Sobre o Perdão
Por Pedro Sette Câmara
Assistir TV é coisa que faço raramente. Não porque a odeie como aqueles que a acusam de ser "alienante"; é simplesmente uma questão de desinteresse. Desinteresse que tendo a sentir pelo mundo cinematográfico também. A imagem em movimento (não confundir com a "imagem-movimento" de Gilles Deleuze, pelo amor de Deus) coloca minha mente num estado de semi-sonolência, beirando a hipnose, e por isso toda vez que me ponho em frente à TV tenho uma horrível sensação de perda de tempo - de tempo consciente.
Mas o fato é que assisti, por coincidência, a dois episódios da série americana Party of Five, que me serviram de motivo para uma pequena reflexão sobre o exercício do perdão no mundo moderno.
A história é a seguinte: um jovem casal, ao chegar em sua própria casa, encontra nela um ladrão. Este, ao ser surpreendido, agarra a esposa e, usando-a como refém, toma dinheiro de seu marido e leva o cordão de ouro que ela carregava no pescoço. Depois, foge. O casal vai a polícia. A polícia encontra o larápio, e o casal o reconhece numa daquelas típicas "sessões de identificação" que vemos nos filmes americanos.
O malfeitor está preso. Mas a vida do casal está alterada. Ela não consegue mais dormir, e perdeu o apetite. Ele enche a casa de trancas, grades, e alarmes. Ela vai fazer terapia oferecida pelo Estado para as vítimas de violência.
Um dia, no prédio estatal onde estas coisas todas acontecem, é abordada pela irmã do malfeitor, que lhe conta a respeito de um filho, ainda bebê; no dia seguinte, encontra o próprio na espera da sala da promotoria, e vê nele não um sujeito decididamente mau e perverso, mas alguém pobre e indefeso. E ela percebe o grande mal que seria mandá-lo para a prisão. O marido, que já estava todo feliz com a condenação certa do malfeitor, fica encolerizado ao ver que o coração da mulher balança, como se fraquejasse.
Aqui está configurado um dilema aparentemente insolúvel, ao menos da maneira como é apresentado pela série de TV: deve-se perdoar alguém "com dificuldades" e "que só fazia isso por necessidade" e deixar um malfeitor à solta ou deve-se premeditada e pausadamente retribuir em dose cem vezes maior um ato inconseqüente de maldade?
Mas é claro que, para entender a verdadeira natureza do dilema, vamos ter de reformulá-lo, analisá-lo fora dos clichês sociológicos e sentimentais.
Em primeiro lugar, não podemos negar a natureza do mal. Roubar é mau; arrombar a casa dos outros é mau; ameaçar as pessoas é mau; usar pessoas como refém também é mau. Quem faz isso, faz porque tem o mal dentro de si. Não há fator sociológico que desculpe isso, e o melhor argumento a meu favor é o de que a maior parte dos pobres e necessitados permanece na honestidade. Em princípio, portanto, o que o ladrão fez merece uma punição.
Não me venham acusar de "falta de caridade". A caridade não cabe e nem pode caber à vítima enquanto ela está na posição de vítima. Não se pode pedir a uma vítima de roubo, de mutilação ou de estupro que perdoe seu algoz no momento em que é violentada, ou mesmo depois. Só pode perdoar quem tem o poder de perdoar. Só perdoa quem está acima do algoz. Jesus Cristo pediu perdão para aqueles que O crucificaram. Mas Jesus Cristo era Jesus Cristo. Nenhum mártir da Igreja Católica disse, na hora da morte, para o carrasco: "Ah, eu te perdôo". Até porque o carrasco talvez desse uma boa risada.
Logo, aproveito para dizer que todos estes ideólogos do pseudo-bem que advogam o perdão gratuito para bandidos e malfeitores são eles malfeitores também, que estão apenas querendo fazer as vítimas de otário. Isto deveria ser bastante claro, mas entendo que a existência de um Paulo Evaristo Arns ostentando o título de bispo (que não é nem nunca foi, pois que já nasceu excomungado latæ sententiæ) torne as coisas mais difíceis.
Um belo exemplo de exercício do perdão nos é dado em Les Misérables, de Victor Hugo. Quando o bispo é assaltado por Jéan Valjean, ele não o perdoa e ajuda enquanto está na posição de vítima, mas só quando os policiais o trazem, todo amarrado, e perguntam ao bispo o que quer que façam com ele. A situação de poder ficou invertida.
Em segundo lugar, vejamos o outro lado do dilema, que é justamente este lado da quantidade de poder. O ladrão, sozinho e sem a ajuda de ninguém, pôde entrar na casa deles, ameaçar a esposa, levar seu cordão e mais um dinheiro do marido. Ele lhes tomou alguns bens materiais, a sensação de bem-estar de alguns dias, e alguma dignidade. Mas isto foi feito de homem para homem, sem intermediários. Só que de repente a situação fica completamente invertida: um casal, apoiado pelo imenso aparelho estatal americano, tem o poder de enterrá-lo por alguns anos em um presídio qualquer. A desproporção de poderes deve ser óbvia. A desproporção entre crime e castigo também.
Aí é que estão, ou deveriam estar, o verdadeiro dilema e a verdadeira razão de mal-estar da moça: ao condenar o rapaz, ela se torna sua algoz, e o mal que lhe inflige é muito pior do que o que ele lha fez. Ao mesmo tempo, sua condição de vítima daquele ato não foi revogada: o Estado americano não somente a usurpou como também sua possibilidade de transcendê-la. Ao contrário, o Estado deu-lhe terapia.
Mas não era de terapia que ela precisava. O que ela precisava era a chance de dar ao ladrão um castigo proporcional ao seu ato. Até porque, se querem saber, um castigo proporcional poderia trazer alguma chance de regeneração; o senso de proporção das coisas, jogado na cabeça de um marginal, ou de qualquer pessoa com problemas psicológicos, pode servir como excelente reality check, e, por conseqüência, como base para sua reintegração no mundo. Esta experiência pode ser educativa. Mandar um simples ladrão de casas e carros cumprir anos de pena num presídio pode ser uma resposta muito mais brutal do que os roubos que ele cometeu; e esperar que, após submetido ao nonsense violento de sua pena, o malfeitor ainda tenha uma experiência educativa e seja capaz de transcender as condições do meio (do presídio) é esperar dele algo que não se espera nem mesmo das supostas pessoas de bem dos tempos modernos.
Vejam: não estou advogando a caricatura gratuita de perdão como se entende hoje, como defenderia um Paulo Evaristo Arns; estou apenas dizendo que devemos prestar atenção na proporção entre crime e castigo, e que um castigo desproporcional pode ter efeitos contrários ao esperado. Não sei se há um castigo-modelo universal que deva ser aplicado aos ladrões. Se me perguntassem o que eu gostaria de fazer, diria que em primeiro lugar gostaria de reaver minhas coisas. Depois, se o encontrasse na situação de um para um, dar-lhe um cacete. Se não, se tivesse amigos que me ajudassem, simplesmente assustar-lhe com a possibilidade do que poderia acontecer. Em ambos os casos, depois que estivesse revertida a situação de poder, e eu o tivesse em minhas mãos, eu o perdoaria. Porque perdoar não é abster-se da justa reparação, nem resignar-se com o estado de vítima, mas abster-se da condição de algoz.
28/07/99