O MUNDO COMO MUNDO

Prolegômenos à estupidez pura: Investigações ilógicas

Por Pedro Sette Câmara



"Algumas pessoas não captam
a força obrigante do silogismo"

Santo Alberto Magno

 

No magnífico ensaio "Como se Tornar uma Pessoa Maravilhosa, ou Ética do Intelectual Brasileiro" (de O Imbecil Coletivo), o filósofo Olavo de Carvalho descreveu as regras que dirigem as conversações entre as camadas bem-pensantes da nossa ilustre sociedade. Sem querer fazer-lhe qualquer reparo, pretendo nestas linhas produzir como que um apêndice – ou um prefácio – àquele ensaio, que era dedicado aos intelectuais que assim se chamam por gosto ou por emprego público. Aqui tratarei de um nível um pouco mais baixo, o daqueles que não se pretendem chamar "intelectuais", mas exigem, mesmo na mais prosaica das conversações, que se lhes reverenciem as opiniões como se sua frágil pessoa estivesse arriscada a dissipar-se no cosmo caso sejam contrariadas ou contraditas. Ou, para ser mais exato, tratarei daquelas opiniões que, sendo fenômenos mais digestivos do que propriamente intelectuais – pois ocorrem costumeiramente à hora das refeições – não podem ser minimamente reprimidos, correndo-se o risco de causar em seus portadores males como prisão de ventre, azia e indigestão. Em suma, aqui pretendo resumir algo do pensamento (sic) dos postulantes à imbecilidade coletiva descrita por Olavo.

Mas bem. Se, por um lado, poder-se-ia objetar que não se deve exigir rigor científico nas conversas informais, no bate-papo das refeições, por outro lado não se justifica a reação que certas pessoas têm ao ver que suas idéias são rebatidas, especialmente porque são elas mesmas que, no mais das vezes, costumam iniciar a discussão, pontificando sobre qualquer assunto em qualquer hora, como se o mundo, é claro, ansiasse por suas conclusões, enunciadas com a falsa serenidade de um moralista kantiano e o ar de sutil indignação que só os que se julgam puros de coração têm direito a ostentar.

Certo que é errado debater com quem não conhece as regras. Mas é também certo que quem pretende ser levado a sério deve ser tratado seriamente, por mais que isto lhe seja constrangedor. O mínimo que uma pessoa merece é aquilo que ela pede. É por este método mesmo que se desmascaram os pretendentes a grandes sábios que não agüentam uma objeção e confundem o questionamento de suas idéias com o questionamento de seu caráter, sentindo-se por isso ofendidos ao ouvir um simples contra-argumento. Tomados de horror pelo adversário, exclamam indignados algumas das sentenças que doravante analisarei – tudo porque eu continuo a levá-los a sério. Mais do que eles mesmos o fariam. Voilá!

1-)"Você pensa que é o dono da verdade!"

Analisando a frase, vemos que os pressupostos dela são os seguintes: existem, objetivamente, várias "verdades diferentes", que correspondem às opiniões de cada um, sendo que todas elas são igualmente válidas, ainda que se excluam mutuamente. Pretender que uma "verdade" exclua a outra, isto é, "seja melhor" do que a outra, além de ser absolutamente acintoso demonstra um caráter arrogante e convencido, pois todos são iguais e "ninguém é melhor do que ninguém".

No entanto, é óbvio que a resposta honesta a uma proposição não lança necessariamente qualquer dúvida a respeito do adversário que a profere, mas antes o trata de igual para igual, o que é o mínimo que se deve esperar em termos de tratamento. Quem usa a frase "Você pensa que é o dono da verdade!" como se fosse uma objeção está querendo transformar a discussão de idéias em uma discussão de pessoas, o que de fato é muito feio. Só que este subterfúgio é tão arrogante que, ao supostamente acusar o outro de arrogância, tira da cartola uma análise psicológica completa e joga-a sobre o adversário, atribuindo-lhe uma crença na própria superioridade perante os demais. A discussão fica assim encerrada pela objeção levantada ao caráter do adversário e à sua capacidade de discussão (pois não tem "a mente aberta"), e os argumentos permanecem irrespondidos.

A resposta ideal a essa frase é a seguinte: "Quem pensa que é o dono da verdade é você, seu covarde, pois está fazendo julgamentos a meu respeito sem sequer se dar ao trabalho de responder os meus argumentos".

2-)"Você não pode achar que só você é que está certo e que os outros estão errados", com variantes como "Por que só você pode estar certo?", "Você não quer deixar os outros pensarem", "Por que só você pode ter opinião?" etc.

