O MUNDO COMO MUNDO

 

A pseudo-iniciação do Sr. Baglione

Por Pedro Sette Câmara


Como estou habituado a escrever sobre temas religiosos, pensei em responder ao artigo publicado por Marcelo Baglione no site do Aqui! a respeito do terceiro segredo de Fátima. Mas logo vi que isto não seria possível: a confusão do artigo é tão grande que demanda antes uma explicação, que por sua vez valerá bem mais do que a simples refutação desta ou daquela tese isolada. Uma coisa que aprendi, nas várias polêmicas em que já entrei, é que certas coisas devem ser tratadas no seu próprio plano, sem lhes conferir um estatuto respeitável; por isso, explico aqui como é que o Sr. Marcelo Baglione consegue sintetizar tão brilhantemente a falta de lógica, a insensibilidade no trato com o tema, a ausência de informações importantes e, como se isto não fosse suficiente, uma inabilidade com a língua digna de um vestibulando. Sendo estas qualidades que dificilmente se encontram naturalmente reunidas em uma só pessoa, tenho razões para crer que são fruto de um esforço pessoal.

Comecemos pela falta de lógica. A forma como ele sugere a relação entre a declaração do Papa e o terceiro segredo emula uma petição de princípio, isto é, toma a tese pela prova. Como nada disso parece ter sido feito conscientemente, acho impossível que haja qualquer má intenção por parte do mesmo. O que há é apenas a legítima confusão das palavras do Papa com seus próprios conteúdos mentais: "No entanto, algo na declaração merece a mais profunda atenção. Logo após a leitura desta nota, a primeira coisa que me veio a mente foi (a título de hipótese)..." Desse modo, o Sr. Baglione avisa sutilmente que não dirá nada a respeito de algo que esteja contido, implícito ou sugerido na declaração do Papa, mas na sua própria hipótese. Logo, a declaração papal é um mero PRETEXTO para as especulações que ele faz, e por si nada tem a ver com estas.

Através de um sutil salto verbal, ele impinge ao leitor um enorme salto lógico, transformando uma mera hipótese em certeza e calcando todo um corpo de especulações nela, o que por sua vez também lhe confere o estatuto de pressuposto fundante. Ao fim do texto, o leitor desatento ou apreciador de fantasmagorias tem a impressão de que de fato o Papa sorrateiramente se referia ao terceiro segredo de Fátima na sua declaração.

Se o Sr. Baglione tivesse feito isto conscientemente, seria um manipulador, uma pessoa versada na arte de desfazer consciências, coisa que se torna cada vez mais comum devido ao aumento de "iniciados" de várias seitas, que vão do pseudo-sufismo de Omar Ali Shah aos círculos de programação neurolingüística. E, no caso do mesmo procedimento ter sido usado inconscientemente, o Sr. Baglione passa à condição de vítima destas mesmas manipulações.

Ainda que não pertença a alguma organização que utiliza estes procedimentos, o fato é que escreve como se pertencesse. A confusão mental, o tom caricatural de mistério e a mensagem em código no fim do texto - "Dedicado à Mãe Divina e todos os seus missionários. Jai Ma." - parecem dar testemunha disto, ou no mínimo que ele está se comunicando com os leitores de um mesmo tipo de esoterismo barato.

Passemos à insensibilidade em relação ao tema. Primeiro, é evidente que ele só é capaz de entender o fim do mundo como o fim do mundo físico. Segundo, só é capaz de entender o terceiro segredo como o mesmo fim do mundo ou como o fim do papado. Terceiro, ele acha que Jane Dixon, uma simples sensitiva, é "uma das mais fabulosas profetisas de todos os tempos". Quarto, ele é incapaz de contextualizar a questão do terceiro segredo na crise de fé que a Igreja vive, de forma mais grave e evidente, desde o Concílio Vaticano II. Quinto, e mais grave, ele não percebe o escândalo que há em o Vaticano se negar a cumprir a ordem de Nossa Senhora. Isto já o desqualifica não apenas para falar sobre os segredos de Fátima como sobre qualquer outro assunto de natureza espiritual. Aqui repito: uma tal insensibilidade parece ter sido projetada, forjada em alguma pseudo-iniciação, pois mesmo o mais comum dos mortais ainda percebe uma ou outra nuance da questão.

