
A história verdadeira de homens verdadeiros
São 00:54 de quinta-feira, 13 de setembro de 2001, e até agora as imagens dos aviões colidindo com as torres gêmeas do World Trade Center continuam passando na minha cabeça de 30 em 30 segundos.
Assim como milhões de pessoas ao redor do mundo se lembram do momento em que souberam do assassinato do presidente Kennedy, não há dúvidas de que milhões irão se lembrar de onde estavam quando souberam do ataque terrorista a Nova Iorque e Washington. Eu esperava para começar uma reunião de trabalho nos escritórios da Globo.com, na Barra da Tijuca, aqui no Rio. Logo após ter chegado, fui ao banheiro, e minutos depois, ao sair, encontrei todos em polvorosa em torno dos vários aparelhos de TV. Começamos a reunião mesmo assim, mas após o impacto do segundo avião já não havia mais clima para falarmos de coisa nenhuma. Telefonei para minha namorada e para Olavo de Carvalho, que ainda não sabiam de nada, e que custaram a entender que minha frase "um avião seqüestrado se chocou contra o World Trade Center e logo depois ele desabou" queria dizer aquilo mesmo. Compreensível, eu acho.
Há três anos não ponho os pés em Nova Iorque, onde vivi por um ano e meio. Três das minhas imagens mais fortes da cidade incluem a visão das torres gêmeas: a primeira, da ilha vista da ponte George Washington, que eu utilizava com freqüência por morar em um subúrbio do outro lado do rio Hudson; a segunda, das torres rasgando a paisagem de pequenos prédios do sul da ilha, visto do encontro exato da Sexta Avenida com a Rua 4, onde há a estação de metrô de onde saltei tantas vezes para chegar à faculdade; a terceira, das torres gêmeas como a primeira coisa que se avistava de Manhattan quando ia para longe, dependendo da direção - vê-las era como obter o sinal de que estávamos próximos de casa.
Não tenho a imagem daquele prédio como o centro de negócios que era; fui lá três vezes apenas, uma como turista. Para mim, as torres gêmeas apenas costumavam me lembrar que eu estava em Nova Iorque, que eu deveria me dirigir às pessoas em inglês, e me acostumar a ter dinheiro uniformemente verde e não multicolorido na carteira. Até terça, eram apenas uma lembrança de um tempo curto, porém precioso, da minha vida. Pensar que elas agora não estão mais lá é como pensar que alguém que eu amo tenha sido atacado e mutilado; as marcas da mutilação para sempre trarão a memória dos atos horríveis.
Isto, é claro, no nível pessoal, no meu nível pessoal. Existem milhares de cadáveres agora, milhares de entes queridos, desaparecidos, despedaçados, queimados, simplesmente mortos ou, com a graça de Deus, vivos. Pessoalmente, não conheço ninguém que estava no World Trade Center; mas conheço pessoas que conheciam. A ex-namorada de um amigo meu perdeu três amigos. Um amigo, advogado em Nova Iorque, tratava com outros advogados cujo escritório ficava em uma das torres.
Não posso partilhar suas histórias, não posso lamentar por ninguém especificamente, mas só por uma multidão desconhecida e crucial de pessoas que estão entre minhas lembranças de Manhattan e a especulação política. Posso imaginar várias razões e motivações possíveis por trás do atentado, que estas pessoas pagaram o preço do imperialismo americano, que foram vítimas da maldade mais diabólica, ou qualquer coisa.
Mas isto pouco adianta se não houver uma maneira de incorporar este terrível evento ao meu próprio psiquismo, se não houver uma maneira de contar toda a história do atentado e literalmente assumir este fardo de violência e transfigurá-lo de algum modo. Posso imaginar o efeito terapêutico que os poemas políticos de Yeats tiveram sobre muitos irlandeses, especialmente "Easter 1916", meu favorito, em que aliás são mencionadas "polite meaningless words", a única coisa que se consegue pronunciar em momentos como este. Eu espero sinceramente que alguém conte a história deste atentado, que cada sobrevivente conte a sua história, e o inominável horror passe a ter nome, forma, tamanho, rosto e um lugar no mundo.
Narrar esta história pode ser muito doloroso, mas é fundamental. Compreendê-la pode ser mais doloroso ainda. Como isto tudo aconteceu? O que permitiu que isto acontecesse? O que poderia ter evitado a tragédia?
Fiquei pensando nisso, e lembrei-me de que uma das primeiras coisas que consegui verbalizar após ver as imagens na TV foi o seguinte: "depois disto, parte do mundo se tornará insuportável. O poder policial dos Estados aumentará muito." É bem possível, mas este poder já é bastante grande.

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Será tão difícil aceitar que se alguns passageiros dos vôos seqüestrados pudessem estar armados talvez fosse relativamente fácil dominar os seqüestradores, por exemplo?
Esta é apenas uma pequena reflexão. Não vejo maneira mais eficiente de combater o terrorismo do que delegando esta responsabilidade a cada cidadão, em vez de concentrá-la nas mãos por definição ineficientes de um Estado. É a vida de pessoas comuns que está em jogo, não há porque não deixá-las agir em defesa própria. Isto é no mínimo mais humano do que uma guerra entre um Estado abstrato e terroristas anônimos, em que as vítimas compõem uma multidão de desconhecidos e irreconhecíveis.