Apaixonados pelo abismo - mais um recado aos fiscais de ortodoxia
Por Pedro Sette Câmara
(Nota: Esta é a tréplica de Pedro Sette Câmara ao artigo de Carlos Ramalhete, "Um recado ao fiscal do politicamente correto", por sua vez, uma réplica ao artigo de Pedro Sette, "Um recado aos fiscais de ortodoxia")
Eu mentiria se dissesse que não sabia que as respostas ao meu último artigo viriam. Pois elas vieram. O Sr. Carlos Ramalhete, que apesar de se dizer o menor dos meus irmãos em Cristo vem me pedir "decência" para publicar sua réplica, já devia saber que não era preciso dar uma de baixinho invocado para me convencer. Afinal, alguma decência eu tenho. Não é possível que não dê para ver.
Dou-lhe então aqui a tréplica, ao menos até onde pude entendê-lo. Mas antes de ir ao assunto vale dizer o seguinte: uma coisa é escrever a respeito dos Boffs e Bettos, que são evidentemente agentes da besta quadrada do apocalipse. Outra coisa é discutir com um grupo mais seleto de conservadores (ou de pessoas que parecem querer conservar alguma coisa, ainda que seja a coisa errada) e eruditos que, vendo tudo cair, não podem fazer mais do que se agarrar a este ou aquele aspecto da igreja. Creio já ter dito o que penso a respeito em meu texto "O Coração e o Mundo", publicado no excelente site argentino www.cristiandad.org. Agora me dirá o Sr. Carlos Ramalhete: mas a autoridade papal é fundamental. E eu direi: é mesmo. Não é disso que eu estou falando.
Vejamos bem sua argumentação, e façamo-lo por pontos, para garantir que não restarão dúvidas:
1. O Sr. Ramalhete diz que, para mim, não há crise da igreja, pois eu me fechei em uma igreja mítica pré-conciliar.
Bem, posso alegar em meu favor que sou autor do primeiro guia da crise da igreja jamais produzido na internet brasileira. Sim, eu fui lá aspirar os deliciosos odores das flatulências diabólicas, só para contar aos meus leitores. Mas isso não quer dizer que eu tenha gostado ou que eu tenha achado que, já que João Paulo II falou que eu tinha de continuar a aspirá-las, eu deveria fazê-lo. A minha passagem pelo inferno eu quero fazer como Dante Alighieri: no papel só de observador. Mas isso não quer dizer que eu esqueça o que vi - a prova são os artigos que já escrevi.
2. O Sr. Ramalhete diz que eu abdiquei da submissão à hierarquia eclesiástica. Que "Ao Papa, por pior que seja o Papa, por mais que sejam incompreensíveis suas ações, cabe obediência. Esta obediência, tão impalatável ao orgulho moderno e ao "protestantismo de segunda mão" de que o senhor parece ser adepto (interpretação particular das Escrituras somadas a alguns excertos de documentos papais).
Não abdiquei. Dê-me um documento papal de valor magisterial que eu o obedecerei. Traga-me o decreto que proíbe a assistência ao rito tridentino que eu penso no assunto. Os papas não são faraós, e os bispos menos ainda. Essa é a questão. Não vou parar de assistir à missa de todos os tempos por causa de uma proibição oral.
Além do quê, as ações do Papa não são incompreensíveis coisíssima nenhuma. Talvez aí esteja a nossa principal discordância. As ações do Papa, quer o Papa saiba disso ou não, levam à destruição da Igreja - já praticamente levaram à destruição da Igreja. Enquanto o Papa se diverte falando na ONU e fazendo missas experimentais para fazer média com as potestades deste mundo, eu acho melhor continuar no meu canto, só olhando e rezando.
3. O Sr. Ramalhete diz que o valor de lei da bula Quo Primum Tempore é questionável.
Só posso responder assim: claro, com certeza. O Novus Ordo Missae, escrito por seis protestantes e um maçom, é que é inquestionável...
4. O Sr. Ramalhete compara a situação canônica de D. Lourenço (dos padres ordenados pelo Msgr. Lefèbvre) à de Leonardo Boff.
Boff nunca teve situação canônica nenhuma. Dizer que o Boff algum dia foi alguma coisa é absurdo. Nem católico ele é. Mesmo que as pessoas que lhe conferiram os sacramentos sejam validamente ordenadas, ordenar Boff é a mesma coisa que ordenar um gnomo ou uma máquina de moer carne. D. Lourenço é um padre validamente ordenado segundo o próprio Sr. Ramalhete.
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O pior é o seguinte: o Sr. Ramalhete não é um desconhecedor destes assuntos. Mas ele se apega à autoridade como um náufrago. A autoridade continua lá. Os dogmas estão preservados. Mas é realmente preciso acreditar em alguma coisa exterior para continuar vivendo? Ora, se a certeza dos dogmas todos não está presente em nós mesmos, em nossa consciência, em nosso coração, então não está em lugar nenhum. Não estou desprezando a hierarquia ao dizer isso. Só digo que é para mim mais fácil confiar - na verdade, é a única coisa que eu posso fazer - naquilo que minha inteligência me mostra do que em um sujeito que grava um CD com "Alma Redemptoris Mater" em ritmo de rap, faz acordos vergonhosos com protestantes e chineses carniceiros, quase que só abre a boca para falar de irrelevâncias, e deve toda a sua fama de conservador ao simples fato - não mais que sua mais elementar obrigação - de ser contra o aborto.
Ora, é tão difícil assim? Fato é que não serei eu que me colocarei entre o Sr. Ramalhete e o abismo que ele coloca. "O vosso falar seja sim sim não não: o mais é conversa do Maligno". Isto deveria ser o antídoto para a vocação para a discussão jurídico-formal do ocidente. Se não é para uns, pelo menos gostaria que fosse para mim.