O MUNDO COMO MUNDO

A negra noite da consciência II:
O direito universal à estupidez

Por Pedro Sette Câmara


Os leitores mais antigos deste jornal sabem que ele adquiriu fama graças a uma polêmica com a PUC do Rio de Janeiro por causa do artigo A Negra Noite da Consciência, escrito por mim mesmo. Como se não bastasse a confusão em torno daquele texto como prova da boçalidade de parte da classe acadêmica, O Indivíduo recebeu há poucos dias um e-mail que vem dar uma amostra do estado mental dos nossos universitários. Claro que não pretendo tomar a parte pelo todo, considerando nosso revoltado missivista como modelo do estudante carioca, ou mesmo como representante dos que freqüentam a PUC, entre os quais aliás se incluem cheirosas e delicadas alunas.

No entanto, este e-mail chega a ser representativo de um grupo de pessoas que estuda naquela universidade e que provocaram a polêmica em torno do jornal. Sem saber exatamente o que foi que provocou-lhe tanta urticária, um leitor da PUC preferiu partir para uma imaginária agressão pessoal, acreditando talvez que assim ele estaria refutando o que neste jornal se escreve. Mas, se de seu e-mail não se pode depreender coisa alguma a respeito do conteúdo do jornal, ao menos pode-se saber muito a respeito do autor.

O leitor que me desculpe o teor vil da mensagem, mas é preciso mostrá-la para que prossigamos com o texto, iniciando uma discussão sobre a verdadeira dimensão do preconceito. Mantenho o e-mail e a identidade o leitor anônimas, apesar de sua insistência irrefreável em ser respondido.
 

>Date: Fri, 28 May 1999 20:59:21 -0300
>To: email@oindividuo.com
>From: Paulo <Anônimo@rdc.puc-rio.br>
>Subject: Corno
>Mime-Version: 1.0
>Content-Type: text/plain; charset="us-ascii"
>
>Enquanto voce esta lendo este e-mail, sua mulher esta fudendo com um preto
>e favelado e se perguntado por que voce nao e tao gostoso como ele!!!!
>CORNO
>CORNO
>
>
>RESPONDA O E-MAIL SEU CORNO....
>
 

Bem, caso este e-mail tenha sido endereçado a mim (já que não especifica o destinatário), posso dizer que enquanto eu o li minha namorada estava ao meu lado, e nós rimos bastante...

Mas façamos uma breve desconstrução da mensagem dele. Fora o simples adultério que o Sr. Paulo Anônimo prevê, este também seria "agravado" - podemos depreender do texto do e-mail que se trata de um "agravante" - por ser com um "preto e favelado". Ora, a mim não me parece que um adultério seria mais ou menos grave por ser com um "preto e favelado". Se assim parece ao Sr. Anônimo, é possível supor que ele não goste nem de pretos e nem de favelados, e muito menos de pretos favelados. Se alguém deseja uma redundância que comprove esta suposição, basta considerar que o Sr. Anônimo está me obviamente me desejando um mal, e não um bem, transferindo a feiúra moral que existe no adultério do ato em si para o autor dele. Para o Sr. Anônimo, como lemos, o adultério seria menos grave se acontecesse com um branco da zona sul.

Além disso, é bastante perceptível a mentalidade colonial do Sr. Anônimo. Naqueles tempos de escravidão, os negros eram considerados sobretudo por sua volúpia e por sua sensualidade. As negras, especialmente, foram feitas de objeto sexual durante aqueles séculos. Qualquer um que assim deseje pode interpretar o texto do Sr. Anônimo, que afirma que "voce nao e tao gostoso como ele", como uma perpetuação daquela imagem do negro como um ser que só serve para o sexo. Mas é claro que o Sr. Anônimo não tem nada disso em mente; se ele repete estereótipos, é por pura inconsciência. Nada disso foi premeditado. São apenas preconceitos que ele traz consigo.

Apenas quero chamar a atenção dos leitores para o fato de que, ao mesmo tempo em que estuda na mais politicamente correta das universidades brasileiras, o Sr. Anônimo ainda não conseguir ser doutrinado e resiste como um bravo exemplo do pensamento tacanho de certos estudantes cariocas. As mensagens esquerdistas propagadas nas universidades, se não conseguem ser assimiladas, ao menos são capazes de direcionar o ódio irracional de certas pessoas a quem quer que pretenda discutir seriamente estas mesmas mensagens esquerdistas.

Se o Sr. Anônimo deseja manter-se firme em seus preconceitos, talvez por estar muito apegado a eles ou mesmo por não saber diferenciá-los do resto de seus pensamentos ou até mesmo do mundo exterior, acho que deveria ter todo o direito de fazê-lo. Ainda que seja feio externá-los, e que seja de fato condenável que se tome certas atitudes em função destes preconceitos, acredito que a estupidez é, ao menos, um direito da vida privada das pessoas. Se o Sr. Anônimo não sair por aí ou matando ou batendo em negros, acho que este é um ranço que ele tem o direito de guardar secretamente, pois mais ridículo do que alguém se sentir mal por ter sido menosprezado por gente como o Sr. Anônimo é que se mobilize uma gigantesca força estatal para reprimir os sentimentos imbecis que estas pessoas têm.

O racismo é, de fato, uma coisa terrível. Mas, se ela não afetar terrivelmente o objeto do preconceito - no caso, o negro -, existindo apenas como uma espécie de cosquinha mental, a única atitude razoável da sociedade - se for uma sociedade verdadeiramente cristã - para com essa pessoa é de uma certa piedade, e jamais de ódio irracional. Se os negros, ou qualquer outro grupo que se sente marginalizado, adquirem a mesma estupidez daqueles que os reprimem, sua luta fica aviltada, aviltada pela mesma marca que há na estupidez de gente como o Sr. Anônimo.

É mais do que preciso lembrar, e isto o Sr. Anônimo faz muito bem, que estas manifestações de boçalidade são o preço que se paga pela liberdade de expressão. Ao mesmo tempo, é igualmente preciso perceber que um combate total a todo o preconceito vai acarretar, necessariamente, o fim da liberdade de expressão. Vale a pena, por acaso, sacrificar o direito de falar por causa dos Anônimos que há por aí? É claro que não. Não vale a pena nem escrever nem uma resposta àquele e-mail, quanto mais escrever uma lei para combatê-lo... Uma dedetização intelectual das universidades surtiria melhor efeito.