50 anos de carnificina
Por Alvaro R. Velloso de Carvalho
Imagine o leitor que alguém resolvesse comemorar a chegada do primeiro escravo ao Brasil, ou a perda da cabeça do primeiro inimigo do regime na Revolução Francesa, ou a entrada do primeiro judeu numa câmara de gás. A ninguém ocorreria duvidar de que se trataria de uma comemoração absurda, de uma apologia do mal. Comemoramos o fim da escravidão, a conquista das liberdades políticas, o fim da guerra, e assim por diante.
Isso parece muito lógico, mas a semana que passou mostrou que nem sempre, na política, as coisas se dão de forma lógica, nem de forma moral. Porque não é só ilógico comemorar os 50 anos da República Popular da China - é imoral.
A China é meu exemplo preferido para responder a vários tipos de imbecis. Aos imbecis que acham que o comunismo acabou, respondo que o maior país do mundo é comunista. Aos imbecis que gostam de defender o controle de paternidade, lembro que, na China, quem não adere a esse controle tem seu filhinho assassinado. Aos imbecis que propugnam sempre por mais controle penal sobre os cidadãos, lembro que podemos acabar adotando o tiro na nuca dado pelo Governo, com a cobrança do preço da bala mandada para a família do assassinado. Aos imbecis que dizem que Nova Ordem Mundial é liberal, lembro que poucos países se enquadram tão bem no programa da Nova Ordem quanto a China, com sua mistura de liberdade econômica em alguns lugares e controle estatal em absolutamente todo o resto. Aos imbecis que acreditam no discurso da ONU sobre defesa dos direitos humanos, peço que me mostrem uma única declaração dessa entidade contra a China, o país que mais abusos comete nessa área.
Pois bem, tudo isso, embora seja base para excelentes argumentações do tipo exemplum in contrario, não me faz gostar nem um pouquinho da China. Muito pelo contrário. Em nome da revolução chinesa, já foram ceifadas mais de 60 milhões de vida, e isso só pelo carniceiro inicial, Mao Tsé-Tung. Se fossemos acrescentar as vítimas de seu sucessor a conta iria muito mais longe, e teria de incluir bebês, "criminosos do pensamento", padres católicos, estudantes, monges budistas, entre muitos outros. Os crimes praticados pela República Popular da China vão muito longe, e o país está se preparando para praticar mais um - agora, contra Taiwan.
E isso em tempos em que todos gostam de falar contra os "crimes contra a humanidade", contra genocídios, contra guerras. Quantos genocídios já praticou a República Popular? Perdi a conta, mas sei que ela vai praticar mais um em breve, e o mundo inteiro vai sentar e assistir. Talvez até aplauda.
Afinal, o comunismo acabou se revelando muito lucrativo para as grandes potências capitalistas, que fazem fortuna com a mão de obra quase escrava que lhe é fornecida pelo governo chinês no próprio território chinês. Aliás, essas zonas de livre comércio na China viraram o verdadeiro paraíso dos capitalistas: mão de obra desmobilizada e com salários baixíssimos, governo forte impedindo que os trabalhadores pensem em qualquer outra coisa além de servir aos capitalistas, controle estatal do pensamento, e nenhuma garantia trabalhista. E ainda vêm uns liberais idiotas dizer que essa liberação econômica vai trazer a abertura política! Prestem atenção, imbecis: a liberdade econômica acompanhada da tirania em todo o resto é a receita capitalista mais perfeita que alguém já inventou, e vai durar ainda muito tempo!
E, apesar disso, como o regime continua sendo perfeitamente comunista em todo o resto do território fora das "zonas livres", a intelectualidade mundial, sempre pronta a aplaudir quem ainda "acredita na utopia de um mundo melhor" (isto é, quem ainda aplica o totalitarismo marxista), evita dizer qualquer coisa contra o regime chinês e parece até aplaudir seus abusos. Que isso se acentue no país que ainda tem a maior quantidade de marxistas na intelectualidade não deve nos surpreender - e, aliás, de nossos intelectuais, podemos esperar de tudo...
Pois bem: aí tivemos a comemoração, não só na China, como em todas as universidades brasileiras, dos 50 anos da República Popular da China. 50 anos de mentiras, de genocídios, de abusos, de totalitarismo. E nossos comunistas tendo orgasmos de felicidade, sob o olhar complacente das grandes potências econômicas.
Para piorar, o problema dessas comemorações não foi só moral; foi também estético. Vejam só, conforme notícia do O Globo, os slogans que o Governo chinês permitiu que os manifestantes gritassem durante a comemoração:
"A questão essencial de uma sociedade socialista é desenvolver a produtividade."
"Confie nos trabalhadores com todo o coração e toda a consciência."
"Longa vida ao grande marxismo, ao leninismo, ao pensamento de Mao Tsé-Tung e à teoria de Deng Xiaoping."
"Segure no alto a grande bandeira da teoria de Deng Xiaoping e preserve a teoria de Deng Xiaoping para defender todo o Partido e educar o povo."
"Longa vida ao pensamento de Mao Tsé-Tung e à teoria de Deng Xiaoping."
"Força nos estudos, força na política e força nas direções saudáveis."
"Longa vida à grande República da China."
"Longa vida ao grande Partido Comunista Chinês."
Claro que todos esses slogans mereceriam uma análise, mas o mínimo que podemos dizer deles é que eles são esteticamente grotescos. São ridículos. Chegam a ser caricaturais.
