
Robôs diplomados
A julgar pelas manchetes do jornal O DIA de 03.01.2001, o leitor poderia pensar que encontraria uma matéria sobre a proibição da publicação das pesquisas do Ibope - este sim um ato verdadeiramente autoritário. Mas, que decepção: o jornal apenas utiliza uma declaração quase inócua do prefeito do Rio para caracterizá-lo como "fascistóide".
O prefeito apenas disse que segue três conselhos de Mussolini, conselhos estes que não fazem parte obrigatoriamente do ideário fascista, e que poderiam aliás ser seguidos pelo mais liberal dos governantes, sendo apenas mostras de frônesis: não brigar com a Igreja, conhecer as contas públicas e não empregar parentes.
Ao associar o prefeito com o fascismo diante do grande público, o jornal presta um serviço de desinformação incomensurável. Ao ler a matéria, afinal, podemos deduzir que ela sugere que o bom governante sabe que para não ser horrorosamente fascista é preciso brigar muito com a igreja, desconhecer amplamente as finanças públicas, e empregar toda a família.
Se Cesar Maia, em quem não votei, é sensato o suficiente para saber que mesmo a um ditador como Mussolini está vetada a possibilidade de errar sempre, sempre e sempre, não parece que as redatoras da matéria também o sejam. Isto, é claro, na hipótese mais lisonjeira: são apenas idiotas. Ninguém aqui está dizendo que elas foram mal-intencionadas e pretenderam falsificar conceitos precisos da ciência política só para prejudicar a imagem do prefeito.
Mas isto é perfeitamente compreensível; basta olhar a mentalidade dos novos jornalistas do Brasil. Nunca lhes ocorreu que a "reserva de mercado" que tanto prezam, e que garante que qualquer bestalhão diplomado esteja apto a simplesmente relatar o que viu e ouviu (tarefa para que as universidades realmente não fornecem o preparo) seja, tecnicamente falando, fascismo. Não é de espantar, portanto, que a simples menção do nome "Mussolini" provoque em suas mentes o mesmo curto-circuito que teria um robô ao reconhecer seu criador.
03.01.2001