
A gnose ignorante de Harold Bloom
Em The
Sacred Art of Shakespeare, que considero um dos 10 grandes livros que já
li na vida, e o primeiro a respeito de simbolismo, Martin Lings fala, entre
outras coisas, de como as audiências modernas se tornaram incapazes de
compreender Shakespeare. Acho que o exemplo mais contundente que ele dá
a respeito disso é o verso de Macbeth em que o próprio, o vilão,
o assassino do rei imaculado, diz:
"Life is a tale, told by an idiot,
full of sound and fury."
Hoje as pessoas consideram estes versos profundíssimos, o emblema mesmo
das suas vidas aleatórias, e se identificam com o vilão, sem sequer
perceber que estão fazendo isso. Em Shakespeare, artista máximo
das peças de moralidade, a afirmação da ausência
do sentido da vida nunca poderia vir de alguém senão do vilão,
que representa o demônio ou um seu agente. Que as pessoas não percebam
este moralismo básico de Shakespeare é algo muito grave; dizer
que sua obra é um "monumento ao niilismo", como faz Harol Bloom
no recém lançado "Como e por que ler" é nada
menos do que inverter o seu sentido.
Bloom, em obras anteriores, fala da "escola do ressentimento", composta
daqueles que, não sendo capazes de escrever obras como as dos grandes
autores, tentam explicá-las como meros exemplos de superestrutura ideológica,
expressão de desejos reprimidos etc. Bloom, porém, nada faz além
de assumir a sua mediocridade perante os grandes autores, ostentá-la
e propô-la como uma virtude, universalizando-a, fazendo algo muito pior
do que ressentir-se, que é querer tapar aos outros a possibilidade do
entendimento que ele não teve. Para entender Shakespeare, é preciso
que tenhamos algo da inteligência de Shakespeare, e isto é perfeitamente
possível. Bloom diz que "não, você não pode
e nunca poderá entender perfeitamente Shakespeare, porque ele está
infinitamente acima de você e de mim". No fim das contas, este é
o bom e velho argumentum ad ignorantiam, em que a inexistência
de uma coisa é deduzida a partir da ignorância dela. Mais caipira,
impossível.
Esta, porém, é uma das teses de "Shakespeare:
Invention of the Human", a cujo lançamento em Nova Iorque compareci
em 98, quando Bloom em pessoa deu uma palestra dizendo mais ou menos isso -
e quando não perdi a oportunidade de recomendar-lhe que lesse o livro
do Lings. Segundo o que disse na palestra, Shakespeare seria o inventor de todos
nós, o demiurgo literário que inventou a psique moderna, caracterizada
pelo que o Bloom chama de "interioridade" - que teria sido criada
por Shakespeare porque há muitos monólogos em suas peças,
indicando que os personagens conversam consigo mesmos! Somente depois desta
invenção teatral Shakespereana o ser humano teria tido a idéia
de que ele mesmo possui uma individualidade interior para além da sua
persona. Ainda que isto possa sugerir a interessante tese de que Shakespeare
inventou Freud - que seria algum louco irredimível de uma comédia,
na verdade, não chegando mesmo à espirituosidade do fool
de Twelfth Night, e certamente não a uma Rosalind, de As You
Like It, peça na qual Bloom diz, em O Cânone Ocidental,
que a psicanálise foi inventada - , a tese de que Shakespeare inventou
"o humano" é tão idiota que não não sei
se não foi respondida porque não prestaram atenção
ou não acreditaram que era isso mesmo que ele estava dizendo.
O fato é que Bloom pretende estabelecer uma distância intransponível
entre o leitor comum e Shakespeare, e ele, Bloom, não pretende agir como
uma mensageiro entre mundos - que seria o seu papel de professor -, mas te convencer
de que você não pode mesmo entendê-lo, e que somente Shakespeare
- o criador da sua psique, em última instância - pode te explicar,
e nunca você a ele. Mesmo que Shakespeare esteja realmente acima da imensa
maioria dos seres humanos, isto não quer dizer que não possamos
entendê-lo, e entender é explicar.
Isso tudo está apenas conforme ao seu gnosticismo, exposto em Presságios
do Milênio, e que nada mais é do que a gnose de segunda categoria
(o termo "gnose" abriga muitos grupos diferentes para indicar homogeneidade,
vale lembrar) daqueles que crêem que o mundo foi criado por um demiurgo
malvado, que fez o mundo de matéria, que é corruptível
etc., restando no homem uma centelha divina que permitiria a ele algum contato
com a divindade ausente. O resultado é que o acesso ao divino fica vedado
in limine pela corruptibilidade da matéria, e o homem precisa
se contentar em deixar esta centelha brilhar rapidamente e então desaparecer
como uma supernova para sempre no limbo do cosmos decadente - daí sua
afirmação de que "todo homem é um deus mortal",
encontrada por mim há mais de um ano no site de uma igreja gnóstica.
Enfim. É lamentável mesmo que a única pessoa de peso no meio dos estudos literários que se opõe aos desconstrucionismos e aos "estudos culturais" venha colocar isto no lugar. Acaba nem fazendo muita diferença...