A nova ordem da linguagem
(Política para quem precisa de política - II)
Por Pedro Sette Câmara
A cada dia que passa, a normalidade fica mais boçal. Ou então eu poderia dizer assim: a cada dia que passa, a boçalidade fica mais normal. Não que eu agora esteja tentando tomar partido desta maravilha do mundo moderno que é a possibilidade de se trocar a ordem e a classe gramatical das palavras de uma oração sem que isto implique alguma diferença. Esta é, sem dúvida, a grande contribuição de Wittgentein e Bertrand Russel para a cultura do século XX: ao tentar elaborar uma linguagem filosófica sem ambigüidades, como a da lógica matemática, o único resultado prático deste esforço foi a disseminação da propriedade comutativa, até então restrita à aritmética, na linguagem corrente. A ordem das palavras não mais altera o sentido de uma sentença, porque este é igual a zero.
Muitas vezes, no mundo da intelligentzia brasileira, vemos neologismos e junções de palavras que correspondem simplesmente à negação da distinção de planos de realidade aliada a um deslumbramento diante deles – o intelectual pode pressentir os planos, mas decide parar por aí e acreditar que está nos limites do real. A decupagem do objeto, a sua abstração, enfim, aquilo que poderia nos dar o conhecimento científico da essência do objeto é negado, como se o único pecado fosse conhecer, ter certezas. Pode ser assustador, porque o conhecimento de certas coisas traz uma obrigação moral, mas muito pior é negar conscientemente o conhecimento dado de graça.
Mas bem. Este não é um artigo sobre pecados intelectuais, mas sobre a degradação da linguagem. Assim como um intelectual nega a percepção dos planos de realidade e permanece num mundo de escuro travestido de claro-escuro, também aqueles que têm interesses políticos praticam a sua própria forma de perversão da linguagem, a qual, por sua vez, só pode ser realizada sobre uma linguagem já deteriorada. Este trabalho premeditado de perversão passou um pouco despercebido no começo, tendo confundido muitas mentes boas, mas hoje já cresceu o suficiente para só enganar aqueles que querem ser enganados – nossos amigos do parágrafo anterior.
No meio da linguagem que equivale a nada, alguns termos saltam com uma literalidade obrigatória, uma univocidade assustadora, como talvez nem Bertrand Russel tenha sonhado. A tentativa de elaborar filosoficamente uma linguagem unívoca pode ser estúpida (especialmente depois do teorema da incompletude de Gödel), mas a tentativa de impor uma linguagem unívoca parece que funciona, ainda que parcialmente. Se a linguagem filosófica unívoca pretendia atingir uma precisão conceitual que a libertasse das impurezas da materialidade, a nova linguagem unívoca pretende apenas tornar legítimo um único uso de uma determinada palavra, abolindo todos os outros pela força física do Estado.
Um termo pode soar em vários planos de realidade; o estudo destas ressonâncias, aliás, chama-se semântica. Por exemplo: se tomarmos a palavra "mulher", vemos que ela pode designar nossa mãe, namorada, esposa, amiga, irmã, freira, vizinha ou até uma desconhecida a quem oferecemos um sorriso gentil quando entra no elevador. Na nova linguagem, "mulher" pode significar apenas contribuinte ou fraudadora, e oprimida e nunca opressora. Em suma, "mulher" é um termo que já parece atingir o máximo de sua expressão quando colocado nas suas relações com o Estado leigo, que deve defendê-la como minoria ou atacá-la se roubar o fisco, como no caso da famosa Jorgina. Hoje, muitos homens não se sentem à vontade para fazer delicadezas para as mulheres, pois têm medo de que elas se sintam "paternalizadas"; as mulheres, por sua vez (ao menos as que conheço pessoalmente), sonham com o amante à moda antiga, o homem que vem dos tempos em que elas não tinham que trabalhar fora de casa.
Vemos então que certos planos de realidade são abolidos em favor de outros. A mulher não pode mais desejar ser uma boa mãe e dona de casa (e é o que 99% delas quer conscientemente), mas tem de ter preocupações políticas, lutar pelos seus "direitos" (talvez a palavra mais vazia que existe), ser "informada" a respeito de coisas que não lhe interessam, e "inteligente", ingenuamente achando que a inteligência se mede pelos aplausos do proletariado intelectual (Camille Paglia). Neste último caso, elas não têm tanta culpa: quando resolveram se tornar "intelectuais", o que havia neste meio já não era grande coisa, e seus únicos exemplos foram progressistas imbecis. Não se vê, por exemplo, uma intelectual mulher nas linhas conservadoras, à exceção, talvez, da editora de Issues & Views, cujo nome agora me escapa, mas que é a única respeitável.
