
Prometeu e o medo de avestruz
No Brasil, é comum que o sujeito que adquira alguma formação universitária passe a acreditar que seu jargão específico é a chave universal da compreensão humana, a linguagem lógica perfeita, capaz de expressar o tempo todo a essência da realidade com máxima exatidão, a medida mesma da cultura e inteligência de uma pessoa. A compreensão e o uso de determinados termos separa, para ele, o grupo dos iniciados dos não-iniciados, a plebe da aristocracia, os excluídos dos privilegiados.
Em quase todas as vezes que tentei conversar com um advogado, por exemplo, dificilmente consegui discutir algo desde um ponto de vista que não fosse o legal. Um professor meu, advogado, chegou a reclamar que os jornais escreviam muita besteira por denominarem estupro a penetração não consentida entre dois homens na linguagem jurídica, isto seria um atentado violento ao pudor sem atinar que a linguagem comum não tem a obrigação de usar as mesmas definições do código penal. Para ele, era doloroso que o estupro da língua cotidiana significasse algo diferente do indicado pela lei. Por isso, avisava-nos para não usar a palavra estupro neste sentido, reunindo em seu gesto o orgulho prometéico de quem roubou o fogo aos deuses à magnanimidade de quem o distribui, democraticamente, entre os homens de boa vontade.
Um amor tão grande por termos técnicos não poderia existir sem um pavor correspondente por tudo o que não seja facilmente documentável, expressado em termos batidos, imediatamente compreensíveis por qualquer pessoa, de qualquer nível cultural. Daí a necessidade de categorização imediata em topoi , lugares-comuns aparentemente unívocos, ainda que compactos de idéias muitas vezes contraditórias: antes de mais nada, é preciso saber a que departamento pertencem as coisas. E, se elas não cabem em departamento nenhum, só podem ser os gemidos terríveis que Dante ouviu no inferno; o inomeável, no Brasil, ganha um estatuto supra-humano, e reina pelo terror. Aquilo que não se nomeia só pode ser o supremo mal.
Nossa linguagem tornou-se uma prisão, incapacitada para apontar e absorver o novo, e aleijada pelo burocratismo imediatista. Neste país, é impossível discutir publicamente certas posições tradicionalistas católicas, o anarco-capitalismo, a poesia de Bruno Tolentino, a Física de Aristóteles, a elaboração da astrologia como ciência, e muito menos aceitar que todos estes interesses possam estar simultaneamente presentes em uma só pessoa (a minha, aliás) sem emitir logo uma condenação diante do avestruz que se apresenta, com dez abacaxis pendurados no pescoço: tantos novos elementos reunidos só podem ser obra do Satanás para confundir um pobre rapaz latino-americano, que tira suas boas notas e preza as boas maneiras.
A idéia, portanto, de que possam existir conhecimentos de difícil expressão, ou mesmo de expressão impossível; de que mesmo a grande arte não possa fazer mais do que apontar certos dados da realidade que, apesar de óbvios, perfeitamente intuídos, permanecem não-ditos, é inaceitável e escandalosa. Ou estes dados não existem, ou eu me engano. Ninguém quer assumir a responsabilidade sem palavras por seus próprios atos de consciência, muito menos correr o risco de entender sozinho alguma coisa que não possa ser imediatamente corroborada pelas pessoas em torno.
É assim que o verdadeiro Prometeu se trai: a experiência nova se perde na memória antes de conseguir se traduzir minimamente, e portanto antes de ser comunicável; como se Prometeu fosse roubar o fogo do céu, mas, ao vê-lo, ficasse com medo de se queimar e mudasse de idéia, achando que os homens já estão muito bem sem fogo e que isso tudo só vai criar problemas.
Iludidos pelo poder que a linguagem técnica tem de abrir as portas de repartições e corporações, os brasileiros acreditam que sua transmissão equivale à generosa concessão de uma iniciação o termo técnico é a verdadeira palavra perdida do Hiram tupiniquim e assim pensam elevar-se acima do senso comum, por conhecimento e por bondade; aterrorizados por tudo aquilo que vêem sem poder imediatamente descrever, perdem todas as oportunidades de injetar algo de novo no mesmo senso comum e comunicar algo precioso a seus semelhantes.
Mas não nos preocupemos: ao ler este artigo, algum estatófilo irá propor a criação do Ministério das Experiências Indizíveis, onde o inexprimível, regulamentado, adquirirá a realidade desde que, é claro, não haja desvio de verbas.