Lebenswelt II: Sobre o Conhecimento Simbólico da Natureza

Cristo nos ensina a ser capaz de reconhecê-lO em cada face: em cada ser humano, por pior que seja, existe algo de bom, simplesmente porque o Ser ali está presente, e graças a isto o indivíduo subsiste.

De modo análogo, Cristo está presente em todas as coisas. Neste computador em que escrevo há algo de Cristo, pois sem Deus este computador nem existiria. O engenho humano que o criou é derivado do engenho divino; por isto, também, o modo da presença divina no computador é secundário em relação ao modo como Deus se faz presente nas coisas que Ele mesmo criou.

Sim, Deus está presente nos animais, nos rins e corações, nas estrelas e planetas, nos metais, nos quatro elementos de Aristóteles, na madeira, e em tudo que compõem o mundo natural, e de maneira mais direta do que nas coisas criadas pelo homem. Não está presente do mesmo modo o tempo todo, mas não está escondido, como se um decreto demiúrgico fechasse a natureza ao conhecimento dos não-iniciados.[1]

Inclusive, um dos cinco argumentos de São Tomás para a prova da existência de Deus diz respeito justamente à contemplação da ordem e harmonia do cosmos, o impossível produto da mera aleatoriedade. Dentro de um contexto especificamente religioso, os cristãos também costumam afirmar que Deus fala ao indivíduo – não importa quão mouco – o tempo todo, e que todo o universo é uma grande mensagem divina.

No entanto, apesar de admitir a presença divina nas coisas – o que é diferente de uma identificação divina com as coisas – a maioria dos religiosos é incapaz de decifrar a linguagem do cosmos, tendo terceirizado a interpretação da natureza para uma casta intelectual que, por uma questão de método, não se importa de ignorar a existência de Deus. As ciências naturais, dominadas em grande parte por ateus militantes – Carl Sagan, Richard Dawkins, Ronaldo Mourão – são para o religioso comum tão verdadeiras quanto os dogmas da fé[2], e não é incomum, hoje, que os critérios científicos modernos sejam até usados como medida da “validade” das religiões, sobretudo do catolicismo.

Este posicionamento em relação à natureza está sem dúvida relacionado à mesma cultura cientificista que pretende ser a única intérprete autorizada do mundo físico: hoje, para saber se está bem ou mal de saúde, um homem confia mais em abstratas medições de aparelhos cujo funcionamento ignora absolutamente do que em suas próprias sensações. O homem prefere confiar nos demiurgos de jaleco do que em si mesmo, em sua própria inteligência. Porém, como pode alguém, cristão ou não, se relacionar com a natureza se parte do pressuposto de que a sua própria experiência sensível não vale nada?

Assim, ao mesmo tempo que os cristãos esperam encontrar Deus na natureza, acabam só conseguindo se relacionar com ela através de penosas abstrações, poéticas e pseudo-científicas, e se recusam a aprender a linguagem do simbolismo natural.

Linguagem esta que precisa ser estudada com urgência, não só para lidar com os cientistas como também, por exemplo, com astrólogos e suas previsões fajutas. Mas como tratar deste assunto, se a simples hipótese astrológica, considerada digna de investigação até por São Tomás de Aquino, e que seria uma excelente oportunidade para que no mínimo se retomassem os estudos de cosmologia, quando não é descartada em função da condenação das práticas divinatórias, é desprezada por inspiração de uma ciência tão capaz de analisá-la quanto um pigmeu é capaz de dirigir um ônibus espacial? No mínimo, só se pode dizer que é desonesto agir como se a investigação de uma hipótese e a proposta de formulação de uma ciência fossem a mesma coisa que o aprendizado de sortilégios.

Poder-se-ia alegar, ainda no caso da astrologia, que esta postura tem antes o fim prático de afastar os fiéis da charlatanice e de evitar que “adorem os astros”. Mas a verdade é que, de um lado, dizer que o estudo de astrologia supõe a adoração dos astros equivale a dizer que o católico adora imagens. De outro, ainda que uma parte da massa de fiéis que nunca comporá uma elite intelectual seja afastada de um tipo quase inócuo de astrologia pelas exortações clericais, aqueles que se interessarem pelo assunto podem acabar buscando outros ambientes, como sociedades secretas, onde possam ao menos falar deste assunto. Se é certo, porém, que a função da Igreja não é agradar ao eleitorado, também não é razoável que ela proíba a astrologia como quem recomenda o uso da camisinha no Carnaval.

