
Reflexões sobre o destino da classe média
Imagine a seguinte cena: você está na sua casa, e ela de repente
é invadida por mendigos e favelados, que roubam o que você tem
e ainda mandam você abandonar o local. Você vai embora, com a sensação
de que sabia que isso um dia iria acontecer.
Sugeri esta historinha a várias pessoas, vários amigos da classe média carioca (à qual pertenço), e todas me disseram que ela lhes parecia verossímil.
Isto teria algum fundamento?
A classe média convive com os mendigos. A classe média é achacada por policiais que também odeiam os bacanas. Os pivetes do Rio desejam os mesmos objetos desejados pelos garotos da classe média. Seu universo mental é o mesmo; só que uns têm o dinheiro e outros não. É o desejo mimético que precisa ser satisfeito, e que tem a violência na sua estrutura.
Não acho, porém, que os mendigos e favelados sejam todos malfeitores; eles certamente não o são. Mas esta minha pequena pesquisa confirma um importante dado da nossa cultura: a classe média morre de medo deles. Em parte, como sabemos, com razão.
Mas a classe média, além de medo, também sente culpa. Após anos e anos dizendo que há pessoas passando fome enquanto a classe média vai para Miami fazer compras, a esquerda passou a legitimar explicitamente os crimes cometidos contra ela em nome da redistribuição de renda. Afinal, não é justo que você tenha tudo isso enquanto há outros que etc etc.
Mais recentemente, o processo pareceu se aproximar do clímax: Marcinho VP, traficante de drogas, protegido por um milionário e pelo ex-subsecretário de segurança (que julga que este jornal é um perigoso órgão da direita), vem falar de revolução proletária e de zapatismo. Ao mesmo tempo, a ONU fica censurando o Brasil porque aqui a renda é mal distribuída.
De tanto assistir ao Fantástico e ler a Veja, a classe média acaba achando que a culpa é dela mesmo, e crê que seu maior pesadelo ficar pobre, ter tudo roubado, toda a sua renda distribuída irá se realizar porque foi ela mesma que plantou isto.
A classe média gostaria que o governo ajudasse. Mas o governo, como lhe é próprio, só faz o mal. O governo extorque o dinheiro da classe média e possui o monopólio da força física. Os bandidos são tão temidos quanto a Receita Federal. Além de ser assaltada nos sinais de trânsito, a classe média ainda tem que ser descontada na fonte. A cena descrita no começo poderia ter como invasores representantes estatais e continuaria soando verossímil.
Só restaria sonhar com a aposentadoria, em algum paraíso retirado do mundo, sem bandidos nem burocratas.
Mas a classe média não quer só isso: para acreditar que seu descanso é justo, ela quer cidadania, o que significa sobretudo colocar os corruptos na cadeia, cobrar mais impostos dos ricos, e sumir de algum modo com os pobres. De preferência dando o dinheiro dos ricos para eles, a fim de que deixem de ser pobres e passem a se vestir um pouco melhor.
A classe média, assim, acha que fazer justiça é universalizar seu estado de vítima: como ela, idiota, acha que os delinqüentes que a atacam têm razão de fazê-lo porque foi ela que os tornou pobres, deseja que os ricos também sejam mais seqüestrados, mais roubados, mais taxados e que vão para a cadeia com mais freqüência.
Já vi muitos ricos dizendo que devem seu dinheiro ao esforço que fizeram para ganhá-lo, e que têm consciência de quanto ele vale. Mas a classe média com freqüência duvida da sua própria capacidade proletária, e acha que o dinheiro que conquistou com seu trabalho na verdade se deve à sorte, à picaretagem ou a algum concurso público. Ela não enxerga seu próprio dinheiro como sua posse, sua propriedade, mas como uma concessão momentânea, o resultado de uma série de fatores imprevisíveis, como se cada salário fosse uma mega-sena. Ela considera seus bens inteiramente provisórios (mas não provisórios à luz da eternidade), e morre de medo de perdê-los.
Se a classe média não perceber que conquistou seu dinheiro com seu trabalho, e não valorizar o próprio trabalho; se ela não souber que o governo não tem o direito de ficar inventando impostos porque roubar é feio; se ela não parar de se deslumbrar com o esquerdismo chique da ONU; se ela não parar de querer infligir aos ricos os males que sofre; se ela não parar de desejar a proteção estatal e assumir para si a responsabilidade por sua integridade física e sua propriedade; se ela, enfim, não assumir seu lugar no mundo, todos os seus piores pesadelos se tornarão realidade, porque muitos pobres não são malfeitores, mas alguns deles são, e foram treinados pelas organizações de esquerda para eliminar sem piedade o que consideram a pequena burguesia.
Quando testemunhamos as rebeliões coordenadas em vários presídios do Brasil, a maneira como bandidos circulam à vontade pela cidade, o espaço que a imprensa lhes dá, e a maneira como a polícia é condenada, é hora de saber que este dia de choro e ranger de dentes está se aproximando. Um dia no qual as pessoas mais maravilhosas, mais doces, que acham o desarmamento uma lindeza, serão trucidadas por seus ídolos televisivos e embrulhadas com as páginas de sua coleção da revista Caros Amigos.