Aliás, me lembram um texto irônico que andou circulando na internet chamado "Cântico marxista-leninista, em ré (tom vociferante)". Esse texto tinha alguns lugares-comuns esquerdistas que iam sendo intercambiadas nas frases, formando três páginas de discurso comunista. Era assim (um trecho, porque o negócio era longo; e a falta de pontuação é proposital):
"Caros companheiros: a consolidação das estruturas facilita a definição das nossas opções de desenvolvimento no futuro. Do mesmo modo a atual organização exige a precisão da definição das nossas opções de desenvolvimento. Sem isto a Revolução será retardada segundo desejos contra-revolucionários acrescentou Lenin. Nunca é demais insistir uma vez que a expansão de nossa atividade assume importantes posições na definição dos atos pretendidos. Isto é confirmado em atividades revolucionárias ensinou Mao Tsé-Tung. É fundamental ressaltar que a complexidade dos estudos efetuados contribui para a correta determinação do nosso sistema de formação de quadros. A experiência histórica mostra que a expansão de nossa atividade contribui para a correta determinação das condições apropriadas para a economia. Conforme processo histórico irreversível acrescentou Marx. Por outro lado a constante divulgação das informações nos obriga à análise das novas proposições. Assim mesmo a expansão de nossa atividade cumpre um papel essencial na formulação das atitudes e das atribuições do partido. A prática mostra que a expansão de nossa atividade facilita a definição das condições apropriadas para a economia. Já se deduz isto de leis científicas da história ensinou Gramsci. A experiência histórica mostra que a análise dos diversos resultados nos obriga à análise das opções básicas para o sucesso do programa. É a Correlação de Forças auspiciosa lembrou Engels. Por outro lado o novo modelo estrutural aqui preconizado assume importantes posições na definição das condições apropriadas para a economia. Afinal é a luta de classes lembrou Stálin. Caros companheiros: o desenvolvimento de formas distintas de atuação contribui para a correta determinação das nossas opções de desenvolvimento no futuro. É fundamental ressaltar que a atual estrutura da organização prejudica a percepção da importância do nosso sistema de formação de quadros. Sem isto a Revolução será retardada segundo leis científicas da História previu Lenin. Assim mesmo foi a expansão de nossa atividade auxilia a preparação e a estruturação dos conceitos de participação geral. Por outro lado a análise dos diversos resultados contribui para a correta determinação das nossas metas revolucionárias. É fundamental ressaltar que a constante divulgação das informações oferece uma boa oportunidade de verificação de nossas metas revolucionárias. Afinal é confirmado por leis científicas da história ensinou Che Guevara."
E o texto ainda continuava por longo tempo (o leitor já deve ter captado a fórmula para produzi-lo e pode divertir-se continuando o discurso). Mas não é tão engraçado quanto parece: continuando todo esse amor nacional ao regime chinês, pode ser que daqui a uns trinta anos estejamos todos em praça pública sendo obrigados a fazer um discurso igualzinho a esse...
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50 anos de China comunista numa semana em que, num concurso organizado pela BBC de Londres via internet, Karl Marx foi eleito o "cérebro do milênio". Inacreditável.
O resto da lista também era meio sem sentido: incluía Darwin, Stephen Hawking, Kant, Descartes e John Kenneth Maxwell. Isso num milênio no qual viveram São Tomás de Aquino (o único nome da lista que realmente é um dos dez cérebros do milênio), Leibniz, Schelling, Husserl, Shankaracharya, Ibn Arabi, Dante, Berdiaev, e muitos outros grandes sábios que nunca vão mesmo ser lembrados pela pobreza intelectual midiática...
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Entre as reações negativas à minha coluna da semana passada (sobre ensino de filosofia no segundo grau), um ponto foi quase unânime: quem me criticou fê-lo acusando-me de "olavismo".
Nunca pensei que concordar com as idéias de um autor (ainda mais quando o autor é meu professor) fosse crime, ou pecado intelectual grave, mas parece que no Brasil é assim que as pessoas pensam. O que me incomoda é que praticamente toda semana faço alguma citação: ou cito o Chesterton, ou Bernanos, ou Bloy, ou qualquer outro autor de que eu goste e que venha ao caso. Ninguém nunca me acusou de "bernanosismo" ou "chestertonismo". Quando cito Olavo de Carvalho, vem meia dúzia de críticos mal intencionados me acusar de olavismo. Não lhes dei a resposta que merecem, porque ainda tenho alguma boa educação. E também não a dou aqui, porque é impublicável.

Bem, senhores, hora de uma notícia desagradável. Esta é a última "Idiotice da Semana" escrita por mim, pelo menos por um longo tempo. Estarei tirando férias desta coluna. Espero que isso não signifique sua desaparição: afinal, no staff deste jornal tem gente muito mais competente e capaz do que eu para essa tarefa que venho cumprindo há mais de um ano, e espero que eles a assumam. Ao contrário da Claire Wolfe, não estou me retirando da internet, nem abandonando o barco do Indivíduo. Continuarei minha coluna "Fótons", mas estou dando um tempo nesta coluna de polêmicas, por motivos particulares que não vêm ao caso. Sei, também, que material para "idiotices da semana" não falta: o meio cultural brasilieiro, afinal, continua cercado de idiotices por todos os lados.
Minhas mais cordiais saudações a todos aqueles que, nesse tempo todo, me enviaram elogios, comentários, sugestões e críticas (por mais duras que possam ter sido minhas respostas às críticas injustas), e àqueles que acompanharam no anonimato estas mal traçadas linhas.
That's all, folks!