Cuba e Atenas

Confesso que até agora não acredito direito na idiotice desta semana. Saiu no Jornal do Brasil do último domingo, 13 de outubro de 1998. Era uma reportagem sobre as opiniões dos jovens a respeito das eleições que estão por vir.

Seria necessário, aqui, um parêntese sobre o ridículo em que cai um jornal ao fazer uma reportagem inteira com opiniões de jovens iletrados, mas esse é outro assunto.

O que nos interessa, aqui, é a seguinte frase, de um dos estudantes consultados:

Não posso ser socialista, tenho compromissos burgueses. Mas Cuba está bem, não tem opção até Fidel morrer. Um dia vão lembrar de Cuba como uma Atenas.

Como diria Jack, o Estripador, vamos por partes. No primeiro período, o nosso referido idiota afirma que só os não-burgueses podem ser socialistas. Parece que ele não sabe o que é socialismo, ou nunca viu um socialista na vida.

Todos os paladinos do socialismo eram burgueses, de Marx e Engels ao beautiful people da Escola de Frankfurt. A classe trabalhadora sempre foi apenas massa de manobra desses inventores de um "mundo melhor" (porca miséria!). Ademais, um simples estudo dos votos por classe social nas eleições brasileiras vai mostrar que quem vota nas esquerdas são as classes universitárias; os pobres sempre foram conservadores (e serão até que os "benefícios" da educação universitária sejam estendidos a toda a população).

Mas o segundo período é ainda mais peculiar: a primeira oração não combina com a segunda. Quer dizer que a imagem que o nosso amigo tem de um país que "está bem" é a falta de opção sobre quem vai governá-lo? Quer dizer que o totalitarismo é o melhor regime político? (E depois, nós, de "O Indivíduo" é que somos fascistas...)

Mais ainda: o que quer dizer "estar bem", num país em que a maior parte da população passa fome, e em que não há liberdade? Mistérios insondáveis...

Agora, o apogeu é o terceiro período. Há muito tempo que eu não via uma frase tão disparatada, tão absurda, tão louca. Vou tentar analisá-la.

Atenas é conhecida, principalmente, por três coisas:

Primeiro, e mais importante, a filosofia. Toda a filosofia mundial são notas de rodapé a Aristóteles e Platão, dizia Whitehead, com alguma razão. Nunca houve uma convivência de cérebros tão poderosos quanto esses dois, e sobre eles repousa, em grande parte, a cultura ocidental.

Segundo, há a famosa democracia grega, a primeira experiência democrática da humanidade, com democracia direta.

Terceiro, há o teatro grego, fonte de inspiração para tanta coisa que se faz até hoje.

Pois bem: em que Cuba parece com algum dos itens acima?? O que é que a pobre ilha de Fidel fez que pudesse ser longiquamente comparável aos tesouros de Atenas?

O máximo de vida intelectual da ilha é a afluência de puxa-sacos do mundo inteiro e principalmente do Brasil, que vão lá para dizer como esse negócio de direitos humanos não vale nada e louvar as maravilhas da fome socialista. E daí partem frases, como a mais famosa de todas, do ilustre Leonardo Mártir (o bofe da Teratologia da Opressão, como diz o Meira Penna), segundo quem Cuba é "o reino de Deus na Terra".

Não, não creio que frei Betto e Oscar Niemeyer sejam reencarnações de Platão e Aristóteles.

Quanto à democracia, é melhor nem dizer nada.

Resta o teatro. Nunca ouvi falar de teatro cubano. Vi dois filmes cubanos, muito bons, mas francamente contrários ao regime (falo de Morango e Chocolate e Guantanamera). A literatura também é contrária ao regime, e feita por exilados. E, realmente, não creio que Cabrera Infante tenha o mesmo valor de Sófocles.

Enfim, Cuba nada tem a ver com Atenas. Poderia dizer mais: Cuba é a anti-Atenas. Passará à história como um exemplo de como não fazer, de como não organizar uma economia. (Isso, supondo-se que alguém no futuro terá o bom senso de percebê-lo).

Bom, já vimos, assim, o tamanho da asneira que o nosso amigo falou. Poucas vezes se disse tanta besteira em apenas três períodos.

Mas alguém aí deve estar se perguntando: afinal, onde é que o sujeito estuda?

A pergunta procede. Um jovem de 17 anos não chegou a essas conclusões sozinho. Algum professorzinho de Geografia ou História colocou essas melecas na cabeça dele. Isso é óbvio.

Alguém deve estar apostando no CEAT, ou algum outro colégio famoso por esse tipo de manipulação ideológica. Não, não. Todos erraram. Pasmem: o sujeito estuda no São Bento.

Vou repetir: o sujeito estuda no São Bento. Para quem não sabe, o mosteiro de São Bento é um dos últimos refúgios da sanidade nos meios eclesiásticos cariocas. O reitor do colégio, Dom Lourenço de Almeida Prado, é famoso por suas posições anti-Paulo Freire e por sua defesa de uma educação sem "conscientização". E como é que um negócio desses é ensinado no colégio dele?

Está aí o mistério. Mas, quando eu digo que há algo de muito podre no ensino médio brasileiro, é a esse tipo de coisa que eu me refiro. A penetração esquerdista na educação dos adolescentes brasileiros já atingiu esse nível, sob os auspícios da "revolução cultural" gramsciana. O garoto em questão quer ser advogado e economista. Já vemos que belo futuro podemos esperar pro nosso país. E, para piorar a situação, muito poucos parecem preocupados com isso.

(Alvaro R. Velloso de Carvalho)