JORNAL PÚBLICO
EDITORIAL
No Es Fácil...
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Segunda-feira, 15 de Novembro de 1999
É a expressão nacional de Cuba: "No es fácil..." Ouvimo-la um pouco por todo o lado, em todas as bocas. Porque em Cuba "no es fácil" o dia-a-dia, um viver que é um sobreviver. Porque em Cuba continuará a nada ser fácil. enquanto Fidel continuar, teimosamente, a ocupar o poder e a vida dos seus concidadãos.
Por vezes, são pequenos símbolos que nos chamam a atenção. E o pequeno símbolo de que nunca mais me esquecerei vi pela primeira vez em cima da cama do meu hotel: a toalha dobrada em forma de cisne, um pedaço de cartolina colorida com uma quadra entalado entre as pregas. Não percebi de imediato o significado daquela gentileza da camareira - nunca, em nenhum outro lugar do mundo, alguém me distinguira com essa atenção anónima. Mas depois lembrei-me que estava em Cuba.
Aqui há duas economias: a do dólar americano e a do peso cubano. Todos os que trabalham no sector do turismo ou têm familiares emigrados em Miami têm acesso a dólares, o que quer dizer que podem comprar nas lojas onde só o dólar tem valor - que são também as únicas lojas onde há produtos com abundância. Os outros, os que vivem com dos seus salários em pesos, pertencem a outro universo: vivem das senhas de racionamento, só têm acesso a leite se tiverem crianças na família, a carne uma vez por mês, a sabão quase nunca. As lojas dos dólares são coloridas, alegres e têm tudo, mesmo produtos norte-americanos. As lojas dos pesos são escuras e têm as prateleiras vazias.
A gentileza da camareira tinha uma motivação: eu não devia esquecer-me de também lhe deixar uma gorjeta. Um dólar, talvez - uma pequena fortuna num país onde um professor de liceu ganha o equivalente a 15 dólares por mês. Um dólar, como o que dera ao porteiro, médico de profissão, agora a carregar malas para sobreviver - e ter gorjetas.
"No es fácil." Não é fácil viver num país de onde os transportes quase desapareceram e as populações se alinham à beira das auto-estradas, o dedo esticado a pedir boleia. Não é fácil viver num país onde em cada esquina há um "comité de defesa da revolução", cuja função é vigiar os vizinhos - e que o faz com diligência, denunciando-os sem estados de alma. Não é fácil viver num país onde um herói de Angola, professor de Matemática - e pai de uma das muitas pessoas a quem dei boleia durante as duas semanas que passei de férias na ilha -, tem de fazer um turno na fábrica siderúrgica para compor o fim do mês. Não é fácil viver num país onde ter sucesso é proibido.
Não é fácil viver num país dirigido por quem liga mais à ortodoxia do que à realidade. Num país que castiga a iniciativa: mesmo os pequenos "paladares", esses restaurantes privados a que só os turistas têm acesso, só podem servir 12 refeições de cada vez. É proibido ter mais mesas: isso tornaria possível a "acumulação primitiva de capital". Ou, mais prosaicamente, enriquecer - e o regime prefere a pobreza homogénea.
Em Cuba, diz-se que se fez a revolução para acabar com a desigualdade. Mas revolução criou a mais irracional das desigualdades: entre os que têm e os que não têm dólares. Em Cuba a obsessão nacional são os americanos - os "imperialistas americanos" -, mas o único objectivo da sua política externa parece ser o de conseguir o regresso dos americanos, hoje impossível devido ao embargo. Em Cuba, diz-se que se fez a revolução para acabar com o prostíbulo da América, mas a verdade é que em Havana e em Varadero abundam as "gineteras", esse tropicalíssimo eufemismo para designar as bonitas prostitutas cuja presença é impossível deixar de notar. Em Cuba, proclama-se a superioridade do sistema de saúde, mas escondem-se as estatísticas sobre malnutrição ou omitem-se as notícias sobre as epidemias causadas por falta de vitaminas. Em Cuba, todas as esquinas proclamam as virtudes da revolução e gritam obediência a Fidel (o culto da personalidade é omnipresente) - mas no Malecon de Havana, lá onde as fachadas coloridas são hoje ruínas corroídas pelos ventos salgados, já não se sentam apenas casais de namorados: muitos são os que aí olham para o oceano, calculando os perigos da travessia, imaginando o seu destino como "balseros".
E, depois, há a repressão. O socialismo real, mesmo com cores tropicais, é um sistema totalitário que não suporta a dissidência e que abomina o pluralismo. E mesmo quando Havana sai à rua para dançar, eles vigiam.
Vinte e cinco anos depois do fim da nossa ditadura, já me tinha esquecido da figura odiosa do "pide" - até que voltei a encontrar um desses personagens durante uma festa de rua, na velha Havana. Um tipo magro mas oleoso, a pele cinzenta, o vestir negro, a voz melada, a curiosidade enjoativa. Os momentos em que me dirigiu a palavra, a fazer perguntas, a apresentar-se como vigilante, a garantir que estava ali para garantir a minha segurança, ficaram-me marcados como os mais desagradáveis da visita. Livrei-me dele como quem se livra de um peçonha, com uma desculpa e virando costas, mas não deixei de reparar como se fizera o vazio à nossa volta.
Sim, porque a repressão existe. Sim, os dissidentes são presos. Sim, há tortura nas prisões. Sim, só há um jornal e só há noticiários oficiais e monocórdicos. Sim, a liberdade não passou por aqui.
Em Cuba, "no es facil".
Só os cegos do costume aí continuam a vislumbrar o Paraíso na Terra.
Este belo artigo foi publicado pelo jornal português Público dia 15/11/99. Fugindo a nosso costume, não o linkamos simplesmente porque os artigos deste jornal costumam permanecer na rede apenas por uma semana, e queríamos que esse link ficasse ativo por mais tempo.