Que tal fechar o Ministério da Educação?
Por Pedro Sette Câmara
"A função do Estado é educar o povo." A frase, dita assim, parece um slogan de propaganda totalitária. No entanto, ela expressa uma realidade presente sob nossos narizes: assim como na China, em Cuba e na atual França socialista, o Estado aqui também assumiu esta prerrogativa, levada a cabo pelo todo-poderoso Ministério da Educação, que tem a função de zelar pelo suposto bom nível das instituições de ensino do país.
Qualquer amante da liberdade deveria se chocar com isto: através do Ministério, o Estado, no Brasil, é a autoridade que confere ou retira de uma instituição o status de universidade. Como ninguém se choca, vê-se que amantes da maior riqueza do homem não existem dentro das referidas instituições. E, para piorar sua condição de vaquinhas no presépio do Ministério, as universidades mesmas sequer ousam soltar um só pio contra os métodos de avaliação do Ministério, como o "provão", preferindo antes exibir seus "A" como uma empresa exibe um certificado de ISO 9000.
Mas seria para muitos desrespeitoso considerar uma universidade como uma empresa, e por isso talvez ainda devamos julgá-las como se fossem venerandas instituições de ensino. Infelizmente, isto leva a considerações ainda mais embaraçosas: qual pesquisador ou professor realmente sério solicitaria a opinião da burocracia estatal para saber a medida do seu valor? Isto confirmaria para além de toda dúvida a idéia de que, nas universidades, "o aluno finge que aprende e o professor finge que ensina": se ensinasse mesmo, não ficaria ansioso com a opinião do Ministério.
Tal é a razão pela qual ninguém questiona o Ministério: seriam pegos de calças curtas, e uma "fiscalização" de alguém realmente capacitado mostraria que a pendenga se resume ao roto falando do esfarrapado. Os que não dependem de verba dependem do selinho de qualidade do Ministério, e no dia em que este não for magnanimamente concedido, a única coisa que lhes ocorrerá será ir para casa chorar, em vez de continuar a vida normalmente, tendo atinado enfim com esta esdrúxula pretensão dos nossos políticos. Pois, ainda que os funcionários do Ministério fossem gente sapientíssima, portadores de fato de uma ascendência intelectual sobre a gente ignorante das universidades coisa que certamente não são, e para tanto basta olhar o monumento à estupidez que são os Parâmetros Curriculares Nacionais editados pela nossa burocracia , considerar a fiscalização das instituições de ensino uma função do governo não passa de demência totalitária. Ao governo cabe a administração só de algumas coisas, e não de todas, e os conteúdos das mentes das pessoas certamente saem pelo amor de Deus de sua jurisdição.
Além de professores e reitores, os estudantes também são culpados. Muito se fala sobre o movimento estudantil dos anos 60 e 70, e sobre os caras-pintadas (dos quais fiz parte), mas ninguém nunca buscou a independência da universidade em relação ao Estado, sem a qual não há rigorosamente nenhuma possibilidade de os estudantes se afirmarem como um poder real e realmente independente.
Para acabar com esta situação verdadeiramente ridícula e prejudicial ao país, bastaria que uma ou duas universidades, ou mesmo a UNE, simplesmente decidissem ignorar o Ministério. As universidades que estão sob ameaça de ser fechadas poderiam, aliás, começar dando o exemplo. Assim como o Ministério se nega a reconhecê-las, elas também se negariam a reconhecer a autoridade do Ministério. Se há, por exemplo, cursos de universidades católicas em vias de extinção, elas deveriam dizer: "Eu existo há dois mil anos, você nasceu ontem. Não é você que vai mandar me fechar. Sou eu que vou mandar fechar você." Claro que nada disto irá acontecer. Não se pode esperar uma atitude séria de pessoas que não têm amor pela verdade nem amor pela liberdade. Nos dias que correm, a defesa fingida destas coisas é um excelente negócio, mas controlada dentro de certos clichês: a TV, que você só liga se quiser, que você só compra se quiser, é muitas vezes culpada pelos Rousseaus de plantão por todos os males do país, da pornografia à violência e à corrupção; ninguém fala nada sobre as muito mais inescapáveis patas totalitárias e boçais do Ministério sobre o ensino no país, que vêm cristalizando a burrice entre nós. Todos têm ódio do dominador malvado, do Grande Irmão, mas ninguém é capaz de ver onde ele está realmente, justamente por não querer de verdade nem isto, nem nada que não concorra para perpetuar a mediocridade reinante.