A ideologia está nos olhos do observador

Na semana retrasada, Alberto Dines publicou em seu Observatório da Imprensa um artigo contra a "indústria do diploma", com vários insultos dirigidos a Olavo de Carvalho, sem citar seu nome. Tendo recebido uma resposta de Olavo, acabou se retratando na edição seguinte do Observatório.

Existem dois comentários a fazer sobre o episódio.

1. Os insultos a Olavo de Carvalho foram publicados com destaque, antes do scroll. A retratação, é claro, estava perdida no meio das dezenas de links que compõem cada edição do Observatório. Ao agir assim, Alberto Dines demonstra a mesma parcialidade que condena nos grandes veículos da imprensa brasileira. Sendo a parcialidade um fato comprovado pelas evidências materiais, valeria investigar suas razões se o próprio Dines já não as tivesse confessado: "divergências de caráter ideológico", que justificaram a "veemência" de suas palavras. Isto quer dizer que ainda que Dines mudasse o texto, a emoção não mudaria. Ele não chamaria Olavo de "Goebbels brasileiro", mas diria outra coisa no mesmo tom. Que belo exemplo de jornalismo imparcial, Sr. Dines, em que sai o texto e fica só a emoção a ele associada, emoção trazida pela ideologia - isto sim parece coisa do Goebbels.

2. Sobre a "indústria de diplomas": o Sr. Dines deu uma boa contribuição para sua criação, ao lutar pela obrigatoriedade do diploma na assembléia constituinte de 1988: "Na Constituição de 1988, eu era a favor da regulamentação da profissão por meio do diploma." Ou ainda:"Eu sempre fui um defensor do diploma obrigatório."

Se o exercício de uma profissão está vedado pelo Leviatã a quem não possuir um diploma, está criado o mercado de faculdades particulares que vão dar diplomas a quem não pode obtê-los nas faculdades públicas. Se, para ser jornalista é preciso ter diploma de jornalista, então as pessoas que desejam esta profissão precisam obtê-lo de algum modo. Alguém poderia argumentar que o problema é a falta de vagas da universidade pública etc., levando a uma dialética infernal cuja solução é a seguinte: se a função da universidade é dar diplomas para o exercício de uma profissão, então ela é uma escola profissionalizante. Claro que muita gente preferiria que fosse uma escola de militância, e as públicas são mesmo. Por isso que boa parte dos alunos de Comunicação da UFRJ lamenta não ter obtido formação profissional suficiente - eu sei disso porque já ouvi mais de uma vez esta reclamação dos próprios - e invejam justamente os recursos de que dispõem... os alunos da UniverCidade!

Enfim, Sr. Dines: em vez de reclamar da "indústria do diploma", assuma sua parte neste empreendimento fascista, pois foi o Sr. quem convocou o aparato repressor do Estado para coibir o exercício do jornalismo pelos não-diplomados. Agora o Sr. quer que o Estado aja contra as faculdades que dão os malditos diplomas - uma atitude que não surpreende em quem troca de palavras, mas não a veemência com que são ditas, com a sua facilidade.


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