O MUNDO COMO MUNDO

Extrema direita? Onde?

Por Pedro Sette Câmara


Um amigo me repassou um texto enviado para a lista "Carpe Diem", de pessoas ligadas a um extinto jornal da Escola de Comunicação da UFRJ. O texto começa pretendendo fazer um histórico da suposta "extrema-direita" no Brasil, colocando no mesmo saco personagens tão díspares como Jackson de Figueiredo, Plínio Salgado, Gustavo Corção, Plínio Correia de Oliveira, Olavo de Carvalho e até mesmo Diogo Mainardi, e termina propondo uma grande aliança para combater a face mais nova desta "extrema-direita".

O significado da expressão "extrema-direita", por sua vez, não é explicitado em nenhum momento. Só resta usar o método indutivo, olhando os personagens eleitos como representantes da "extrema-direita", e, a partir de seus traços comuns, estabelecer o que ela vem a ser.

De cara, sei que, à exceção de Figueiredo e Corção, que foram amigos, não há sequer uma linha de continuidade entre os personagens citados, e nem mesmo uma comunhão positiva de idéias, além da eventual adesão - formal ou informal - à religião cristã: o que une esta gente toda - e talvez nem una Diogo Mainardi aos demais, na verdade - é a simples aversão ao comunismo. Examinemos um a um.

Plínio Salgado, de fato, pode cair no rótulo "direita". Era um líder político, um desses sujeitos cheios de idéias para reformar o mundo, e pretendia combater o comunismo no plano político, não no plano teórico ou filosófico. Ele não pretendia provar que o marxismo era errado, nem debater pontos da teoria marxista, mas simplesmente retirar os meios de ação dos comunistas.

Jackson de Figueiredo e Gustavo Corção eram apenas pensadores católicos, que combatiam o comunismo a partir do ponto de vista religioso - no que são apenas coerentes, aliás. Há um decreto da Santa Sé condenando com excomunhão latae sententiae todos os comunistas e mesmo os que votarem em partidos filocomunistas. Um sujeito não pode ser católico e filocomunista ao mesmo tempo. Isto é uma questão técnica, factual. Não dá nem para debater. Qualquer um desses esquerdistas que se dizem católicos não o são. É simples assim. Nem digo isso para defender o catolicismo nem nada: estou só tirando uma dedução óbvia da lei eclesiástica.

De qualquer modo, chamar Corção de "extrema-direita" só é possível para quem considera que o esquerdismo é o estado normal do pensamento, e que qualquer desvio desta orientação ideológica é uma espécie perversa de anti-natureza. Corção seria, na pior das hipóteses, um direitista moderadíssimo, por ter defendido aspectos do regime militar - que, comparado a qualquer regime comunista, parece obra de anjinhos - e por não ter falado mal de Franco. A única coisa que havia de extremo em Corção era sua adesão à Igreja Católica. Como jornalista, era um religioso comentando a decadência de seu tempo, e suas preocupações se referiam muito mais a assuntos internos da Igreja, para os quais a qualificação de "esquerda" ou "direita" é totalmente imprópria. Seria como dizer que um automóvel é saboroso.

O falecido Plínio Correia de Oliveira também não pode ser chamado de "direitista" com propriedade. Ele era um líder religioso, e não político. Sua seita, a TFP, é como a seita do Reverendo Moon, do Jim Jones, do Idries Shah, essas coisas. É exatamente aquilo que os americanos chamam de "cult": uma pseudo-religião que serve só para endoidar as pessoas, cheia de esoterismos sem sentido, como a identificação de Plínio com a Virgem Maria. Os caras da TFP, aliás, não estão preocupados com a luta contra a esquerda e nem com a reforma do mundo: eles estão preocupados com a vinda do anticristo, com o que eles chamam de "bagarre" (palavra francesa que significa "confusão") que antecederá o "Reino de Maria". Suas preocupações são sobretudo escatológicas, ainda que caricaturalmente.

A TFP também não constitui um partido político e nem tem qualquer expressividade na cultura nacional. Aliás, nenhum dos citados até agora tem algum peso na cultura brasileira hoje. A única coisa que os une é o anticomunismo, e é só por aí também que podemos entender o que é que Olavo de Carvalho faz na lista.