Baseado ainda na premissa de que uma opinião não pode ser melhor do que a outra, mesmo que uma delas seja ponderada, constituindo o trabalho de anos de reflexão, esta resposta também demonstra que aquele que a profere não passou da primeira infância, isto é, ainda não percebeu a descontinuidade que existe entre o mundo e seus próprios pensamentos. Um pensamento diferente, que exclua o seu próprio (independente de qual dos dois de fato está certo), é uma hipótese apavorante. Afinal, quando nosso prosaico conversador diz "outros" ele quer dizer "eu mesmo", subentendendo que sua opinião é universalmente válida e que seu opositor estaria querendo se colocar numa posição superior à toda a humanidade. Toda a humanidade, que ele crê estar quantitativamente representada nele mesmo, que normalmente é um sujeito de mediocridade exemplar, que pensa como todo o mundo e acha que isso é normal.

Respostas ideais: "E por que você pode achar que eu estou errado e os outros estão certos sem analisar os argumentos?" e "Sabia que o mundo estava aí antes de você chegar?".

3-)"Cada um tem direito à sua opinião."

Esta frase já apresenta um teor de estupidez mais concentrado do que a frase anterior, por trazer a noção de direito. Aparentemente, esta frase quer dizer apenas que cada um pode pensar o que quiser – o que é verdade. O único problema é acreditar que todas as opiniões são igualmente válidas.

Mas a questão do direito que aí surge demonstra uma preocupação social. É preciso ter o direito de pensar, como se uma objeção fosse uma censura, um argumento em contrário um cerceamento, e uma prova a própria instauração da ditadura. É preciso mudar as leis para impedir as objeções. É aqui que nasce a "ação afirmativa": trata-se não apenas de poder pensar qualquer coisa, por mais absurda que seja, mas de exigir que qualquer nonsense seja aceito como manifestação da verdade universal que fala necessariamente através das supostas minorias.

Agora, o ponto mais importante é o seguinte: como aquele que traz para a discussão a noção do direito está pensando em termos de organização social, ele também interpreta tudo nestes termos. Ao ouvir "não gosto do homossexualismo" ele entende "devemos matar todos os gays". Ao ler no cartaz que "o cigarro faz mal à saúde" ele conclui que todos os seres humanos da terra deveriam ser obrigados por um governo mundial a concordar em parar de fumar. Este é o tipo de pessoa que crê ter a solução de todos os males do mundo, e para ela todos os males do mundo residem em alguma falha da organização social; por isso, apóia as ditaduras, que hoje se chamam "democracias". Só um governo central que imponha a todos a sua própria opinião terá sucesso; a preocupação social a santifica e a exime de qualquer culpa.

A resposta ideal é aquela que Olavo de Carvalho falou, mas não sei se escreveu: "De fato, existe um direito universal à babaquice."

4-)"Você é muito radical!"

Por "radical" as pessoas querem dizer: claro, bem formulado, perfeitamente compreensível e que implica algumas coisas logicamente falando. O maior medo que existe é o de estar errado; ao perceber que esta descoberta se aproxima, foge-se, acusando o interlocutor de ser "radical" somente porque ele não abandona facilmente os próprios pensamentos e/ou é capaz de argumentar para defendê-los.

Responde-se a isto com a frase de Jesus Cristo no Evangelho de São Mateus: "O vosso falar seja sim sim, não não; o mais é conversa do Maligno."

5-)"Mas isso é só a sua opinião!"

Assim, exclamada, esta frase quer dizer: "Não seja tão pretensioso a ponto de achar que a sua opinião vale alguma coisa ou mesmo que pode estar correta". Como se a "sua opinião" só valesse para você mesmo, e a possibilidade de um juízo universalmente válido estivesse necessariamente excluída do conjunto de juízos aceitos pela maioria das pessoas ou pela comunidade bem-pensante.

Resposta: "E o que você diz é o quê?"

6-)"Não há verdades absolutas."

Quem profere esta frase quer te convencer que você não pode estar certo porque isto seria cosmicamente impossível, ao mesmo tempo em que utiliza esta afirmação para colocar a si mesmo como cosmicamente correto.

A resposta ideal, e a única possível, é a seguinte: "E essa, é uma verdade absoluta ou relativa?"

7-)"Este seu pensamento já foi ultrapassado."

