
Educação e debate
O sages standing in God's holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.
"Sailing to Byzantium"
W.B. Yeats
Não existe educação que não seja auto-educação. O ato intelectivo que apreende a verdade, qualquer verdade, é pessoal e intransferível. A única função da "educação", considerada como o conjunto de procedimentos a que se dá o nome de pedagogia, é guiar a mente do aluno até a verdade, para que ele se renda à sua evidência - como aliás indica o próprio radical grego agogia, guiamento.
Mas para que o guiamento de discípulos por mestres possa acontecer, é preciso que um elemento esteja presente: a confiança. O discípulo, ainda que não saiba exatamente aonde o mestre o leva, precisa confiar que este lhe fará um bem. Cabe ao mestre, é claro, infundir esta confiança no discípulo, que por sua vez também precisa já estar dócil, disposto a confiar. Seria como se o centro do coração do discípulo fosse atraído pelo centro do coração do mestre, que exerceria então uma gravidade sobre o primeiro centro. A cada órbita completa, o discípulo ficaria mais firme, e teria uma visão mais clara de seu próprio centro. É deste modo que o mestre faz com que a confiança que o discípulo tem nele, mestre, se transmute em confiança do discípulo em si próprio - tudo baseado no mesmo centro. O discípulo chega à verdade sozinho, mas ao mesmo tempo conduzido.
Hoje os homens não acreditam mais em educação superior, porque rejeitam tudo o que possa ser superior - ainda mais se a palavra superior estiver presente, indicando algo que não seja uma mera definição burocrática. Não é tão irônico que o melhor exemplo disto seja o item de formulário "superior completo". Mesmo quando se diz que alguém tem "nível superior", a palavra "superior" não inspira mais reverência, indicando apenas a abertura da possibilidade de se obter certos empregos.
Por rejeitar o que é superior, hoje os homens não acreditam em mestres que possam conduzi-los à verdade. Acreditam que tudo está em seu nível, que não é preciso elevar a consciência; e que se isto é preciso é melhor que um mestre não ajude. Hoje, os homens preferem educar-se pelo debate. Mas este também pressupõe confiança - e uma imensa sinceridade por trás da vontade de conhecer, maior talvez do que na primeira situação.
Porém, qualquer pessoa que já tenha estado em uma instituição de ensino superior sabe que os debates que nelas ocorrem têm apenas o objetivo de socializar certos clichês que formarão o ethos corporativo. A prova disto é que o culto do debate não trouxe consigo o estudo das regras do debate e das condições de prova. Todos repetem mais do que nunca os mesmos chavões - "o capitalismo mata", "a Igreja é corrupta" etc. - e após alguns minutos de nonsense verbal e elevação de voz vem a sensação de que alguma maturidade intelectual foi atingida. O que se assemelharia a uma espécie de iniciação maçônica: o discípulo, em vez de abrir-se para o universal, abre-se, na melhor das hipóteses, apenas para a conversa de um determinado grupo de pessoas. Na pior, ele passa por uma contra-iniciação mesmo, onde sua inteligência vai diminuindo até que não entenda mais nada e ele fique igual ao Harold Bloom.
O mito da auto-suficiência contemporânea não admite que um verdadeiro mestre guie um verdadeiro discípulo, mas apenas que duas pessoas, dois átomos livres e desimpedidos de Epicuro, "estimulem o senso crítico uma da outra", ajudando-se a "encontrar caminhos pessoais"; aí, aquele que por mera convenção administrativa ocupa o lugar de "mestre" tem apenas a função de levar o aluno até os aspectos mais periféricos de sua subjetividade, para que ele então tenha certeza de que não lhe foi "imposta uma verdade". Um professor que tentasse lhe dizer que as coisas são deste modo e não daquele lhe pareceria, então, uma babá que tenta lhe pôr para dormir quando ele não quer, ou que pretende que ele coma o que não quer. (1)
Da gravidade entre pólos que faz com que a inteligência se eleve plano a plano, chegamos a uma força centrípeta, que arremessa os corações para os confins do universo - o inferno. Quem entender de simbolismo astrológico - e não é preciso "acreditar" em astrologia para entender a imagem - saberá que isto pode ser melhor visualizado através dos temas de Aquário (educação superior) e Gêmeos (debate), considerados inclusive em seus aspectos invertidos. O mestre ilude o discípulo com falsas lisonjas e através do debate desvia sua atenção para assuntos cada vez mais periféricos, para verdades cada vez mais relativas, ou para mentiras mesmo.
É a promessa da serpente: sereis como deuses. É isto que a humanidade ganhou ao perder a confiança no superior e, por conseqüência, em si. A verdade que se poderia ver diretamente agora mal se entrevê num pálido reflexo, perdido em um ponto obscuro da subjetividade. E, como deuses, a subjetividade se precisa se afirmar para mascarar o paraíso perdido.
NOTA:
(1)Aqui é o Harold Bloom mesmo. E a maioria esmagadora dos professores universitários, das várias denominações ideológicas. Voltar