Sobre a ausência de informações importantes, poderíamos simplesmente citar, além da própria crise da Igreja (a respeito da qual muita coisa pode ser encontrada no "Pequeno Guia da Crise da Igreja"), o fato de o Vaticano ter proibido a Irmã Lúcia de falar, o não-cumprimento do pedido de consagração da Rússia pelos bispos do mundo feito pela Virgem em Fátima, a natureza dos dois primeiros segredos, a descida do sol no dia 13 de Outubro de 1917, a história espiritual das três crianças, o fato de João XXIII ter desmaiado ao ler o segredo, quem são as pessoas que hoje o conhecem, etc. Mas, o que fazer? O Sr. Baglione já mostrou que prefere as próprias especulações aos fatos, projetando seus pensamentos nas coisas.

Por fim, o português. Gostaria de ressaltar apenas uma frase, que não parece ser um lapso desprezível: "as aparições da 'Virgem' que exortou e vaticinou os fiéis e de todo o mundo, bem como a própria igreja". Ora, em primeiro lugar, quem exorta, exorta alguém a alguma coisa. Por exemplo: São Paulo exorta os cristãos a orar sem cessar. Este verbo é necessariamente transitivo direto e indireto. Em segundo lugar, o emprego do verbo "vaticinar" é inteiramente esdrúxulo: acontecimentos podem ser vaticinados, e não pessoas. E, finalmente, exortar e vaticinar os fiéis ao mesmo tempo é que não dá!

Aqui selecionei apenas alguns momentos de confusão no texto do Sr. Baglione. Não tenho paciência para esmiuçar tudo. Gostaria, enfim, de fazer notar mais uma vez a conclusão a que cheguei na análise deste texto: a confusão mental do Sr. Baglione não é natural, mas sim o fruto de uma pseudo-iniciação, seja ela simplesmente virtual - e para tanto basta ser um apreciador de Leonardo Boff ou coisa semelhante - ou formal, isto é, acompanhada de alguma espécie de rito, e neste caso o Sr. Baglione pertence de fato a alguma organização. Se isto for verdade, posso supor que a sua confusão mental ou é causada por seu "mestre" ou é simplesmente fingida por ordem do mesmo. O que, como diria Groucho Marx, não melhora em nada a sua situação.

Esta conclusão me parece corroborada por outros dados do site, como certos textos, a preferência por uma temática "ocultista" e sobretudo o link que havia para a página de um certo Flávio Calazans, este sim uma vítima clara da pseudo-iniciação tal como a descreve René Guénon em seu livro "O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos".

Como a vida espiritual, ou mesmo a vida humana comum, não pode subsistir em meio a tamanhas confusões, espero que esta "desconstrução" do artigo sobre o terceiro segredo seja de alguma valia para seus leitores. Não lhes desejo qualquer mal, até porque se desejasse eu simplesmente não me daria ao trabalho de escrever estas páginas, tão difíceis e sobre um assunto que, no fim das contas, é tão delicado.

Deixo-vos com as palavras de René Guénon a respeito:

"Quanto à 'pseudo-iniciação', ela não é nada além de uma paródia pura e simples, o que vale por dizer que ela não é nada por si mesma, que é vazia de toda realidade profunda, ou, se quisermos, que seu valor intrínseco não é nem positivo como o da iniciação, nem negativo como o da 'contra-iniciação', mas tão simplesmente nulo; se, contudo, ela não se reduz a um jogo mais ou menos inofensivo como seríamos talvez tentados a crer em tais condições, é em razão daquilo que explicamos, de modo geral, sobre o verdadeiro caráter das contrafações e o papel ao qual elas são destinadas; e é preciso dizer ainda, neste caso especial, que os ritos, em virtude de sua natureza 'sagrada', no sentido mais estrito da palavra, são coisas que jamais se podem simular impunemente."

O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos, cap XIX.