Um recado aos fiscais de ortodoxia
por Pedro Sette Câmara
Quem entrar em uma igreja hoje verá que há basicamente dois grupos de freqüentadores nelas: senhoras e adolescentes. Mas, em vez de entrar nas razões pelas quais a freqüência à igreja possa ter se tornado desinteressante para um homem crescido, limitar-me-ei a apontar qual é a grande característica que une senhoras e adolescentes: a futilidade de suas palavras, que normalmente se referem a outras pessoas. Em suma, são dois grupos essencialmente fofoqueiros.
Afastei-me do ambiente eclesiástico aos 16 anos em parte por causa disso. Não tinha paciência para ouvir comentários sobre a vida alheia, e hoje estou felizmente distante destas conversas inúteis nos ambientes que freqüento. Um destes ambientes é o da Capela de São Miguel, localizada na residência do Dr. Julio Fleichman, um dos homens que mais admiro e respeito neste mundo, a quem devo nada menos do que a possibilidade de assistir à missa no rito de todos os tempos.
Se eu pudesse apontar uma só razão pela qual assisto a esta missa e não a outra, ou porque me alinho com o Dr. Julio e seu filho, D. Lourenço, seria a seguinte: perante um problema imensamente grande, que é a crise interna da igreja, e perante outro um pouco maior, que é a crise da civilização cristã como um todo, para além do clero, eles tomaram a atitude mais razoável de todas. Ficaram parados, sabendo que aquilo que já tinham não lhes poderia ser tomado por ninguém. Não se pode revogar a missa de São Pio V. Pronto. Isto é suficiente.
E o resto? O resto podemos até estudar e ter nossa opinião, mas a verdade é que não temos obrigação de saber, penso eu. Se a missa nova vale ou não? Não sei. Sei que a de São Pio V vale. Entre a certa, garantida, e a incerta, prefiro a certa. Não é pouca coisa que está em jogo aqui, vejam bem. Se o Concílio Vaticano II foi obra do capeta? Não sei, mas parece que ele tem um dedo sim. Mas o que interessa é que ele não pode mudar a doutrina da Igreja como foi até então; são 1962 anos de história contra 38 que não podem desmentir esses anteriores.
Mas voltemos às fofocas. Boa parte do "debate" que existe em certas páginas da internet, em certas listas de discussões, ou que ocupa a mente de pessoas como o prof. Carlos Ramalhete, se resume à preocupação com a ortodoxia alheia, como se houvesse uma série de candidatos dispostos a fazer o papel apocalíptico de Profeta Elias ou de anjo vingador.
Este Sr., por exemplo, chegou ao ponto de ir à missa celebrada na Capela de São Miguel somente para fiscalizar a ortodoxia da missa e a "qualidade" da celebração, compartilhando depois com seus leitores seu patético relatório, que mais se assemelhava a uma pedante crítica de cinema ou coisa assim. Nada que não lembre os fariseus de antigamente, tão preocupados em mostrar seu servilismo às leis cujo espírito não podiam apreender.
Sim, porque de um lado há aqueles que vêem na obediência cega à autoridade constituída a única forma possível de devoção, não poupando malabarismos verbais para justificar - sobretudo para si mesmos - as atitudes mais estapafúrdias dessa autoridade, insistindo em não ver o que acontece; e de outro, há os que arrogam para si a posse de conhecimentos ocultos, mais tradicionais que os dos "tradicionalistas" (na falta de um termo melhor...), e por isso mesmo capazes de julgá-los. Ambos perdem seu tempo olhando para os outros e falando sobre como "eles estão errados e nós estamos certos", no que, aliás, dão a própria infalibilidade - que em alguns casos negam ao Papa - como pressuposto. Do mesmo jeito que uma menina diz que as outras não valem nada - pressupondo que ela mesma vale, e muito. Do mesmo jeito que uma senhora diz que a vizinha é isso ou aquilo - pressupondo que ela é uma santinha.
Todo este assunto é tão vastamente cansativo e ridículo que só me dou ao trabalho de escrever isto para que quaisquer pessoas que se sintam minimamente dispostas a atuar como fiscais da ortodoxia alheia sejam devidamente afugentadas. Pode ser que alguém venha dizer que eu mesmo sou um "fiscal de ortodoxia": afinal, já assinei a Heresia da Semana. A acusação não procederia. O espírito da coluna, bem como o do Guia da Crise da Igreja, é o de busca da compreensão do que está acontecendo, e não o de fiscalização de roupa de padre em missa, ou da saia das mulheres que as freqüentam - assunto que, posso garantir, muito interessa ao Sr. Carlos Ramalhete, por exemplo -, como se disso dependesse a santidade do rito de uma religião fundada por um sujeito que vivia cercado de prostitutas.
Enfim, sumam, vocês que se preocupam com isso e que não têm a menor vontade de entender nada. Não leiam este jornal. Não apareçam na missa a que eu assisto para espioná-la. Não me venham com tons pedantes e ocultistas me falar que o tradicionalismo católico é isso ou aquilo. E, sobretudo, não me venham dizer que é preciso fazer alguma coisa para restaurar a monarquia católica, ou sei lá o quê. O máximo que se pode restaurar é a consciência pessoal, e isso é uma obra pessoal. Fiquem com a sua conversinha de senhoras eruditas que eu tenho mais o que fazer do que ficar reparando na profissão de fé dos outros.