Vamos tomar outros exemplos. Se, na nova linguagem, alguns planos de realidade do objeto são arbitrariamente abolidos em favor de outros, o trabalho da classe intelectual se limita a descobrir ou inventar planos de realidade que possam agradar ao árbitro da linguagem, o governo mundial. O melhor exemplo disto é a palavra "racismo". Por ela entendemos, ou entendíamos, a discriminação segundo a raça. Podemos concordar que ela usualmente designa a discriminação dos brancos contra os negros, e que este é um significado possível deste termo, mas ainda assim a palavra "racismo" é genérica, e poderia ser aplicada a outros casos. No entanto, hoje os brancos é que têm o monopólio do racismo, e qualquer ato praticado por negros contra brancos, ou que favoreça os negros em detrimento dos brancos – como a ação afirmativa nas universidades – não pode ser chamado de "racismo". E, se for, o termo perderá o efeito, pois toda a sua carga psíquica foi concentrada em um único e singular contexto, que é o de atos praticados por brancos contra negros, ou mesmo de palavras ditas por brancos contra negros, independente da motivação poder ser medida em graus de melanina. Racismo – e agora chego onde queria – tornou-se uma palavra com um único sentido legítimo. Ou seja: o trabalho da classe intelectual é aumentar o espectro de legitimidade da univocidade de um certo termo. Só se pode usar o termo "negro" seguido da palavra "oprimido", ainda que os negros sejam de fato negros, e chamar um negro de negro seja a mesma coisa que chamar um branco de branco. Ainda neste caso específico, podemos traçar a origem desta perversão – ao menos no caso brasileiro – até uma instrução de 1933 do Partido Comunista que recomendava que as "minorias" fossem incorporadas ideologicamente à "luta de classes". Daí vem que, ao ouvir "negros", entendemos uma classe, e ao ouvir "brancos" entendemos só a cor da pele. E, se tivermos que entender os brancos como uma classe, então são a classe opressora. Obviamente, isto é um nonsense fabricado com fins políticos, almejando a balcanização do Brasil miscigenado.
Falei de "balcanização" para comentar um novo termo, que tenho ouvido nestes dias de guerra na Iugoslávia: a "guerra justa". Só que não posso falar de "guerra justa" sem antes falar de outro termo, o "politicamente correto". Dizer que alguma coisa é "politicamente correta" significa apenas retirar, com um truque verbal, a credibilidade do seu adversário político e mais nada, sem dizer qualquer coisa sobre a correção ou incorreção dos seus argumentos. O termo "politicamente correto" leva ao máximo a compreensão que Carl Schmitt tinha de política. Este senhor, que foi o teórico do Estado nazista, entendia que a política devia ser entendida a partir do par amigo x inimigo. Assim como a estética tem o belo e o feio, e a lógica tem o verdadeiro e o falso, a política teria o amigo e o inimigo, o nós e o eles. Note o leitor que ainda não falei de bem e mal. Dizer que uma coisa é "politicamente correta" é, por um lado, dizer apenas que aquilo que você defende é certo e que aquilo que seu adversário defende é errado, sem apresentar qualquer argumento, na base do porque sim. Por outro lado, o termo "correto" transcende o terreno da política, e quem o utiliza pretende fingir que está se colocando acima deste plano para arbitrar a política desde fora, o que não deixa de ser apenas uma forma desonesta e vil de fazer política. A própria superioridade racial, para os alemães, era um pressuposto, um dado, algo "correto". A matança dos reacionários pelos comunistas, que em muito supera a matança de judeus, também é considerada "politicamente correta", pois era fundamental para a obtenção de um certo objetivo político.
