Corrupção Gramatical e Moral

 

Ainda que eu não tenha qualquer pretensão a Professor Pasquale, a defesa da integridade do idioma faz parte da minha vida. Tento escrever corretamente, respeitando a gramática, e muitas vezes consulto meus amigos para tirar dúvidas ou aviso-os a respeito de seus erros. A maior parte dos erros é passável: lembro-me que da última vez que vi um erro fora do comum no texto de alguém respeitável, este erro estava no meu próprio texto. Escrevi um "poderia-se" que depois me fez corar.

De resto, dúvidas quanto a subjuntivos, problemas com o verbo haver, e coisas do gênero, nada que vá comprometer uma pessoa.

Bem, no dia 22/09 deparei com um erro gravíssimo no periódico O Globo, onde Cláudio Cordovil não escreve. Mas deixem que eu me explique: não se tratava exatamente de uma frase mal construída, de um verbo conjugado errado, de uma violação da ortografia, nada disso. O problema era conceitual, contido numa questão do Simuladão 99 do caderno de vestibular. Na questão 4...

"O período 'Se assim for, lá estarei.' tem, na primeira oração, uma forma do verbo 'ir', cuja conjugação se afasta inteiramente do padrão regular da flexão verbal."

Considerar que a palavra "for", no caso, é uma forma do verbo "ir", é no mínimo uma misteriosa transposição de níveis, onde as coisas que vão adquirem o status de coisas que são. É patente que "for", no caso, é uma forma do verbo "ser", que de fato tem, em algumas pessoas do futuro do subjuntivo, forma idêntica ao verbo "ir". A confusão entre estes dois verbos, tão claramente distintos - "ser" e "ir", demonstra no mínimo uma confusão mental a respeito do princípio de identidade, ou da capacidade de distinguir as coisas.

Imagine, por exemplo, que o professor de português que elaborou esta questão (lembrando que os responsáveis pela prova são o jornal O Globo, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro e a rede de cursinhos MV1) goste de fazer referências filosóficas quando dá aula. Ele diria então que a metafísica de Heidegger não pretende tratar do problema do ser, mas do problema do ir. O Comandante Rolim torna-se então um grande filósofo nas mãos do ilustre professor, amparado por um importante órgão universitário e por um importante jornal.

Especulações e maldades à parte, o efeito imediato que o enunciado da questão tem sobre o aluno é o de instaurar a confusão mental, pois a prova está, declaradamente, desafiando o bom-senso. Um erro destes pode provocar em alguém tamanho pânico - pois se presume que a prova está correta - que este alguém coloque seus demais conhecimentos em questão, quando, na verdade, o professor que disse tamanha asneira é que deveria pedir desculpas públicas, demitir-se e ir para a casa ler um livro para ver se aprende alguma coisa.

A propósito, não custa nada lembrar que há a possibilidade dessa questão ter sido elaborada por uma pessoa da UERJ, ou seja, um funcionário público que dá mostras notórias de incompetência e que merece a demissão por justa causa. Todos aqueles que pagam impostos deveriam simplesmente pedir a cabeça deste pseudo-erudito que comete um erro no lugar menos propício, uma prova de vestibular onde uma irresponsabilidade destas se confunde facilmente com um laisser-passer amoral, do qual o meio universitário é a própria vanguarda.

(Pedro Sette Câmara)

 

Adendo:

Ao contrário do que foi noticiado aqui antes, "O Globo" publicou uma pequena errata. Dada, porém, a gravidade do erro, o mais justo era que o "professor" que cometeu esse erro viesse a público pedir desculpas. De qualquer forma, fica registrado que o jornal reconheceu o erro e que foi extremamente atencioso conosco quando apontamos a falha.(Alvaro de Carvalho)