IDIOTICE DA SEMANA

Fábrica de bárbaros

Por Alvaro R. Velloso de Carvalho


"Serão filósofos os que não
puderem ser outra coisa.
"
(José Ortega y Gasset)

Deus me livre da pretensão de definir filosofia, questão que, para ser respondida depende de uma elaboração filosófica prévia. Mesmo assim, depois de alguns anos estudando esse negócio, posso com certeza fazer algumas considerações a respeito. Pelo menos o suficiente para dizer que esse projeto de lei que acaba de ser aprovado é não só idiota como imoral.

Estou falando de um projeto que torna obrigatório o ensino de filosofia no segundo grau das escolas do país inteiro, segundo notícia do Estado de São Paulo de 22/09/99:

Filosofia pode entrar no currículo
A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou hoje, em caráter terminativo, projeto que torna obrigatório o ensino de filosofia e sociologia nas classes de ensino médio (antigo 2.º grau). A proposta já havia passado pela Comissão de Educação e, caso não haja pedido específico para votação em plenário, seguirá para o Senado. "A formação humana e crítica é uma das lacunas na educação de nossos estudantes de ensino médio", disse o deputado Padre Roque (PT-PR), autor do projeto.

Do fato de o projeto incluir sociologia, prefiro nem falar, porque é óbvio para qualquer mortal com mais de dois neurônios que isso vai servir para que as escolas façam descer pela goela dos pobres alunos aquele marxismo vulgar e mal digerido que já é a regra geral nas aulas de História e Geografia. Isso porque é óbvio que ninguém vai ensinar sociologia para estudar textos de Weber, ou Nisbet, ou Voegelin, e sim para fazer doutrinação - isto é, fazer os estudantes decorar Marx, Gramsci, Althusser, Rousseau e demais bobagens.

Mas até aí não há realmente nada de novo - as aulas das outras matérias já são mesmo aulas de sociologia disfarçadas, e não é novidade para nenhum habitante acordado da nação brasileira que as escolas de segundo grau só servem para fazer doutrinação comunista (isso, realmente, é um fato tão óbvio que as dezenas de e-mails que recebo negando-o toda vez que comento o assunto só podem ser a prova definitiva de que o brasileiro médio se transformou em zumbi).

O que é mais grotesco no projeto não é a inclusão da sociologia; é que se ponha no mesmo barco a filosofia. Porque a filosofia não é apenas mais uma ciência (ou pseudo-ciência); a filosofia não é apenas um conjunto de noções que pessoas que já morreram inventaram. O estudo da filosofia é o esforço supremo da alma em busca do conhecimento; é a atividade mais nobre da inteligência.

Ora, mas o que é que impede que uma coisa tão nobre seja ensinada no segundo grau? Simples: o fato de que o segundo grau é o segundo grau.

O esforço filosófico requer, antes de mais nada, um amadurecimento da personalidade. Requer ainda um cabedal de conhecimentos prévios ao filosófico. Isso porque a filosofia engaja o ser humano inteiro na busca do conhecimento, e essa busca se dá essencialmente através da reflexão - reflexão sobre leituras e sobre experiências.

Adolescentes de quinze, dezesseis ou dezessete anos não têm amadurecimento, vivência e cultura suficientes para a reflexão filosófica. Tentar forçá-las a fazê-la é não só inútil, como é uma imoralidade.

É uma imoralidade porque vai forçar as pessoas a desenvolver uma parte da alma sem ter desenvolvido as outras, que são justamente a base de sustentação para o amadurecimento e para um eventual esforço filosófico futuro, criando verdadeiros aleijões espirituais.

Mas, ao mesmo tempo, é claro que não será possível, no segundo grau, dar a filosofia como uma atividade de caráter pessoal e espiritual. Ela ficará reduzida à exposição de idéias de uma série de autores pelos quais nenhum dos alunos conseguirá se interessar.

Sabemos bem como é isso. A maior parte dos livros ditos de "iniciação filosófica" são assim. É só ver essas coisas grotescas que são o "Convite à filosofia" da Marilena Chauí e o "Filosofando" da Maria Helena Arruda. Nessas obras, a filosofia aparece como um filme no qual o aluno não está convidado a tomar parte - ele está convidado a apenas sentar e assistir, e fingir que se interessa pelo que toda aquela gente já pensou. E, o que é pior, nesses livros específicos, o próprio pensamento dos filósofos vem todo pervertido, distorcido, esquartejado, e analisado segundo a ótica marxista mais vulgar possível, tão vulgar que faria o próprio Marx corar de vergonha. Basta lembrar o exemplo dado por Olavo de Carvalho da análise que a dona Marilena faz de Aristóteles num de seus livros (vide o ensaio "Lógica da mistificação").

