
A impossibilidade da educação
estatal & as vantagens de não ser bom aluno nem estudar nas melhores
escolas
Quem contrataria um pipoqueiro para preparar sua declaração do imposto de renda? Pediria à sua filha de dois anos para carregar um saco de cem quilos? Tentaria usar um automóvel para dedetizar sua casa?
Ninguém faria. De algum modo, todos conhecem intuitivamente as possibilidades e limitações das pessoas e objetos; e, mais ainda, todos são minimamente capazes de perceber a adequação entre uma coisa e outra coisa, entre uma pessoa e uma função, entre um modo de agir e um resultado esperado. Do pipoqueiro, esperamos pipocas; da criança, criancices; do automóvel, que ande.
Se ninguém espera comprar ovos na loja de informática, por que esperar que o governo forneça educação?
O governo, governo de verdade, governo enquanto governo, se resume a duas coisas: nos termos dos professores de História medieval, a nobreza de toga e a nobreza de espada. Ou seja: os juízes, as cortes, e a polícia e o exército. Pronto. Isto é tudo.
O acompanhamento de um processo e sua resolução, bem como a codificação das leis, são trabalhos que requerem procedimentos específicos, em si graves e complexos o suficiente para que os responsáveis neles se absorvam. A guerra e a segurança interna também dependem de um certo tipo, bastante específico, de organização.
Não se guerreia do mesmo modo que se resolve um processo; e não se resolve um processo do mesmo que se guerreia. Até os objetivos são diferentes. Os juízes pretendem fazer justiça, separar inocentes e culpados, estabelecer penas razoáveis, que não convidem a novos crimes pela suavidade nem causem revolta por sua dureza. Os soldados e policiais precisam vencer o inimigo, derrubá-lo, impedir que ele faça seu mal. A justiça pode prescindir de matar um culpado. A guerra nem sempre pode prescindir de matar um inimigo.
O governo se funda sobre a classe que se destina a fazer justiça e a garantir a segurança contra inimigos externos e internos, os juízes e guerreiros.
Ora, esta classe tem um modo específico de operar. A eficiência buscada na guerra, na segurança e na justiça não pode ser transportada para a educação, a saúde, ou qualquer coisa que não seja guerra, segurança e justiça. É por isto que qualquer tentativa estatal de fornecer educação será fracassada.
O ensino não pode se submeter aos trâmites da burocracia; por outro lado, também não pode simplesmente exigir que o Estado pague tudo e simplesmente se retire.
Por isso, ao falarmos de educação estatal, falamos apenas de uma ficção. Quando a Constituição dá ao Estado o monopólio da educação (as escolas privadas exercem poder público delegado), simplesmente declara algo que nunca vai acontecer. Claro que não é de se espantar, uma vez que a mesma obra contém pérolas como todo brasileiro tem direito à saúde.
Não temamos, pois, os burocratas. Eles não podem nem entender a linguagem dos verdadeiros educadores. Eles estão excluídos desta conversa por suas próprias natureza. O máximo que eles podem fazer é um mal físico, mas a sua raiva cansará ante a impassibilidade do espírito. Eduque seus filhos em casa, se quiser.
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Na semana passada, meu amigo Alvaro falava de como é mesmo verossímil, como mostrado no filme Traffic, que os melhores alunos da classe fossem os grandes viciados em drogas. Não deveriam eles, justamente, ter mais educação, know better, ter a cabeça no lugar, dar o exemplo?
Se colocarmos o problema em termos de dar o exemplo, veremos que eles estão mesmo apenas repassando o exemplo transmitido pelos professores: tudo é mau, a revolta é boa, você é oprimido pelo capitalismo, seja um marginal. Rompa com as convenções, com tudo o que é atrasado; tudo isso não passa do desprezível charme da burguesia.
Em suma: alunos, continuem a obra de destruição que nós, professores, iniciamos nos anos 60 e 70.
Este fato sempre me chamou a atenção, sempre. Em meus tempos de colégio, observava que os melhores alunos não eram necessariamente os mais inteligentes ou mesmo os mais fortes moralmente, mas talvez aqueles que tivessem mais pavor de notas baixas aqueles que criticavam tudo menos o sistema que os premiava por sua contrafação de rebeldia, exibida antes nas provas do que nas atitudes.
(Se me perguntarem como eu era no colégio, digo: em notas, era um aluno entre o medíocre e o bom, que nunca foi capaz de absorver um só conceito de várias matérias, mas que conseguiu, por milagre e por dons verbais, concluir o segundo grau. Afinal, não existe nenhuma relação entre escola e conhecimento, como qualquer canguru é capaz de perceber.)
Depois do segundo grau fui para Nova Iorque, onde estive em duas universidades. Em Columbia, naquele ano considerada a nona melhor dos EUA, para onde só iriam os melhores alunos, há o maior indíce de consumo de heroína da cidade. Na New York University, meus colegas falavam de satanismo e de destruir a civilização ocidental.
Na PUC encontrei pessoas que se julgavam a elite do ocidente, crentes que o simples fato de estarem naquele curso de Letras o melhor do Rio, me diziam legitimava qualquer coisa que fizessem. Meses depois, os alunos daquela instituição catapultaram este jornal para a fama através de meios pouco civilizados.
Quase todas as pessoas que conheci que eram os melhores da turma e que estavam ou estão nos cursos mais concorridos do Rio de Janeiro sofrem de uma terrível insegurança. Suas notas são questões de vida ou morte; sua aparência física, seu emprego, idem. Falam de direitos e igualdade, mas competem como lobos e se odeiam mutuamente, gerando os ambientes mais cheios de fofocas e mesquinharias que se pode imaginar.
Somente em faculdades de pouco prestígio, como a Faculdade da Cidade e a Cândido Mendes, encontrei um grande número de pessoas de valor, pessoas que vivem no mundo real, puros das ideologias. Alguém poderia chamá-los de alienados, mas é melhor que um sujeito se preocupe em arrumar um emprego e uma namorada do que em como mudar o mundo (ninguém, nas supostas camadas superiores, percebe que mudar o mundo significa obrigar um monte de gente a fazer o que eu quero que elas façam).
Enfim: hoje, não há nada melhor para um jovem do que estar deslocado das principais tendências da cultura ocidental. Na marginalidade cultural, há a chance de crescer, e no centro da conversa dos intelectuais e jornalistas, há a autodestruição.