Porém, o anticomunismo de Figueiredo, Corção e Olavo não surge de um desejo de ação política, mas da simples observação da natureza nefasta do comunismo - tão nefasta que chega até a fazer com que as melhores pessoas achem que ele é a normalidade do pensamento "esclarecido" (sic), e não apenas uma ideologia -, buscando travar com este um debate filosófico, ou desnudando a feiúra da longuíssima lista dos crimes cometidos pelos regimes chamados "comunistas", de modo a levar a uma compreensão da realidade do comunismo.

Agora, chamar de "extrema-direita" um sujeito como Diogo Mainardi, que nada mais faz além de dizer que morar em Veneza é melhor do que morar no Brasil, é coisa que escapa da minha possibilidade de resposta. Não consigo nem imaginar as acrobacias mentais necessárias para incluir Diogo Mainardi nesta lista, um sujeito inteiramente alheio ao debate político, um homem inofensivo, que só escreve sobre veleidades. Ele poderia no máximo ser chamado de burguês, e impropriamente também.

Aliás, no texto há ainda duas coisas que precisam ser reparadas a respeito destes últimos personagens. Ele diz que esta nova "extrema-direita" "desconfia da política" e "não é nacionalista". Você não pode dizer que uma pessoa é de direita e logo depois que ela "desconfia da política". Seria como dizer que um jogador de futebol desconfia do futebol. Quanto ao nacionalismo, basta dizer que pelo menos Olavo de Carvalho é bastante nacionalista, como aliás ele mesmo fez questão de esclarecer em sua homepage, no texto "Fórmula da minha composição ideológica", do qual seleciono o trecho abaixo:

"Para enfrentar o governo mundial é preciso criar um novo nacionalismo, liberal, democrático, inteligente, capaz de tomar parte no jogo da globalização sem deixar que transformem nosso país numa província ou numa colônia de férias para turistas sexuais."

Eis aí algo que os esquemas do pensamento esquerdista comum não podem apreender: a idéia de um nacionalismo liberal. Nacionalismo só pode ser o culto das bananas, da música pop baiana e do desfile das escolas de samba. E liberalismo é algo que um esquerdista não consegue nem imaginar o que seja. Capitalismo liberal é o capitalismo dos feirantes, camelôs, flanelinhas, e senhoras que fazem comidinhas para vender, sem contar ao Leviatã que vivem destas atividades - ó horror! O brasileiro não percebe nem que distribuição de renda é o dinheiro ficar no bolso dele em vez de ir para o Estado.

Mas os nomes já estão tão descolados das coisas certas que ninguém mais percebe nem isso e nem outras obviedades, como o fato de que o Estado brasileiro proteger as corporações, impedindo pessoas não-diplomadas de exercer certas profissões, é fascismo desde o ponto de vista estritamente científico. Que o fato de existir Ministério da Educação e que as pessoas desejem que o Estado seja o paizão de todos é tipicamente fascista. Não é isso que seria a tal "extrema-direita"?

Enfim. Tudo isso só para dizer que o autor do texto pretende conferir unidade ideológica a um grupo de pessoas que, à exceção de um (Mainardi), não tem outra afinidade além de um anticomunismo eventual e oriundo de razões diferentes; e, descontado Plínio Salgado, ainda se pode dizer que nenhum deles tinha como objetivo sequer inspirar algum tipo de ação política imediata.

Enquanto o debate político brasileiro estiver impregnado desses preconceitos, desse uso maluco das palavras, ignorando aliás que há coisas no mundo que não pertencem à esfera da política, ele não será um debate, porque simplesmente nada será discutido. Nem digo isso como parte interessada. Não sou esquerdista e muito menos direitista. Tenho verdadeiro horror à idéia de planejar o mundo de qualquer modo que seja. Mas também tenho horror à confusão verbal que se instalou no país, e que precisa ser resolvida o quanto antes, apenas para que as pessoas possam falar de coisas reais, sair do mundo da pseudo-linguagem. Pessoalmente, não almejo nada muito além disso: erguer a própria cabeça acima da confusão, e ajudar os interessados em fazer o mesmo.

 


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