
Sobre educação: a universidade americana
Preparar-se para entrar no mercado de trabalho é importante. Mas é
preciso saber que o trabalho, na maior parte dos casos, só tem a finalidade
de nos nutrir e dar conforto. Ou seja: a finalidade do trabalho é
a sobrevivência, e não a vida. Para levar uma vida humana,
precisamos conhecer as coisas humanas: é isto que a educação
liberal nos dá. Como o modelo americano de educação está
mais próximo disto do que o brasileiro, vamos conhecê-lo um pouco
melhor.
Entrando na universidade
Para ser admitido em uma universidade americana, você faz uma prova nacional, tipo o ENEM, chamada SAT (Scholastic Assessment Test), facílimo para alunos brasileiros. A diferença é que enquanto os brasileiros passaram os anos anteriores de sua vida estudando para o vestibular, os americanos passaram o mesmo tempo estudando coisas que lhes interessavam pessoalmente há alguma liberdade curricular nas escolas e que dão uma idéia de quais são os valores da cultura americana, situando aqueles jovens na história de sua civilização. Por isso, talvez, o SAT seja tão fácil: a idéia é só garantir que os alunos sabem o mínimo, não classificá-los para ficar com uns e jogar fora o resto.
Além disso, todo o seu currículo é levado em conta, com tudo o que você já fez na vida e considera importante. Artes marciais, dança, teatro, culinária, trabalhos, esportes Por isso, uma coisa a respeito dos processos de seleção das universidades americanas é indisputável: quem você é o que você faz são levados em conta pelos comitês de admissão das universidades. Você, sua história, e não somente suas notas ainda que estas contem, claro.
Artes liberais
Metade do currículo universitário americano dos cursos de humanas é composto de artes liberais. Não as sete artes liberais do trivium e do quadrivium medievais gramática, retórica, lógica; aritmética, geometria, música e astrologia (e não astronomia, como muita gente gosta de dizer hoje) mas um corpo de matérias que retém o nome e o propósito daquelas: tornar o homem livre, daí o nome artes liberais.
Ser livre, porém, é ser capaz de fazer escolhas conscientes. Ninguém pode dizer que é livre se ignora tudo a respeito do mundo que o cerca; no máximo, será livre da mesma maneira que um tatuí ou um caracol. Um ser humano, para ser livre, precisa no mínimo saber qual a origem das idéias que tem na cabeça: se prefere a democracia ao socialismo, precisa saber quem inventou a democracia, quem inventou o socialismo, quais as transformações por que estas idéias passaram, e como chegaram a ser duas opções para si, hoje, em pleno século XXI.
Com isso já dá para perceber que não basta que o indivíduo seja capaz de pensar por si para ser livre; esta é uma condição necessária, mas não suficiente. O indivíduo precisa possuir os dados corretos: a verdade vos libertará, diz o Evangelho. E, no caso dos EUA, além de libertar os indivíduos das trevas da ignorância, ainda os insere em uma comunidade de pensamento que atravessa séculos e milhas e se chama civilização americana.
E o Brasil?
Nos EUA, aqueles que foram para a universidade são respeitados simplesmente por isto, porque fizeram uma opção por algo superior. Aqueles que recusaram isto sabem que optaram por um papel secundário na história, que só podem participar dela de maneira passiva, como trabalhadores, e não como pessoas que tomam decisões reais a respeito do próprio destino.
No Brasil, o ensino superior faz pouco mais do que conceder um certificado que permita o exercício de uma profissão, e quase nem se espera que faça mais do que isso. Um bom emprego ao fim do curso trará a sensação de missão cumprida.
Não será mais do que hora de pensar na educação dos indivíduos, dos cidadãos livres? A civilização brasileira corre um sério risco de não chegar a existir se a simples sobrevivência dos nossos organismos continuar tendo mais importância do que a vida do espírito.
(Artigo originalmente publicado no suplemento Megazine de O Globo de 20/11/2001.)