Hipocrisia puritana
Presume-se que William Clinton, quadragésimo segundo presidente dos Estados Unidos da América, seja um cidadão em plena posse de seus direitos civis. Não consta, por outro lado, que tenha sido Clinton, após os votos de castidade requeridos para o sacerdócio, eleito, pelo Sacro Colégio, papa da Igreja Católica.
Como as topoinversões sexuais do presidente não foram exercitadas em público, de sorte a causar escândalo, o bom senso recomendaria que esses pecadilhos constituíssem matéria de foro íntimo, protegida pela privacidade. Assim, as referidas "fellatio", mesmo tendo ocorridas na Casa Branca, tocam apenas ao presidente, sendo dispensáveis grotescos exames para saber de onde provinha o sêmen encontrado nas vestes daquela.
Como a senhorita Lewinsky conserva-se solteira, apenas a primeira-dama, como esposa, teria qualidade para pronunciar-se sobre as peculiaridades sexuais de seu marido (que ela já deveria conhecer após tantos anos de matrimônio). Preferências aquelas elevadas, pela cretinice puritana e a paixão partidária, às alturas de fato político relevante. Tão relevante a ponto de ameaçar, cobrindo de ridículo as instituições fundamentais da superpotência, o emprego do "impeachment". Precisamente contra a quem se atribui o epíteto de homem mais poderoso do universo. Presidente este que usufrui de altos índices de popularidade e chefe de um governo que, se não ostenta o brilho de John Kennedy e Franklin Roosevelt, também não tem desmerecido seu mandato.
Tudo isso tem por cenário maior o torvelinho da mais séria crise financeira internacional deflagrada depois do "crash" de 1929. Tais fatos desviam a atenção presidencial de assuntos de alta magnitude, que ameaçam a estabilidade das instituições democráticas e capitalistas pelo mundo afora, obrigando-o a perder tempo para tentar esconder detalhes de alcova que nem ao menos apresentam o sabor de novidade, pois a "fellatio" vem sendo praticada desde a aurora dos tempos e Clinton não é o primeiro inquilino da Casa Branca a prevaricar carnalmente. O terceiro presidente, o insígne Thomas Jefferson, que copulava discretamente com formosa escrava, inaugurou na Casa Branca o sistema, depois glosado por muitos de seus sucessores. Com a diferença de que aqueles não tiveram, para atazanar-lhes a vida e o priapismo, os recursos das modernas tecnologias eletrônica de gravação telefônica e jurídica de designação de Inquisidor Especial para devassar-lhes a lascívia.
Tivesse sido Clinton eleito papa e por certo não seria destituído; no passado, foram mantidos os pontífices fornicadores, como Alexandre VI, que copulava com a própria filha. Torpeza moral da Igreja? Nada disso: apenas flexibilidade ao julgar as fraquezas humanas, sem a qual a instituição jamais teria chegado ao terceiro milênio, pois não seria aviltando os sucessores de São Pedro que se conservariam os fiéis.
Fosse Clinton ocupante do Palácio do Eliseu, e não da Casa Branca, o povo francês admiraria suas aventuras, embora pudesse deplorar, além da vulgaridade de Monica, a ausência do "savoir faire" do falecido François Mitterrand, amado, velado e sepultado por duas viúvas e por filhos de ambas. Torpeza moral da sociedade francesa? Nada disso: apenas respeito à privacidade do chefe de Estado.
Com Clinton desmoralizado pela farisaica exposição pública de seus gostos íntimos, o Partido Democrata ressente-se, perde votos e deve continuar minoritário no Congresso. A oposição controlando o Legislativo paralisa as iniciativas do Executivo. O presidente já se tornou o que no jargão de Washington é chamado de "lame duck" (pato manco), destituído de poderes reais. No ano 2000 ocorrerá o pleito presidencial; interessa à oposição manter até lá no governo um Clinton carente de prestígio para eleger seu sucessor natural, o vice Al Gore. Assim, seria temerário prever-se já, como fatos consumados, o "impeachment" ou a renúncia.
Enquanto isso, a crise financeira internacional assume proporções galopantes e o presidente da superpotência encontra-se tolhido em seu poder de liderança no momento em que este deixa de ser necessário e torna-se imperativo.
Antonio Amaral De Sampaio é embaixador do Quadro Especial do Itamaraty