O MUNDO COMO MUNDO

 

Nota sobre o "Casamento Gay"

Por Pedro Sette Câmara


O debate sobre o "casamento gay" ilustra bem o maniqueísmo de supostos conservadores e supostos progressistas, ambos os grupos submersos na ilusão de que suas idéias partiram de suas próprias cabeças. De um lado, os ditos conservadores, que se opõem à união civil de homossexuais por acreditar que o Estado tem o dever de guardar certos valores morais e manter, assim, a saúde da vida social. Do outro lado, os soi-disant progressistas acham que é hora de abandonar as peias do moralismo e assistir à população homossexual que não só também tem os seus direitos como deveria tê-los especialmente.

Ora, qualquer um que ache que o Estado, ainda mais leigo, deve ser o guardião dos antigos valores morais é nada menos que um fascista. E quem acha que o Estado deve apoiar os novos valores morais é igualmente fascista. Daí vemos que tanto o nosso conservadorismo quanto o nosso progressismo não são mais do que variações sobre o mesmo tema estatizante e totalitário. Os conservadores pensam segundo a antiga ideologia fascista, e os progressistas segundo a nova ideologia fascista, legitimadora da Nova Ordem Mundial. Conservadores se prendem a ideologias nacionalistas da primeira metade do século, e progressistas vão na onda do globalismo que infecta o planeta desde o tribunal de Nuremberg.

Como sou um anarco-capitalista (na linha de David Friedman, segundo me explicou uma vez o Alvaro), tenho verdadeiro horror a ambos. E, quanto ao casamento gay especificamente, tenho-lhe horror por um lado e por outro acho que é excelente idéia.

Se estivéssemos falando de casamento religioso, de matrimônio realizado pela Igreja Católica Romana, certamente seria um escândalo, porque é à Igreja - e não ao Estado, seus pseudo-conservadores de meia tigela - que cabe a manutenção dos valores da sociedade e, enfim, a quem compete que a cultura esteja conforme à natureza das coisas. Vejam que falo da Igreja Romana, pois nenhuma outra igreja tem a mesma primazia que ela no Ocidente. Que outras igrejas tenham suas esquisitices é coisa que não me abala nem um pouco. Por exemplo: a "igreja" anglicana, a mais asquerosa seita já surgida em toda a História da humanidade, já tem até uma liga de padres travestis. Mas o que poderíamos esperar de uma "igreja" fundada sobre os caprichos de um assassino?

Mas, voltando ao nosso casamento estatal, permitam que eu explique por que apóio a sua versão leiga homossexual. Em primeiro lugar, é preciso entender que o casamento estatal nada mais é do que uma caricatura do matrimônio religioso, e nada além disso. Um outro exemplo de caricatura seriam as certidões de nascimento, que nada mais são do que a versão laica das certidões de batismo. O Estado leigo foi criado para usurpar as funções da Igreja Católica e a ela se opor, e somente para isto; e como a criminalização da natureza e a apologia da anti-natureza fazem parte da sua razão de ser, acho que ele deve - como acabará fazendo de qualquer jeito - institucionalizar não só o casamento gay, mas também a união civil de jumentos, hienas, marrecos, samambaias, hidrantes, peças de automóveis, utensílios de cozinha, meteoritos e tudo o mais que a imaginação alcançar. E acho que deveria fazê-lo já, para que seu ridículo seja manifesto aos olhos de todos de uma vez, sem estas gradações que só servem para esticar os limites do infra-humano. Afinal, não é preciso ser muito inteligente para perceber que aquilo que começou como a secularização do sagrado fosse terminar com a sacralização do discutível prazer esfincteriano. Afinal, alguém acha que paganismo (secularismo = paganismo) seja outra coisa?

Como conservador de fato, isto é, alguém desejoso de conservar a conformidade entre cultura e natureza, abomino o casamento gay e, pela mesma razão, abomino o Estado leigo secular que se arroga autoridade espiritual. Mas, pela mesma razão ainda, defendo - até por acreditar inevitável - que o Estado leigo desça a níveis inimagináveis de ridículo, institucionalizando o casamento secular do que quer que seja. Aliás, acho até que o Estado leigo deveria proibir o casamento de casais compostos de um homem e uma mulher.

Enfim, esta breve reflexão tem o propósito de redefinir a palavra "conservadorismo", devolvendo-lhe seu sentido original. Espero que nenhum leitor tenha projetado aqui alguma proposta política, uma idéia para um sistema de governo, porque não tenho a menor idéia de como se deve organizar a sociedade. A única coisa que defendo, no presente momento, é que as discussões a respeito não se restrinjam a dois tipos de fascistas.

30/08/99