Entre as obras recentes de Olavo de Carvalho encontramos o ensaio de Arthur Schopenhauer que ele introduz, comenta e enriquece com o título acima. É um pequeno "tratado de patifaria intelectual" para uso, não dos patifes, mas dos leitores. São 38 estratagemas discutidos como exemplos supinos do que chama "Dialética Erística", proposta pelo filósofo alemão para combater o sistema de seu grande inimigo, Hegel. Sobre a humanidade, Hegel derramou sua verborragia opaca com o intuito de divinizar o Estado e o Geist ou Espírito totalitário que atormentam nosso século, provenientes tanto da "direita" nacionalista quanto da "esquerda" socialista. Ora, continuam essas ideologias a prosperar em nossas plagas de Pindorama, muito embora tenham sido destroçadas em âmbito global, em 1945 e 1989, respectivamente. Os divertidos comentários de Olavo de Carvalho devem ser lidos para nos defendermos dos neoburros e imbecis coletivistas, encrustados nos meios culturais que a hegemonia gramsciana domina. Na época de Schopenhauer, no entanto, ainda não se conhecia estratagemas mais modernos, como a deturpação da História e o uso da teologia para santificar facínoras, atualizar a Inquisição e reimpor o Index Librorum Prohibitorum. Quero dar alguns exemplos recentes.
Duas efemérides históricas têm servido para brutais desfigurações. O centenário de Canudos foi pretexto para a introdução dos conceitos de "reforma agrária" e "revolta camponesa contra os opressores", totalmente ausentes no movimento de fanatismo religioso liderado pelo Antonio Conselheiro - estratagema aliás já utilizado pelos marxistas, na Alemanha, para a abordage do episódio de Thomaz Münzer, o reformador protestante que com sua pregação insensata do Apocalipse provocou um dos piores massacres do século 16.
O outro aniversário, os 60 anos do golpe getulista de 1937, foi neste mesmo jornal (08/11/97) descrito por uma "historiadora" da USP de tal maneira que o crédulo ignorante fica sob a impressão que só os comunistas resistiram galhardamente ao "Pai dos Pobres". Ela incoerentemente menciona o putsch sangrento de 1935 e considera mito político o "complô internacional comunista". Na realidade, o ataque ao Guanabara em maio de 1938 (que a "historiadora" coloca erroneamente um ano antes) foi a única tentativa séria de derrubar o ditador. Conduzido por um militar tresloucado, Fournier, com um grupo inepto de integralistas, teve o apoio, na surdina, dos elementos mais constitucionalistas do País: o ex- candidato presidencial Armando de Salles Oliveira, Otávio Mangabeira, o coronel Euclides Figueiredo (líder de 1932) e os Mesquitas, de O Estado de S. Paulo. A hagiografia exacerbada e destinada a enternecer nossos corações de "homens cordiais" está hoje santificando guerrilheiros assassinos como Che Guevara, e toda a facção da intelligentsia, tão notoriamente privada da mesma, que se destacou ao tentar converter o Brasil numa imensa Cuba: Antonio Callado, Darcy Ribeiro, Paulo Freire e o Betinho - que Deus os perdoe e guarde em sua santa utopia…
Mas a prova de que a chamada "esquerda burra" a tudo está disposta para conservar as posições conquistadas - inclusive inquisição, censura e violência - nos é oferecida pelo pequeno incidente ocorrido há poucos dias na PUC do Rio. Estudantes daquela universidade publicaram um jornal a que deram o nome de O Indivíduo, para destacar sua oposição ao coletivismo sobrio, controlado pelo "politicamente correto" que se pretende implantar em nome de "justiça social". Foram agredidos por arruaceiros da SS jesuítica. Mas, ao se queixarem ao reitor Jesus Hortal Sánchez SJ, foram desautorizados com o argumento que "o individualismo ignora a solidariedade humana e o conteúdo cristão da fraternidade". Os artigos dos estudantes liberais que desagradaram aos totalitários são todos baseados em dados históricos e posições inexpugnáveis. A verdade é que a escravidão não foi uma instituição unicamente européia, mas universalmente praticada, até mesmo pelos régulos iorubás do Dahomey e Nigéria, que vendiam os prisioneiros capturados nas guerras tribais aos negreiros da Costa de Guiné. A "consciência negra" muito melhor se deveria chamar, no Brasil, "consciência mulata" ou "consciência cafuza": é mais autêntico do que se vestir como um black-panther norte-americano para propor um neo-racismo pseudo-africano. O que caracteriza o cristianismo (em oposição ao judaísmo, do qual se desprendeu) é, justamente, sua ênfase na salvação individual e na responsabilidade última do indivíduo no plano moral. E o movimento de Solidariedade polonês foi dirigido contra um regime coletivista marxista frontalmente condenado pelo papa. Os estratagemas hipócritas e sofismáticos dos jesuítas, me lembram a frase de Léon Bloy: "Le Christianisme de Gauche est un Socialisme de merde"… Leia a Centesimus Annus e os Evangelhos, magnífico padre Jesus Hortal Sánchez. É só o que lhe pedimos…
Transcrito do JORNAL DA TARDE de 01 de dezembro de 1997.