O resultado mais grave, enfim, é que mal se vê, entre os cristãos, quem estude a Física de Aristóteles. E a idéia de que a alma humana possa ser um espelho do cosmos, e que seus processos internos possam ser análogos – e não idênticos, observem bem os fiscais de ortodoxia – a processos da natureza parece inteiramente descabida ao religioso médio, e sobretudo ao homem mais religioso, que normalmente despreza este aspecto. A natureza, no imaginário religioso contemporâneo, é vista normalmente como o mero cenário das ações humanas – aliás, a mesma visão de Marx. No máximo, é vista como uma fonte de recursos a ser protegida; mas nunca como uma mensagem de Deus, nunca como algo a ser conhecido, mas só como algo a ser transformado.

Não há como negar que esta perspectiva tem o sabor da heresia gnóstica, que pretendia uma descontinuidade entre Deus, universo e homem: em meio a um mundo aleatório e hostil, só restaria ao indivíduo buscar a sua centelha interior, ignorando a Criação. Neste sentido, aqueles que se levantam para condenar abertamente as ciências simbólicas da natureza não fazem mais do que o papel do demiurgo mau, ou simplesmente do diabo; aliás, diabole, em grego, significa “ataque verbal calunioso, que inspira a suspeita”[3]. Quando opomos o diabolo ao símbolo, aquele que não separa, mas une, percebemos que é uma intervenção diabólica que impede o homem de compreender imediatamente o mundo material como plenamente simbólico (e de entender o que está simbolizado): a dissociação entre a natureza e o Verbo é uma vitória diabólica[4].

Desprezar o simbolismo natural é desprezar uma das maneiras primordiais que Deus escolheu para falar aos homens; condená-lo é condenar uma linguagem divina. E quem faria isso, senão o macaco de Deus, o inimigo do homem, que pretende desviar sua atenção das evidências e impedir a elevação de sua alma?

Uma postura verdadeiramente cristã não ignoraria a continuidade necessária entre Deus, natureza, homem, e experiência sensível. O cristianismo verdadeiro não pode pretender que a natureza esteja aí só para satisfazer as necessidades do corpo; afinal, os planetas, por exemplo, não fazem a menor diferença quanto a isto, e a maior parte dos alimentos existentes constitui apenas variações sobre o mesmo tema. Tampouco poderia um cristianismo verdadeiro enxergar o mundo como simples cenário: isto indicaria que Deus fez algo de certo modo sem sentido, ou que age mais como um mero contra-regra e menos como Deus.

Se Deus é o supremo artista, por que não estudar sua obra de arte? Por que dar atenção somente ao simbolismo presente nas obras da arte humana, nas canções, poemas, prédios e vitrais, e desprezar o simbolismo do mundo da vida? [5]

 

NOTAS:

[1] Com isto não quero dizer que as faculdades de ciências naturais estão abertas aos interessados, mas que o mundo está aí, e quem quiser ver Deus nele não precisará fazer muito esforço para conseguir. A menos, é claro, que o interessado confundisse o estudo da natureza com o estudo de modelos matemáticos, e procurasse Deus em quarks e fantasmagorias semelhantes. Nisto, realmente, a presença de Deus é bastante indireta. Voltar

[2] Quando o Papa João Paulo II publica uma encíclica como a Fé e Razão, está apenas concedendo a vitória aos cientistas modernos, pois não faz mais do que tentar mostrar como a Igreja é uma instituição atualizada, adiantada e moderna, e não obscurantista, atrasada e antiga. A encíclica, bem como a aceitação sem sentido da hipótese evolucionista como verdade apodíctica, são demonstrações das trevas em que a inteligência católica está imersa. Voltar

[3] Segundo a tradução dada por Manuel Alexandre Jr. na página 44, nota, da Retórica de Aristóteles. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1998. Voltar

[4] Preciso agradecer ao amigo Remo Mannarino pela lembrança deste ponto. Voltar

[5] Devo parte da inspiração deste artigo ao meu amigo Marcelo De Polli, que disse em um e-mail (modifico um pouco suas palavras tendo em vista a brevidade e a clareza): “Que Cristo possa falar pela boca de quem quer que possa identificar suas palavras com a Verdade universal é mais uma confirmação de que não há o abismo entre o homem e Deus que enxergam os gnósticos.” Outra pessoa a quem muito devo é o Prof. Olavo de Carvalho: várias idéias expostas aqui foram tiradas de uma conferência sua a que assisti na Romênia em 1998.


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