Assim também é com a "guerra justa" contra os sérvios. Quem for estudar a situação verá que os dois lados se merecem, porque os albaneses já faziam uma limpeza étnica informal há mais de dez anos. E quem não estudar também pode concluir que a OTAN não tem nada a ver com Kosovo. Mas, diz a OTAN, a guerra é "justa" porque os fins são "humanitários", outra palavra cujo sentido se alterou, mas neste caso no sentido de um desenvolvimento natural. O "humanitarismo" era, originalmente, apenas a negação da divindade de Jesus Cristo, e não é de admirar que hoje ela venha a designar a salvação dos corpos das pessoas empreendida pelo Estado leigo. Quanto a Kosovo, não sei o que pode haver de bom em favorecer um dos lados de uma briga do mal contra o mal, mas sei que uma intervenção da OTAN contra o governo estabelecido da Sérvia significa um poder internacional contra um poder nacional. Donde podemos depreender que "guerra justa" é a guerra praticada pelas forças da OTAN e de outros organismos internacionais contra poderes nacionais. Se fôssemos considerar sinceramente o termo "guerra justa", veríamos que os dois lados de uma guerra a consideram justa desde seu próprio ponto de vista, e logo a justiça da guerra só pode ser arbitrada pelo vencedor, não importando as injustiças que este tenha cometido ou venha a cometer: é tudo "justo". Esta "guerra justa" não passa de uma caricatura de guerra santa que os poderes internacionais empreendem contra os "infiéis", isto é, os poderes nacionais. Em suma: numa guerra civil que aconteça num país, o lado certo é aquele que estiver contra o governo estabelecido e for apoiado pelo organismo internacional mais próximo, e guerra justa é aquela travada contra um poder local em nome de um poder muito maior e mais perverso.
A perversão do termo "justa", neste caso, tem causado algumas manifestações de ingenuidade por parte de algumas pessoas ilustres. Henry Kissinger tinha alertado que a intervenção da OTAN no problema de Kosovo tiraria a moral dos Estados Unidos para defender os estados nacionais, lançando perguntas interessantes como "e se os hispanos do Texas quiserem que aquele território volte a fazer parte do México?", e "como agora poderemos ser contra a criação de um estado palestino?". Luís Fernando Veríssimo, hoje colunista do jornal O Globo, entendeu a incoerência que há em se atacar a Sérvia e defender o estado de Israel, e provocou a irritação de alguns leitores que não gostam que se toque na menina dos olhos da nova ordem mundial. Afinal, Israel é um estado criado pela ONU, um experimento de sucesso na área de gerenciamento de conflitos – descontadas, é claro, algumas bombas ocasionais. O que talvez Veríssimo não tenha percebido é justamente o estratagema do governo mundial: alguns fazem parte, outros não. A guerra contra os palestinos é "justa", ainda que já esteja pegando mal como essa em Kosovo, justamente pelo seu descaramento.
Em termos de países que estão no topo da nova ordem mundial, não poderíamos deixar de falar da Inglaterra. O caso Pinochet, que serviu para que os esquerdistas do mundo dessem uma nova mostra de como são mais vis e infames que os fariseus da Bíblia, pôs de novo na boca de todos o termo "crime contra a humanidade". É mais uma expressão que deslumbra os idiotas com seu brilho de bijuteria. Mas é só botar um olho na pedra que se vê que um crime só pode ser cometido contra alguém especificamente, e não contra uma qualidade genérica. Além disso, crime é um ente jurídico, que precisa estar tipificado para existir. Mas quando o estado leigo, versão mundial, acusa alguém de "crime contra a humanidade" está apenas desferindo um anátema: assim como na religião você pode cometer um crime contra a própria humanidade, vulgarmente conhecido como pecado mortal, cuja pena é eterna, assim também os crimes (que, no caso, sequer são crimes. Leiam o texto de Robin Harris que está publicado aqui) contra alguns esquerdistas e outras classes privilegiadas são considerados "pecados mortais", com a ressalva de que não podem ser perdoados.
Agora, vamos fazer uma frase: "Organização politicamente correta faz guerra justa para evitar crimes contra a humanidade". A impressão que esta frase causa no leitor é que o bem está se levantando contra as forças do mal, mas o seu verdadeiro sentido é "partidários do governo mundial fazem guerra contra seus potenciais inimigos". Acabamos de ver o trabalho que dá para estabelecer a diferença entre a impressão imediata da frase considerada no contexto atual e o seu verdadeiro sentido, considerando o significado de cada termo segundo a sua origem e o plano de realidade a que se refere.
Consideremos tudo isso e pensemos no quanto será difícil falar daqui a algum tempo. Quando a linguagem está toda dominada por cargas políticas, com o sentido de palavras como "justo", "crime", "humanidade", "correto" e até "político" usurpado por uma ideologia de governo mundial, fica virtualmente impossível falar alguma coisa que não possa ser interpretada politicamente. A idéia de que "todo ato é político", por mais boçal que seja, está sendo tornada verdadeira à força. Uma vez definido que o "Bem" é o governo mundial, será legítimo concluir que quem não é por ele é contra ele e portanto deve ser excluído do reino da terra à base de bombardeios ou coisa pior. E, quando esta nova ordem da linguagem estiver realmente estabelecida, falar não vai ser só difícil, vai ser também perigoso.