do homem está submetido ao determinismo das leis econômicas. O que fazem, eu pergunto, os regimes totalitários, senão dar um pequeno pontapé, não para falsificar o jogo dessas forças econômicas, mas lhes apressar um pouco o processo, como a parteira ajuda o parto da parturiente? Por que nos fazermos de hipócritas? Com o objetivo de manter os preços de um produto indispensável à vida, achamos tão extraordinário que ele seja destruído? Isso ainda nos enche de indignação? Há alguns anos, para prevenir a baixa de preços, os criadores de animais americanos jogaram na sarjeta milhares e milhares de litros de leite. Que se tenha, assim, sacrificado a vida de um certo número de crianças a esse cálculo econômico, isso não nos impede de dormir. Quando a técnica suprimir as crianças em excesso em vez de esvaziar os litros de leite na sarjeta, nossos sucessores não ficarão surpresos... Vocês me diriam que, se for instituído o monopólio do leite, esses fatos talvez sejam evitados. Podem acreditar nisso, se são realmente capazes! Matam-se de fome os cidadãos para adquirir divisas. E depois? Vocês acreditam que seria muito diferente vender os próprios cidadãos? Vocês têm mesmo certeza que eles não seriam cedidos aos americanos - inteiramente nus ou inteiramente vestidos, à escolha do freguês - se eles representassem, no mercado internacional, uma quantia verdadeiramente apreciável de dólares?..."

E assim, no altar do deus eficiência, vão sendo sacrificados os brasileiros, por liberais totalitários, historiadores produtores de analogias e nacionalistas prontos a transformar o Brasil em Cuba.

Alguém está realmente a fim de entender o que se passa em Timor Leste? Pesquisem o sentido que tem, na Nova Ordem Mundial, os termos "gerenciamento de conflitos". Mas aviso logo: é muito, muito nojento.

Daniel Piza, do alto de sua coluna no caderno editado por ele mesmo (Gazeta Mercantil, 10/09/99), falando do que devem ler os adolescentes de 12 a 14 anos: "A inquietação típica da fase tem de ser canalizada produtivamente, e autores como Nietzsche, Sartre, Aldous Huxley Mencken, que lidam com o pensamento moral acima de tudo, são fundamentais."

Realmente, espetacular. Pelo menos descobri que é assim que se produz um Daniel Piza. Mas, falando sério, na verdade, um dos grandes problemas brasileiros é que nossos intelectuais nunca saíram da adolescência, e continuam cultuando autores de décimo-quinto time, como esses que Piza quer que os outros leiam. Como seria bom que ouvissem o conselho de Heidegger: "Antes de estudar Nietzsche, estude no mínimo 14 anos de Aristóteles." Ah, mas dá muito mais trabalho...