O MUNDO COMO MUNDO

O Coração e o Mundo

por Pedro Sette Câmara


"...põe teu coração
nas mãos Daquele grande solitário."

Bruno Tolentino

Criticar o mundo moderno em nome de um mundo que passou, por melhor que tenha sido, é literalmente uma forma de culto da História, tão condenável quanto o culto que lhe prestam progressistas de toda sorte. É por isto que não creio na crítica ao mundo moderno em nome da Igreja Católica ou de um tempo passado, mas somente em nome da verdade, trazida pela consciência individual, sua única portadora. Ela é que fundamentará qualquer fala, a favor ou contra qualquer coisa.

Um mundo antigo não era bom porque sua organização social era melhor do que a atual, ou porque a cultura era diferente, ou porque as tecnologias eram outras; ele era melhor ou pior conforme a santidade e o desejo de verdade de cada indivíduo em particular. E não podemos restaurar, de um mundo passado, as suas instituições, suas leis, ou sua cultura; mas podemos restaurar, dentro de nós mesmos, a sua essência cristã, a mesma que já sustentou sociedades tão diferentes através dos últimos dois mil anos, e ter conosco "a única coisa necessária", inclusive para a nossa felicidade.

Se não desejarmos primeiro isso, estaremos confundindo o Cristianismo com um determinado momento da história cristã ao qual nos apegamos particularmente. Pentecostais e membros da "Renovação Carismática" se apegam a uma imagem da "Igreja primitiva"; conservadores franceses se apegam aos tempos monárquicos; partidários da Sociedade de São Pio X, também, muitas vezes se apegam ao Concílio de Trento. Porém, a crítica de qualquer coisa em nome de um mundo passado ou mesmo de uma instituição, ainda que seja a Igreja Católica, não vale muita coisa, assim como não vale a pena ser católico se não se traz, intimamente, os fundamentos do catolicismo. Se cada um não trouxer em si, pessoalmente, as verdades da religião, ela corre o risco de se tornar apenas um legalismo de fariseus, um passadismo insuportável, ou uma ridícula e imaginária nostalgia da Idade Média.

O que devemos buscar, para além dos vários momentos da Igreja, é o Espírito que animou estes momentos, o Espírito que lhes confere unidade, o Espírito que nos mostra o Cristo tão presente em Pentecostes como no Magistério, o Espírito que permite que, dois mil anos após a Revelação, ela esteja tão próxima quanto no primeiro dia. Em nome deste Espírito as montanhas são movidas; por este Espírito vem a santidade.

Talvez, para a minha geração - tenho 23 anos - seja mais fácil compreender que a questão não é lutar pela restauração de "como as coisas eram antes de tais ou quais eventos", porque já nascemos em um mundo tão minado, tão esvaziado de Cristianismo, que não podemos nem sentir saudades de algum tempo em que tenhamos vivido, como nossos avós ou eventualmente nossos pais. Se por um lado isto nos priva de certas facilidades para nossa educação, ao nos obrigar a estar dialetizando constantemente as idéias modernas, por outro nos dá a vantagem de não nos comprometermos com uma cristalização de uma possibilidade de mundo cristão, confundindo-a com o Cristianismo mesmo; a nós, jovens hoje, só nos é dada a possibilidade de irmos direto às coisas mesmas, ao próprio centro da realidade, pois é só nela que encontramos o Cristo, e não mais no tecido cultural que deveria ser um caminho para ela.

Vivemos apenas com a justa sensação de que algo está ruindo, se acabando; que um mundo se esvai. A cultura que erigiu um ocidente desaba, atacada por aqueles que desejam substituí-la por uma massa politicamente correta, e a própria Igreja Católica, que mantinha institucionalmente a unidade de valores do mundo antigo, está tão contaminada e comprometida com esta nova ordem mundial que não pode mais lhe oferecer uma resistência real - muitas vezes, nem uma resistência superficial. Não há porque querer restaurar o mundo anterior, que foi terminar neste e que neste terminaria uma vez mais se restaurado fosse.

Talvez algum leitor imagine que eu esteja propondo nestas linhas algo distante da autoridade, do aspecto institucional da Igreja. Na verdade, o que proponho é que olhemos não para os pecados da Igreja moderna, nem para virtudes particulares da Igreja neste ou naquele tempo, mas para o centro de onde emana toda a autoridade e virtude da Igreja em qualquer tempo, e que peçamos a Deus que nos conceda esta visão, pois foi com ela que o Cristianismo resistiu por dois mil anos, e é dela que depende o futuro do Cristianismo sobre a terra.

O fato é que em meio ao nosso mundo decadente não adianta buscar abrigo ou respaldo cultural em um tempo que passou. O cristão, na verdade, sempre foi um solitário; agora, que uma vez mais a cultura se volta contra o Cristianismo, esta solidão está apenas evidenciada. E é na solidão do nosso próprio coração, que muito mais facilmente do que antes não consegue se comprazer no mundo, que vamos encontrar a fé que nos animará.

No coração, como disse a Virgem em Fátima, falando de seu próprio coração imaculado. Nele é que está o triunfo. O triunfo que talvez os homens sequer percebam, de tão inconscientes que estão. O triunfo de uma coisa eterna e fixa sobre a transitoriedade e a "agitação feroz e sem finalidade" (nas palavras de Manuel Bandeira) do discurso moderno. Entregando o coração ao Cristo, buscando o Cristo solitário na Cruz, abandonado pelo mundo, sem ter outros que o entendessem que não o Pai e Maria, assim é que encontraremos a força para vencer as potestades. Não buscando um tempo que passou, mas fazendo uma verdadeira revolução, isto é, uma volta ao ponto original: a Cruz.

Só quando perdermos completamente o desejo de restaurar um mundo qualquer, que na verdade não conhecemos, e desejarmos simplesmente instaurar o Reino de Deus em nosso coração, então nossa consciência estará alimentada de palavras que podem até vir a aquecer outros corações, como o Cristo ressurrecto fez com os discípulos de Emaús. Porque só mesmo quando morrermos para este mundo teremos nascido para a vida eterna.

14.07.00 Festa de São Boaventura

Este artigo foi publicado numa edição especial do cristiandad.org


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