O céu é a verdadeira pátria
Por Pedro Sette Câmara
A irrelevância dos temas do cinema americano, aliada a uma crescente incapacidade dramatúrgica, vem me saltando aos olhos nos últimos meses. Assisti a um punhado de dramas e comédias românticas, mais e menos pretensiosos, que, no fim das contas, estavam circunscritos às necessidades sexuais de seus personagens - isto quando não partiam de situações francamente absurdas, limitando-se a exibir a impotência dos mesmos frente às conseqüências inevitáveis das besteiras que resolvem fazer (1).
Dentro deste contexto de terra devastada, fui ver The Patriot esperando algo um pouco melhor, mas melhor apenas no sentido de que, em vez de assistir a um filme sobre o desejo de ir para a cama com alguém, eu assistiria a um filme sobre um grande tema político, e a minha diversão estaria em ficar observando o tratamento dado ao tema. Porém, fiquei imensamente surpreso ao descobrir que o filme era muito melhor do que eu esperava, e que ele tocava em assuntos muito mais profundos do que faz supor o debate a respeito.
Na verdade, existem duas temáticas simultâneas no filme. O debate vem se limitando aos aspectos políticos, à questão da liberdade. Sobre isso, eu não teria nada a adicionar, até porque Llewellyn Rockwell, Joseph Farah e o próprio Alvaro já disseram o que interessa a respeito e eu não tenho intenção de chover no molhado. O aspecto do filme que me interessa tem sido, pelo que já vi, inteiramente negligenciado, apesar de ser mais importante e mais grave do que a própria independência americana.
A verdade, meus amigos, é que The Patriot é um filme "de moralidade", uma história que mostra como um homem se redimiu de seus pecados e se tornou mais santo. Isso é fácil de demonstrar.
Quando conhecemos Benjamin Martin, o personagem de Mel Gibson, ele é um pacato fazendeiro, pai de sete filhos, viúvo, cuja maior preocupação é administrar a ausência da mulher. Mas, como descobrimos depois, ele é também um soldado responsável pelo esquartejamento de pessoas vivas, assombrado pela culpa de seus atos terríveis. Como ele mesmo diz, "meu maior medo sempre foi que meus antigos pecados voltassem um dia para me assombrar".
The Patriot é a história de como este homem sofre para expiar sua culpa - a qual, obviamente, não poderia ser redimida mediante três ou quatro preces. Assim como o conde de Gloucester, que em King Lear expia o pecado de ter tido um filho ilegítimo com a perda dos próprios olhos, Martin terá de ver dois de seus filhos morrerem em seus braços, ambos assassinados pela brutalidade sem sentido de um oficial inglês - Tavington, que poderia bem passar por uma representação do demônio.
O próprio Martin fora uma vez autor de brutalidades do mesmo calibre. Porém, ele tenta ao menos fugir de seu estado infernal, retirando-se do mundo. Mas um homem não pode se esconder de Deus e nem de si mesmo, e justamente porque ele não apagou da memória seus atos, por piores que fossem, Deus lhe deu uma chance de se redimir. Mas a única maneira de fazer isso seria matando o assassino dentro dele.
Por isso, Tavington representa para Martin aquilo que ele mesmo foi um dia, aquilo com que ele precisa acertar contas em si mesmo. Assim como o homem velho precisa morrer para dar lugar ao homem novo, Martin precisa morrer para seus pecados, e Tavington é o principal. Mas o confronto com Tavington é o confronto final, e antes dele Martin precisa resolver várias coisas, numa progressiva tomada de consciência.
A morte do primeiro filho faz com que ele desperte para o fato de que não pode se dar ao luxo de ficar em sua fazenda, mas deve lutar para que a brutalidade que ele sofreu não se alastre. É seu dever como soldado defender seus amigos. É o momento em que ele percebe, como dizem os americanos, que "a man's gotta do what a man's gotta do". Se Martin recuasse depois do brutal assassinato de seu heróico filho por Tavington, sua morte espiritual estaria selada, porque as portas do purgatório estariam fechadas para ele. Mas, em vez de agir como mulherzinha e pedir uma lei de desarmamento civil, ele entrega armas a seus filhos e manda que eles atirem nos ingleses, numa emboscada que prepara.
O mais importante desta cena é que Martin dá o primeiro passo contra a irracionalidade sem sentido: em vez de se entregar, de se rebaixar ao mal que lhe é infligido, ele pára e enfrenta com nobreza, trocando a simples reação instantânea e epidérmica por uma estratégia de prazo mais longo. Martin olha Tavington e seus atos e os entende, reconhecendo aquela brutalidade satânica, e, em vez de agir como um animal, como uma besta, Martin age como um homem, no sentido pleno da palavra.
