O MUNDO COMO MUNDO

Inferno Ateu

Por Pedro Sette Câmara


"Tudo é bom, mas nem tudo é conveniente." - São Paulo

Quando dei a esta coluna o nome de "O Mundo como Mundo", pretendia declarar guerra ao "mundo como idéia", tal como o descreveu Bruno Tolentino no livro assim chamado, que permanece inédito. Talvez por isto o título da coluna tenha perdido força; mas agora é ocasião para reafirmá-lo, oferecendo ao meu amigo Sergio de Biasi uma resposta ao seu argumento moral.

A moralidade não é um aspecto separado do ser. As coisas não são boas ou más conforme as julgamos, ou segundo tais e tais padrões culturais; as coisas são boas ou más conforme se apresentam a mim naquele momento.

Quando tenho fome, e como, a comida me é boa. Ela não era ruim antes, e passou a ser boa naquela hora; ela já era boa, e na hora da fome passou a ser conveniente também. O bem que a comida me faz, também, não pode ser distinguido da comida mesma, a não ser por um processo mental que, em si, nada tem a ver com o ato de comer.

É por isto que as questões do bem e do mal no mais das vezes se apresentam apenas como casos concretos e irredutíveis, dos quais raramente se pode extrair uma regra geral. Não posso dizer que comer é sempre bom; às vezes é, às vezes não. Se comer fosse sempre bom, daí se poderia deduzir que quanto mais alguém comesse melhor estaria, e a experiência comprova que isto não é verdade. Como dizia Paracelso, a diferença entre o remédio e o veneno está sempre na dose.

Se meu amigo Sergio pretende discutir as coisas em termos das namoradas alheias, o raciocínio continua valendo: a linda namorada do seu amigo é definitivamente um bem; ela só não é conveniente enquanto namorada do seu amigo.

Porém, para compreender as coisas em termos de conveniências, é preciso ter uma medida. E ao meu amigo Sergio, a quem estimo e respeito, falta a medida fundamental, que é a admissão da existência de Deus. Somente o absoluto divino pode mensurar e dar sentido ao relativo humano, até porque qualquer relativo só faz sentido frente a um absoluto, mesmo que este absoluto seja somente hipotético e arbitrário. A medida da comida só faz sentido entre a anorexia e a obesidade, e o bem só faz sentido entre o inferno e o céu. Sem esta medida, que é dada pela realidade objetiva, só o que pode haver são padrões morais abstratos, fixados entre ideais abstratos de conduta moral, que carecem de sentido justamente por carecer de realidade.

Graças às medidas extremas da realidade posso saber o que me é conveniente em tal ou qual momento, o que é proporcional ao estado de coisas.

Pode ser que esta colocação do problema em termos de conveniências escandalize aos moralistas, como ao meu amigo Sergio. Mas isto só pode escandalizar a quem compreender a moral como um aspecto distinto do ser, transportando para o mundo a operação mental que é capaz de enxergar distintamente a beleza, e verdade, e a bondade. O fato de podermos separar estes três aspectos mentalmente não indica que eles estejam de fato distintos na natureza; na verdade, tudo o que apreendemos do mundo apreendemos como unidade, e toda a distinção é sempre mental e a posteriori.

Se nós, seres corpóreos, devemos buscar a própria perfeição, devemos fazer isso segundo a conveniência das situações e materiais que se nos apresentam. A namorada do amigo pode, não enquanto ela mesma, mas enquanto namorada do amigo, representar no mínimo a ruína social, ou o fim de uma amizade, e isto, antes de ser feio ou "imoral", é ruim e traz a degradação do ser pessoal. E o contato com ela só deve ser evitado em vista de um bem maior do que ela mesma, que pode ser desde a simples manutenção das boas relações como o desejo de se ocupar de outros assuntos que possam vir a ser mais importantes. E ainda pode acontecer de ela ser um bem tão importante e fundamental que justifique o rompimento de quaisquer relações. Ou pode acontecer qualquer coisa que ignoramos. As situações não são tão simples e estáticas como quer o meu amigo Sergio: o julgamento moral é pessoal e intransferível, e esta é uma das razões porque Deus nos concede um juízo particular.

Com isso, não quero dizer que a diferença entre o bem e o mal, ao menos para as almas treinadas, não seja clara e cristalina; quero apenas dizer que uma coisa é distinguir o bem e o mal, e outra é distinguir as motivações subjetivas de alguém e dar conta da totalidade de uma situação. Somente duas pessoas podem compreender totalmente a bondade ou maldade de um ato: a pessoa que o pratica e Deus. Assim, é muito fácil emitir julgamentos sobre situações abstratas, ou literárias, e muito difícil fazer o mesmo a respeito de situações reais. Não foi à toa que Jesus Cristo repetidamente nos advertiu para que não o fizéssemos; e, como disse Olavo de Carvalho em recente artigo publicado na revista Época, "o problema de ficar longe do mundo é que a gente vai chegando cada vez mais perto do inferno."

Como pretendo permanecer o mais longe possível do inferno, só posso rejeitar inteiramente, categoricamente, o argumento que meu amigo Sergio arremessa de seu púlpito. A idéia de uma moralidade atéia, que permaneça como uma régua fixa de um objeto mutante, dissociada das necessidades da vida real da alma, e daquilo que lhe convém ou não em tal ou qual momento na sua peregrinação rumo à perfeição, não pode ser minimamente aceita. A menos, é claro, que Sergio esteja, coisa que não creio, disposto a julgar os outros segundo seus próprios critérios morais, que colocando-se como a medida da perfeição, e os demais como imperfeições que mancham esta parca existência mundana. De qualquer modo, não custa lembrar que "todos pecaram e estão privados da glória de Deus."

Por isto, caro Sergio, rejeito tudo o que disseste, e reitero ainda que a correção nas ações é mais importante do que o fluxo descontrolado da simples imaginação e dos desejos. A menos, é claro, que você pretenda mesmo nos mandar a todos para o inferno.


12 de junho de 2000