Estatolatria como cacoete mental
Por Alvaro R. Velloso de Carvalho
Coluna da Hildegard Angel de 13/09/99:
O senador Saturnino Braga acaba de ter o apartamento assaltado. Mas não registrará queixa. Não quer prejudicar o Governo Garotinho.
Juro que essa foi a notícia. Ora, A atitude de Saturnino revela que esse senhor não hesita em pôr a verdade de lado para atender a interesses políticos; que ele não tem o menor pudor em esconder fatos só para manter uma imagem fictícia de seus aliados - revela, enfim, que o sujeito é um mentiroso inescrupuloso. Claro que, vindo de um Senador da República (quem diria que o homem que faliu a Prefeitura do Rio ainda conseguiria se eleger para alguma coisa) a atitude é ainda mais absurdo.
E isso não porque envolve uma mentira ridícula (o que, nesses tempos de Bill Clinton, é o de menos), mas porque também revela uma ignorância imensa de qual é a função do Estado. Afinal, pode o Governo Garotinho ser diretamente responsabilizado pelo assalto ao apartamento de Saturnino?
Já respondo. Antes, cito uma carta de um leitor ao jornal O Globo desta mesma semana:
Passados mais de seis meses do Governo Garotinho, vemos que o Governador ainda não conseguiu erradicar a criminalidade, como prometera, e que não soube atacar as causas profundas do crime.
Agora, imagine o leitor se algum governo, qualquer que seja, tem o direito de prometer "erradicar a criminalidade"! É claro que não tem. Não tem, porque está prometendo o impossível. Não cabe ao Estado "erradicar a criminalidade", até porque, entre as várias causas da criminalidade, existem várias que o Estado não pode controlar, a não ser que controle a psique de toda a população.
É verdade que, em geral, quem diz que o Estado deve acabar de vez com o crime, não está pensando em características psíquicas dos criminosos, mas acredita que as causas dos crimes são "sociais" - a saber, a pobreza, a miséria, a fome etc. Esse ponto de vista já foi desmentido por inúmeras pesquisas, a mais recente da revista Veja, que já mostraram que a maior parte dos assaltantes e assassinos são de classe média para cima. Mas suponhamos, ainda assim, que a pobreza seja realmente causa da violência - caberia perguntar: pode o Estado erradicar inteiramente a pobreza?
Isso é o que prometem os comunistas. Mas não há um único caso, no mundo inteiro, em que isso tenha acontecido. Pelo contrário: todas as vezes que tentaram, os resultados foram os mais trágicos possíveis. A tentativa de o Estado erradicar a pobreza leva-o a tomar conta de praticamente toda a economia, abolindo o mercado, o único instrumento que realmente consegue produzir riqueza, como a experiência mostra extensivamente. Donde se vê que, mais que ajudar, o Estado pode atrapalhar - e muito - a construção de riquezas.
No entanto, praticamente toda a argumentação política brasileira parte do pressuposto de que não só o Estado pode acabar com a pobreza, como deve fazê-lo o mais urgente possível. E daí decorre que o assalto ao Saturnino é culpa do Governo, bem como qualquer outro assalto e qualquer outro crime.
Esse pressuposto leva a outras conclusões igualmente absurdas. Por exemplo, no livro da dona Luiza Nagib Eluf sobre aborto, ela diz a seguinte coisa: "Um país que não pode manter seus filhos não pode exigir seu nascimento." O argumento é idiota o suficiente para servir de justificativa para o massacre em massa não só de fetos, como de crianças e adultos de qualquer idade, mas deixemos isso entre parênteses: o que impressiona é como se atribui ao "país" e não aos pais a responsabilidade pela vida de suas crianças. É impressionante como virou cacoete mental brasileiro exigir do Estado mais do que ele pode fazer. E aí surgem projetos absurdos e leis malucas que, com as melhores intenções, só pioram tudo.
Foi por isso que quase tive uma síncope, ao ver, no Jornal Nacional, um (outro) senador dizer que esse novo "plano de desenvolvimento" do Governo é a "solução para todos os males do país". Não, meu caro, não é. Nem poderia ser. É só mais um jeito de atrapalhar a iniciativa privada, de criar entraves às únicas vias possíveis de desenvolvimento, de aumentar os gastos estatais (e, conseqüentemente, aumentar ou os impostos ou o desajuste fiscal), de fazer crescer o Leviatã - e, nesse meio tempo, fazer uma média com o bando de cretinos que acredita que o Estado deve ser motor do desenvolvimento. Ah, sim, claro: depois, quando tudo dá errado, voltam a culpar o Governo por tudo, e aí vem um novo "plano de desenvolvimento", vêm outros projetos absurdos - e assim por diante, num continuum infernal de crescimento estatal.
Nesse ponto, alguém pode se irritar e perguntar: tá bom, Alvaro, mas por que é que você falou tão mal da política de segurança do Garotinho, se você acha todas essas coisas? É simples: pelo motivo, já exposto acima, de que o Estado pode não ajudar, mas pode atrapalhar muito. E porque, se é verdade que não cabe ao Estado acabar com a criminalidade, cabe, sim, a ele garantir um mínimo de segurança para seus cidadãos - é para isso que pagamos impostos.
O Governo Garotinho, desde o início, pôs a culpa do crime não nos criminosos, mas na polícia e nos cidadãos comuns. Assim, os policiais foram sendo ensinados a desobedecer a seus superiores e só obedecer ao Luiz Eduardo Soares. Depois, começou a luta para desarmar os cidadãos, sem nenhuma menção de desarmar os bandidos. No que é que isso poderia dar? É óbvio que no aumento da criminalidade, numa atmosfera de caos em que os bandidos acham que podem fazer o que quiserem - e, desde o princípio do Governo, têm feito mesmo.
O valor dessa política, no entanto, deve ser medido segundo o que é razoável esperar do Estado, e não segundo critérios absurdos dos estatólatras. E, nessa linha, a verdade é que ainda não atingimos o fundo do poço, que foi o Governo Brizola - mas estamos caminhando a passos largos para lá.
![]()
![]()
![]()
Alguém ainda agüenta ouvir que "o país está sofrendo sua transformação"? No Brasil, o transformismo, a "entrada na globalização", a "justiça social" viraram desculpa para todo tipo de bobagem e de política idiota. É nisso que dá tanta macumba: acabamos acreditando em fórmulas mágicas.
![]()
![]()
![]()
A decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a inconstitucionalidade da lei de venda de armas no Rio de Janeiro só confirma o que muitos já tinham dito. Lembro-me de que quando o prof. Luiz Roberto Barroso foi ao O Globo explicar a inconstitucionalidade, o Governador Garotinho respondeu que "inconstitucional é sair armado por aí". Aos poucos, Garotinho talvez esteja aprendendo que não é onipotente e que nem todos estão no mundo para satisfazer a seus caprichos - o que, para quem tem um ego como o dele, deve ser muito doloroso.