Há mais de 150 anos, Alexis de Tocqueville nos preveniu sobre que espécie de despotismo devem os povos democráticos temer. Nossa tradição autoritária - oriunda do precoce Absolutismo monárquico português, modernizado por Pombal, e da Contra-Reforma - tem sido reforçada e estimulada, há 100 anos, por uma série de "moléstias" mentais coletivas, entre as quais se destacam o Positivismo e o Marxismo. Um outro ingrediente, porém, a eles se acrescenta: o baixo nível cultural e moral de uma população formada no âmbito estreito da "constante familista" e corporativista sobre a qual tantos de nossos sociólogos, Sérgio Buarque de Holanda e Oliveira Vianna entre outros, têm insistido. Um temperamento facilmente sugestionável, imaginativo e supersticioso completa o quadro. Como uma massa considerável de cidadãos vive no amplexo asfixiante do que Octavio Paz chama Ogro Filantrópico - que se qualifica cientificamente de Patrimonialismo Selvagem, mas talvez aqui melhor seria denominado "Ogro Pilantrópico", o resultado é a subserviência às ideologias totalitárias que se servem da mentira, do mito e, se necessário, da violência, para suas incursões em nossa psique coletiva. Seduzidos pelo Poder Imenso e Tutelar a que se referia Tocqueville em sua obra De la Démocratie en Amérique, os ideólogos desse sistema estatal não querem largar o osso. A globalização e o triunfo liberal dos últimos anos enchem- nos do receio de perder suas posições, temor que facilmente se transforma em pânico, ódio cego e vingativo.
É o que está ocorrendo no momento. Sintomas do processo psicopatológico são evidentes. Um pequeno incidente provocado por um jornalzinho, modesto mas inteligente, de quatro estudantes da PUC do Rio, se transformou em crise que abala os alicerces da intelligentzia esquerdista carioca. Em artigo de O Globo de 7 do corrente, Leandro Konder, se apresentando como "filósofo", cita admirativamente o comunista Antonio Gramsci - que, por sinal, morreu num hospital após ter passado alguns anos numa masmorra fascista onde teve todo o lazer de escrever seu Ordine Nuovo - para defender a liberdade de expressão, essa mesma que os camaradas de Leandro Konder jamais concederam a seus adversários em todos os países onde dominaram: Viva a liberdade de expressão, contanto que seja a minha liberdade de fazer propaganda marxista! Para justificar o que Jean-François Revel chama a "Nova Censura" qualquer recurso é legítimo. A liberdade de expressão dos meus adversários que vá terminar no Gulag, paredón ou na Praça da Paz Celestial… Realmente, escrever um artigo num dos mais conservadores jornais brasileiros sobre a liberdade de expressão, para concluir que a defesa do liberalismo por quatro jovens estudantes da PUC deve ser censurada em nome do "pensamento dialógico" marxista é o cúmulo da acrobacia. Uma barretada para esse atleta genial!
Mas como o desespero desse pessoal está chegando às raias da paranóia, é mister a invenção dos boatos os mais fantásticos. Atualmente, trata-se do anúncio de uma "conspiração" internacional de "extrema-direita" para impor a "detestável doutrina neoliberal" que lhes ameaça as posições confortáveis. O "Coletivo Cultural" da Universidade Católica, que mais apropriadamente mereceria o adjetivo Olaviano de Imbecil Coletivo, composto de um psicanalista, um cientista político e um "filósofo", chegou à conclusão que o incidente com os estudantes revela a ponta do iceberg de "uma coisa muito maior que deve ter ramificações na sociedade brasileira que sequer suspeitamos". A paranóia atinge o máximo num artigo do Cláudio Cordovil, originário obviamente do subúrbio carioca do mesmo nome e publicado no Jornal do Brasil. Qualificando Ortega y Gasset de "ultraconservador", o Senhor Cordovil revela sua ignorância crassa ao acusar Olavo de Carvalho, o mestre dos quatro estudantes, de misturar "Santo Tomás de Aquino e darwinismo social" - autor e teoria que nada têm em comum e não figuram de maneira alguma em toda a obra de Olavo. E sem perceber que a "apertura a sinistra" do Concílio Vaticano II foi em parte inspirada na obra de Jacques Maritain, um escolástico tomista esquerdizante (antes de seus remorsos do Paysan de la Garonne…) identifica o conservadorismo com a escolástica "ultradireitista". Um outro jornalista, Mauro Santayana, se atreve a comparar o neoliberalismo com as façanhas de Hitler e acusa o autal governo brasileiro - presidido, não nos esqueçamos, por um "social- democrata" que bolou a "Teoria da Dependência" - de nazista porque pretende demitir (se é que o fará, tenho minhas dúvidas) 30 mil funcionários públicos imprestáveis e presumivelmente ociosos. É evidente por esses exemplos que o abalo causado na cuca sinistra que vai mundo afora, com a redução do socialismo em cadáver ambulante de um Frankenstein genocida, está levando o desepero dessa gente a extremos tão burlescos que nem a psicanálise do dr. Joel Birman os poderá curar…