O próximo teste vem com a morte de seu filho mais velho pelo mesmo Tavington, após o massacre que este promove na cidade que apoiava a milícia de Martin. Este segundo golpe serve para colocá-lo de vez na mesma posição de Hamlet: "ser ou não ser, eis a questão". Sofrer a segunda brutalidade, e não resistir a ela como da primeira vez - ou seja, ser, em oposição ao não ser do nonsense satânico - seria ceder à tentação, sempre presente, de que não vale a pena levantar armas contra um mar de problemas e vencê-los, sendo mais fácil agüentar calado os ultrajes da má sorte. Agora Martin já vê o problema com estes olhos. Seu filho mesmo, na cena que antecede o confronto em que morre, lhe diz: "Pai, você mudou." Agora ele sabe que o que está em questão não é simplesmente a justa vingança, mas sua própria alma - e o problema da liberdade e a independência das colônias nada mais são do que uma metáfora macroscópica da sua batalha interior.
A guerra de independência é apenas um meio, o cenário no qual surge a oportunidade que Deus coloca em sua vida para se redimir. A bondade da causa revolucionária é secundária em relação à bondade da causa da sua própria redenção, e ele assume a causa revolucionária para que ela sirva ao seu acerto de contas consigo, com Deus, e com o mundo.
Quando, por fim, ocorre o confronto com Tavington, Martin é um líder mais do que estabelecido nas forças rebeldes, o soldado mais valente, e o maior estrategista, merecendo o respeito e a estima de todos os homens, tendo trazido união e força a toda uma região. Se a batalha fosse perdida, ele inevitavelmente morreria como um herói. De certo modo, a sua dívida para com este mundo já estava paga. Sua folha de serviços já era invejável. A única pendenga que restava era com Tavington, essa sua sombra, seu lado demoníaco, o símbolo do mal que havia nele mesmo. Matar Tavington seria dar o golpe final no velho Martin, o esquartejador. E - detalhe mais do que interessante - Martin não mata Tavington somente com força e bravura, mas com astúcia e inteligência, num movimento surpreendente que mostra que o ser humano pode ser mais esperto e inteligente que o diabo mesmo ou seus serviçais diretos: "a malícia não vence a sabedoria" (Sab, 7:30). No caso, a intempestividade irracional de Tavington não foi páreo para o autocontrole de Martin.
Assim como o início do filme marca a entrada de Martin no purgatório, o fim marca sua entrada no céu, que fica simbolizada pela liberdade conquistada com a independência - as treze colônias se libertam do domínio inglês do mesmo modo que Martin se liberta do demônio que morava nele mesmo. A união de todos para a reconstrução de sua casa, o novo casamento, a filha que tinha parado de falar quando a mãe morreu e agora fala novamente, e a própria paisagem idílica são símbolos do céu, mostrando que agora Martin não fará mais do que gozar a vida que conquistou. Que conquistou a duras penas, note-se bem.
A identificação do céu, da "terra prometida" com os EUA independentes, da maneira como é costurada no filme, e mais esse jogo entre a luta interior de Martin com a luta pela independência, configura um grande momento de uma cinematografia nacional. Que o diretor do filme - Roland Emmerich - seja na verdade alemão apenas demonstra o estado da cultura americana hoje.
Mas, para muito além de qualquer opinião simpática ou antipática aos EUA, The Patriot é um filme feito somente para quem não pensa somente em mesquinharias e sabe que existem coisas como honra e santidade. Aliás, quem não tiver pelo menos uma idéia do que sejam essas coisas não irá sequer entender o filme (como também nunca entenderá coisa nenhuma a respeito de nada). Não é um filme para aqueles que consideram a conveniência imediatista o valor supremo. E é um filme que, no meio da enxurrada de insignificâncias e idiossincrasias da cultura moderna, surpreende por trazer para a tela do cinema as questões fundamentais da vida de um homem, mostrando que a medida da realidade é maior do que faz crer a nossa cultura, que um homem pode se elevar e ser grande. É só ele não dar ouvidos aos medrosos, não fugir de si mesmo, e aceitar a realidade tal como ela é.
31.07.00
(1) Não pense o leitor que aqui algo se assemelha à grandiosidade da tragédia; refiro-me, na verdade, a um filme com a Madonna. Seu personagem, uma mulher de quase 40 anos, e seu melhor amigo gay resolvem se embebedar e acabam tendo uma noite de sexo recreativo. Pouco tempo depois, ela aparece grávida e eles decidem viver juntos simulando para o filho - que, no fim, nem era dele, e ela escondeu esse pequeno dado o tempo todo - uma monogamia tradicional, enquanto mantêm ativa sua vida sexual à parte da vida do lar. Obviamente, isso nunca poderia dar minimamente certo. Trata-se, na melhor das hipóteses, de uma piadinha demoníaca. Voltar