O MUNDO COMO MUNDO

Carpeaux Revolucionário

Por Pedro Sette Câmara


Para assinalar o lançamento dos Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux, selecionei um artigo, "A Lição de uma Santa", publicado originalmente em A Cinza do Purgatório, fruto do católico que, uma vez, já tinha chegado a assinar como "Otto Maria Fidelis".

A partir de uma visão da longa tradição religiosa e cultural européia, Carpeaux é capaz de nos guiar pelos mais altos significados e ressonâncias da mística da grande Santa Teresa d'Ávila ao mesmo tempo que dá conta de suas influências em terrenos mais literários do que propriamente religiosos.

Agora podemos perguntar: qual crítico literário brasileiro, hoje, seria capaz de um tal feito? Não pergunto do ponto vista da erudição, que seria covardia; nem lanço a questão desde a perspectiva diretamente mística, que seria impensável. Imagine se a essa altura do campeonato eu vou esperar que algum crítico desses jornais de Rio e São Paulo venha me transmitir ensinamentos místicos. Não falo de nada disso.

Falo da capacidade que Carpeaux tinha, e que todos devemos ter, de olhar as coisas cara a cara, e não como se estivessem mortas e ausentes, transportadas para um museu, de pedra ou de papel; falo do olhar que mantém presente a voz de tempos e autores idos, mas não simplesmente na memória. Falo da capacidade de amar estes autores como se fossem eternos (1), deixando-os falar como se estivessem aqui e agora, e justamente por isto ser capaz de traçar o painel da história da literatura, mapeando as influências para muito além do frio conceito de "intertextualidade" em que se comprazem as Faculdades da Letras. Aliás, "mapear" talvez seja a palavra certa: Carpeaux, ao amar o que lê - mas sem jamais cair na estúpida idolatria da leitura como valor em si - transforma o tempo em espaço, dispondo diante de nossos olhos autores e temas que, de certo modo, nunca deixam de estar presentes. Mas que podem ser esquecidos se não nos dispusermos a esforços de concentração - e de amor - desta ordem.

Mas, se acho que poderia exigir de todo resenhista este amor pelo que resenha, este desejo de não tapar o objeto de seu estudo com algum critério artificial - o que já é muito hoje em dia - já sei bem que não poderia exigir de todo resenhista uma compreensão deste nível da mística católica. Mas Carpeaux é capaz de atender às duas exigências, e sem escrever numa publicação especializada para um público especializado. E ainda que considerássemos esta hipótese, nos depararíamos com o fato de que hoje os cadernos culturais e as revistas de departamentos de literatura já não comportam o catolicismo, por causa de seus vícios antropológicos. O mesmo pode-se dizer das revistas religiosas, mas isto porque os autores religiosos de hoje, mesmo os supostamente católicos, parecem mais preocupados em contestar a autenticidade dos Evangelhos, ou com o inconsciente coletivo do Dr. Jung, do que com os escritos dos santos.

Em "A Lição de uma Santa", Carpeaux, em vez de partir logo de algum pressuposto psicologista, simplesmente deixa a própria Teresa d'Ávila transparecer. Carpeaux sabe que não é possível entendê-la como o antropólogo que abstrai tudo o que faz parte da essência do objeto que estuda. É preciso ouvir como o católico, como o fiel que necessita do ensinamento espiritual, ao mesmo tempo que enxerga toda a cultura que se delineia a partir dele, e se harmoniza com todas as almas que ouviram a Santa com o mesmo ouvido: "Quem não acreditar estará perdido. Quem acreditar será salvo. É a lição da grande Santa Teresa." E a lição de Carpeaux é que só o amor aos valores intemporais deste passado pode instituir a noção de tradição dentro da cultura geral e especificamente da literatura.

Tradição esta que é renovada justamente pelo desejo de tratar os mesmos temas de outrora como se fossem atuais e urgentíssimos, retornando assim à mesma fonte e fazendo a única verdadeira revolução. Sim, porque revolução significa apenas voltar ao começo, restaurar o poder da linguagem, renovando as formas cristalizadas com um sopro original.

Posso dar aqui um belo exemplo disto, citando um poema de Bruno Tolentino sobre Santa Teresa(2):

101.

"Tudo aqui embaixo quer o que ela quis.
Toda alma quer fazer o que ela fez.
É desastroso ouvi-la que uma vez
ouvido tudo aquilo que ela diz

é impossível voltar a ser feliz,
ou infeliz, com a mesma insensatez
de antes. É possível, se talvez
perigoso demais, ser aprendiz

da morte nobre, voluntária e ávida,
que a santa expostulou na fortaleza
prodigiosa e interior, se árida

(como Castela) à débil natureza.
É possível tentar (mas como Ávila)
durar na altura (torturada e presa)."

 

Dois autores diferentes, trabalhando em estilos e gêneros diferentes, com décadas de diferença, e dizendo rigorosamente a mesma coisa. O poema de Tolentino parece resumir o artigo de Carpeaux, ainda que eu possa garantir que o poeta não o tinha em mente ao compor o soneto. Será que poderíamos então falar em "intertextualidade"? Ainda que possamos, sob um certo aspecto, será que este não se afigura um conceito muito pobre para tratar deste fenômeno? Temos dois grandes autores que bebem na mesma fonte, fonte esta que é a origem de todo o Ocidente cristão, e vamos simplesmente dizer que um escreveu por cima do outro - que por sua vez teria escrito sobre um terceiro, e assim por diante? Seria a negação da própria noção de "originalidade", que no entanto parece ser a única capaz de explicar esta afinidade de almas.

 

NOTAS:

1. Se isto não for de direta intuição, sugiro a leitura de A Contemplação Amorosa e Les Plus Eclus des Exclus de Olavo de Carvalho. Se for, mantenho a recomendação: são dois textos esplêndidos, que explicitam a urgência - uma urgência de cada momento, poderia dizer um cristão - de uma certa grandeza de alma. Voltar

2. As Horas de Katharina. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. Voltar

 

Veja os textos de O Indivíduo sobre Otto Maria Carpeaux aqui