Um outro livro em que a postura é justamente essa é "O Mundo de Sofia", que dispôs breves exposições dos filósofos (numa escolha arbitrária que, entre outras coisas, incluía Berkeley e excluía Schelling) ao nível do entendimento infantil, deixando a idéia de que qualquer criança pode ser filósofa.

Acontece que filosofia não é para crianças. Não basta fazer questões de aparência filosófica para ingressar na filosofia - a filosofia pressupõe um desejo sincero de acertar, de descobrir a verdade, de chegar ao fundo da questão. Pressupõe também um método, pressupõe critérios para discutir os problemas. Ao mesmo tempo, não basta saber o que disseram todos os filósofos para ingressar na filosofia; é preciso que toda essa massa de informações seja digerida numa síntese pessoal; é preciso que o sujeito não fique apenas assistindo ao filme, mas se decida a participar ativamente dele.

Claro que nada disso será ensinado no segundo grau; e não será porque é impossível. A filosofia se reduzirá, portanto, a um esquema que ou desviará para a decoreba, ou para a doutrinação idiota. Mas, para superar a rigidez do esquema, serão feitas inúmeras exortações a que os alunos "deixem o seu pensamento flutuar", que é justamente a atividade mais anti-filosófica que existe. Todos serão encorajados a "ter uma opinião", e sairão inteiramente convencidos de que basta ter pensado em alguma coisa para que essa coisa seja tão importante quanto as obras completas de Aristóteles e Platão.

E a educação, que visa a, gradualmente, tirar o indivíduo de sua esfera subjetiva e alargar sua área de interesses, estará sendo destinada a reduzir o indivíduo ao subjetivismo mais rasteiro e mais medíocre. Quantos universitários e mesmo estudantes secundaristas não vemos hoje prontos a opinar sobre tudo sem nenhuma leitura ou reflexão prévias, prontos a tomar a própria visão das coisas como válida universalmente só porque essa é a "sua visão", prontos a julgar num único instante todo o conhecimento amealhado pela humanidade durante milênios num?

Pois bem: o ensino de filosofia no segundo grau, com todas as distorções que introduzirá nas almas e nas consciências dos alunos, terá por resultado final a produção em massa desse tipo de señorito arrogante (nos termos de Ortega y Gasset), de bárbaro que se julga muito culto, de imbecil pronto a se sentir superior a São Tomás de Aquino, Avicena e Maimônides só porque lhe disseram que a religião é "produto da ideologia da classe dominante".

E o país estará dando mais um passo para deseducar as pessoas, para deixá-las reduzidas ao nível da ignorância, para chafurdá-las ainda mais nas trevas. É para isso que servirá esse projeto de lei, não à toa, inventado por um padre petelho.

Ah, sim: servirá também para que a dona Marilena Chauí, aliás uma das principais defensoras do projeto, consiga vender mais exemplares de sua obrinha ridícula...

80% dos leitores de "O Globo" se declaram favoráveis à intervenção do Exército na segurança da cidade, para tentar consertar o caos causado pela política de insegurança do Governo Garotinho. No entanto, o governador, com apoio da imprensa e da casta intelectual, continua a se fazer de superior, e continua dizendo que tudo no Rio corre às mil maravilhas. Quousque tandem, meu saco?

O artigo de Roberto Campos, "Confiteor", publicado no "O Globo" e na "Folha de São Paulo" de 26/09/99 é um dos raros momentos de luz nas trevas da imprensa brasileira. Raras vezes vi um escritor brasileiro falar com tanta propriedade do tema da democracia. A mensagem básica é a seguinte, e vale para esquerdistas e direitistas, para conservadores e progressistas, para comunistas e neoliberais: a democracia não funciona se deixarmos tudo por conta do Estado; mais importante do que o Estado fazer tal ou qual coisa, cabe aos cidadãos se organizarem de forma a limitar o poder estatal. O Estado não tem a função de modificar a sociedade, mas de respeitar seus desígnios; nenhum Estado será capaz de garantir a liberdade de um povo que não queira ser livre. O artigo pode ser encontrado aqui, e eu sugiro que todos leiam e meditem a respeito, neste país em que todos (liberais inclusive) querem fazer experiências de transformação social usando o Estado para isso.

Aproveito o assunto do artigo para citar a resposta do filósofo Olavo de Carvalho à revista que lhe perguntou sobre o ensino de filosofia no segundo grau:

Revista Educação - Matthew Liepmann debate-se a favor do ensino da filosofia desde o primeiro grau. O senhor concorda?
Olavo de Carvalho - A filosofia é a reflexão crítica sobre o conhecimento e a cosmovisão. Ela pressupõe conhecimentos extensos, experiência da vida e um certo patrimônio de opiniões formadas que possam se tornar objeto de discussão. Sem isso, a discussão filosófica não tem matéria-prima e se torna puro confronto retórico vazio. Logo, não é atividade para crianças. O ensino da filosofia na escola secundária logo degenera em pura troca de opiniões, quando não em doutrinação ideológica rasteira.