Aqui a teoria da evolução é utilizada como pano de fundo para a picaretagem argumentativa. Nada mais apropriado, pois a própria teoria da evolução já é, por si, uma picaretagem. A sua força advém do progresso tecnológico: assim como os carros, computadores e aviões ficam mais rápidos e macios com o tempo, também as idéias e os seres humanos, tanto no plano individual como no coletivo (e especialmente neste) melhorariam, "evoluiriam", e assim se transfere o valor da crescente eficiência maquinária para a espécie que criou tudo isto.

Se um pensamento está ultrapassado, isto não impede, mas antes favorece, que o argumento que o contradiz esteja ultrapassado daqui a poucos dias, meses, ou anos. Ou mesmo que esteja ultrapassado e nenhum dos dois contendores saiba. Por fim, a utilização deste critério "progressista" no julgamento de uma idéia só pode levar à aniquilação de qualquer critério. Estando à frente do passado e atrás do futuro, não saberíamos o que há de nos superar, e assim estaríamos sempre incapacitados para o julgamento de qualquer coisa. A "coisa em si" ficaria temporalmente inalcançável. Assim, toda ação presente fica justificada em nome de um futuro imaginário, e seu autor desencarregado de prestar contas ao presente ou mesmo à sua própria consciência.

O sucesso do marxismo está justamente em, se aproveitando deste sentimento progressista que permeou os dois últimos séculos, declarar de antemão o futuro, da mesma maneira que as mães de santo o fariam. Karl Marx só teve mais credibilidade porque falou em alemão.

Ou seja: por mais que se ame a "evolução" e o "progresso", alguém só pode saber que um pensamento está "ultrapassado" e outro "adiantado" ao se colocar fora deste processo "evolutivo" ou "progressista", olhando-o desde um ponto de vista que o transcenda, ainda que hipoteticamente, como um futuro imaginário ou um "mundo melhor". Fica assim negado o progresso em si como critério máximo de julgamento. O progresso em si, por sua vez, não pode ser critério, pois se tudo "progredisse" indefinidamente em função de coisa nenhuma não haveria progresso algum e nem a possibilidade de diferenciar o progresso do atraso.

8-)"Essa é uma leitura possível..."

Uma saída comum para um argumento irrespondível é simplesmente dizer algo que nada tem a ver com o assunto, mas que não somente parece ter como também exala perfumes de profundidade – ou, como dizia uma antiga locutora de rádio, de "profundidez".

Se tomarmos esta resposta a sério e a analisarmos, veremos que ela pressupõe um mundo que varia com o sujeito que o percebe, e que qualquer discussão não passa de um embate de "leituras", todas "possíveis", que não se excluem logicamente pela simples razão de existirem, ainda que só enquanto possibilidades. Mas aqui ocorre uma transposição de níveis: se a discussão pretende encontrar o que é certo, ou verdadeiro, não pode se satisfazer com o simples possível. Sob certos aspectos, tudo é possível. É possível pensar em elefantes voadores, mas os elefantes não voam de fato. É possível entender que o chão é céu e que o céu é chão, mas isto não torna o céu chão ou o chão céu. Assim, se a discussão pretende chegar ao que realmente acontece, não pode retroceder ao conjunto de possibilidades que contém a discussão para justificar a incapacidade ou a falta de vontade de um dos contendores em entender os argumentos do outro.

Dizer que algo é possível é o mais próximo que existe de dizer nada sobre esse algo, porque o possível não é sequer necessariamente real em termos concretos, ou é real só enquanto possibilidade. Em suma, dizer que o pensamento do outro contendor é "uma leitura possível" é uma maneira almofadinha de terminar a discussão sem dizer nada e passando a impressão de ter "ganhado".

9-)"Você pensa assim por causa da sua formação."

Essa é a minha favorita. Quem diz isso a um adversário numa discussão é incapaz de perceber que esta é, sob certos aspectos, uma afirmação tautológica: "pensar assim" é igual a "sua formação".

Este é o sentido que esta afirmação tem em si. Mas, no contexto de uma discussão, e especialmente à frente de uma platéia, esta afirmação diz o seguinte: "Conheço sua formação e as possibilidades de pensamento que ela contém. A minha formação abarca a sua e a transcende, e por isso eu tenho mais possibilidades. Logo, você é apenas um sujeito limitado, um idiota, que está discutindo com um ser superior e deve ficar calado." Toda possibilidade de você mesmo ter compreendido mediante um esforço pessoal certas coisas fica excluída; você é um ser determinado e o outro, que te transcende, é que pode pensar sozinho. E é justamente por pensar sozinho que ele chega àquela conclusão...

Única resposta possível, de bate-pronto: "Idiota é você".



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