Só há vida à margem do Leviatã

Qualquer criança, desde o ginásio, ouve seus professores dizerem umas 15 vezes por dia que “ninguém é dono da verdade”.

É óbvio que essa afirmação não faz o menor sentido, porque a verdade não é uma coisa que se possa possuir. Quem a pronuncia apenas o faz como argumento retórico, na tentativa de desbancar qualquer questionamento à sua autoridade.

Assim, o Estado brasileiro não diria que é dono da verdade. Mas, pela Constituição, ele é dono da autoridade para ensinar. A assembléia de 1988 outorgou ao Leviatã o monopólio do ensino.

Sinceramente, eu não sei que tipo de gente foi capaz de tamanha atrocidade, e nem seria capaz de começar a investigar. Só dá para saber que ou foram estatólatras de último grau, alminhas necessitadas de proteção a qualquer custo, ou foram psicopatas no sentido estrito da palavra. Como uma nação permite que estas pessoas escrevam a sua Constituição é coisa mais assustadora ainda – e estas pessoas – a classe “formadora de opinião – não terão um final feliz, como escrevo em meu último artigo.

Eu poderia argumentar a favor do ensino domiciliar falando dos ótimos resultados obtidos com este método nos Estados Unidos. Mas isto seria inteiramente despropositado, pois lá as pessoas têm a liberdade de educar seus filhos em casa.

Não quero convencer o Leviatã a me deixar fazer alguma coisa. O Estado brasileiro é meu opressor, não meu protetor. Quem pediria a um ladrão que invade a sua casa conselhos sobre a educação dos próprios filhos? Quem, aliás, concederia ao ladrão a educação dos próprios filhos?

O resultado disto nós sabemos qual é. As escolas são máquinas de propaganda. E não é de propaganda comunista não: é de propaganda fascista. Os professores, públicos e privados, em larga escala não fazem mais do que desejar benefícios para sua corporação e gastar o tempo e o dinheiro dos alunos com lamúrias a este respeito.

Imagine se um professor brasileiro, diplomado pelo Ministério da Educação, vai querer que seus alunos tenham os pais como mestres? Ele os vê como concorrentes! Os pais não receberão 13o. salário, nem 4 meses de férias pagas ao ano, e ainda acabarão com o monopólio que o Leviatã concede a essa multidão semiletrada que pretende ensinar as crianças a ficar dependentes do Estado.

Sinceramente, eu também não vou defender o direito legal do casal Vilhena de educar os próprios filhos. Eu não acho que o Ministério deveria autorizá-los, e acho que eles perderão na justiça. O que eles deveriam fazer é simplesmente educar os filhos em casa, da maneira que quisessem, sem pedir a opinião do Estado a respeito.

Afinal, o único alívio é que no Brasil o Estado não exatamente funciona. Ele ruge muito, mas dá para escapar das mordidas. É só não ter medo. Ninguém iria perceber. Eles nem estão no Rio de Janeiro, onde talvez o juiz Siro Darlan encrencasse um pouco... Ah! Mas mesmo ele estaria preocupado com as cenas que a Sandy está fazendo na novela das seis. Então talvez até o Rio fosse um lugar seguro.

Enfim: não interessa discutir se a casa é ou não um bom ambiente para educar os filhos – sobretudo quando já passou da hora de discutir se a escola é um bom ambiente para isto. O que interessa é simplesmente afirmar: os pais têm toda a primazia na educação dos filhos, e o Estado simplesmente não deve se meter.

Mas ocorrerá a algum burocrata brasileiro que algo escapa de sua jurisdição? E qual será o cidadão brasileiro que não desejará que o Estado o proteja da chuva, do sol, e de não ter nascido rico?

***

Dois casos, como apêndice, que muito me impressionaram nesta semana, e que ilustram as pretensões de poder absoluto dos nossos burocratas.

Primeiro, uma deputada, cujo nome me esqueci, quer proibir todo o material pornográfico em que não se use camisinha. Sugiro que antes de fazer isto ela urja o Ministério da Educação a adotar uma versão com camisinha de O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, livro que os alunos apreciam justamente por seu conteúdo apimentado.

O culto da camisinha está ficando tão difundido que começo a me perguntar se as pessoas acreditam na história da cegonha.

Segundo, o deputado estadual do Rio Sérgio Cabral, em artigo na página de Opinião de O Globo, chama de “autoritário” um comerciante que quis defender o direito dos donos de farmácia de vender seus produtos ao preço que quiserem. Explico. É que o deputado baixou uma lei obrigando as farmácias a vender remédios com descontos para idosos; uma interferência maligna nos negócios alheios. O comerciante reclamou; reclamou apenas, em um artigo de jornal. Isto bastou para que o Sr. Cabral, todo indignadinho, atrás, é claro, de todo o aparato policial do poder executivo que garante o cumprimento dos absurdos que ele nomear e que o defenderia até a morte, bradasse: “autoritário!”, “autoritário!”

Se houvesse um Stálin entre os brasileiros, aqui aconteceria a maior tragédia da história. Mas felizmente só temos o Sérgio Cabral, o Paulo Renato e outras pessoas de fino trato.


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