Conseqüências da criação do Ministério dos Diplomas

 

Na última semana, a Universidade Estácio de Sá foi vítima de um vil ataque do jornal O Globo e do Fantástico. Instruíram um analfabeto a marcar somente A e B na prova de múltipla escolha do vestibular daquela instituição, e ele passou. Conclusão que tiraram: a Estácio de Sá é malvada e “mercantilista”.

A confusão aí já é tão grande que só é possível mesmo desfazê-la através de uma análise ponto a ponto:

1. Em primeiríssimo lugar, antes de acusar a Estácio de qualquer coisa, é preciso observar que os repórteres agiram de má fé contra a Estácio. É óbvio que fazer um vestibular de múltipla escolha basta marcar qualquer coisa. Colocar um analfabeto ou um alfabetizado daria na mesma. Eu mesmo fiz todas as provas de múltipla escolha de química e física assim. Nunca entendi nada disso. E tenho meu diploma de segundo grau. O que nos leva ao item 2.

2. School’s about getting grades, not learning anything. A primeira vez que ocorreu a algum professor dar notas a seus alunos foi em Cambridge, em 1792. A nota é um instrumento fundamental na burocratização do ensino. Não nego que certos tipos de conhecimentos possam ser aferidos por notas (habilidades lógico-matemáticas, por exemplo), mas uma coisa é ir para escola motivado pelo desejo de aprender e outra coisa é ir para escola e prestar atenção nas aulas para ser capaz de tirar boas notas. Se isto não é evidente em si, basta observar que mesmo os melhores alunos do colégio costumam esquecer TUDO que aprenderam em anos no exato momento em que terminam a última prova de vestibular. Eu confesso também que só não esqueci algumas coisas porque simplesmente não as aprendi. E passei em uma pá de vestibulares.

3. A educação não se mercantilizou. Foi a palavra educação que se mercantilizou. Hoje em dia, “educação” pode significar tanto o adestramento ideológico como a capacitação para o trabalho. As universidades “boas” são as que dão aquilo e as “más” – as privadas – aquelas que dão isto. Se isto é educação ou não é uma pergunta idiota: é claro que não é, se pensamos no sentido antigo do termo. Educação, no Brasil, é um Ministério. Então, o que o Ministério disser que é Educação fica sendo. A verdadeira função deste Ministério, porém, é assegurar a validade dos diplomas.

4. Daí se deduz que o verdadeiro sentido da expressão “mercantilização da educação” é “mercantilização dos diplomas”. O fenômeno referido pela expressão só pôde acontecer porque o governo regularizou quase todas as profissões do Brasil e estabeleceu a obrigatoriedade de diplomas para seu exercício. Logo, se o acesso a um emprego é mediado por um diploma, está criada uma demanda por diplomas. O governo não a pode suprir, com suas poucas e pobres universidades. O mercado, então, assume.

5. Fica fácil perceber que estas universidades privadas fornecedoras de diplomas prestam então um inestimável serviço à ordem legal do país e a seus alunos-clientes – que são aliás muito pior atendidos nas universidades estatais –, que podem então obter os empregos que desejam. Eventualmente, estas universidades ainda podem realmente qualificar alguém para executar certas tarefas, benefiando também o mercado e os consumidores.

6. Por outro lado, este ainda é o tão sonhado milagre da “democratização do ensino”. Se o verdadeiro ensino não pode ser democratizado, os diplomas – e é isto que interessa ao brasileiro, senão ele não exigiria isto do governo – podem. Este processo ainda gera muitos empregos.

7. Fica revelado mais uma vez o ódio estatizante da esquerda. Primeiro, as corporações obrigam o governo a criar uma demanda; depois, todos se enraivecem porque o mercado a supre. Seria como ficar com raiva do laboratório que produz o tal antibiótico que cura a doença do anthrax. A esquerda não quer ver o país funcionando minimamente; ela quer ver o país afundando em leis idiotas e exigências de deputados imbecis.

8. Dei a deixa para mim mesmo. Preciso citar o indescritível Chico Alencar a respeito do episódio em O Globo: “É óbvio que estes vestibulares são feitos para encher as faculdades. Não têm nada de seletivo. A oferta de vagas é maior do que a demanda. Essas universidades visam o lucro pelo lucro e não têm nenhum compromisso social. Não estão preocupados em qualificar ninguém.” Sr. Deputado: a universidade só pode qualificar o aluno depois que ele fizer o vestibular, e não antes. O problema não é um ignorante entrar numa instituição de ensino. O problema é alguém como o Sr. ter sido eleito deputado. Isto sim admira e consterna.

9. Não é preciso ser muito esperto para perceber que tudo isto aconteceu com a Estácio porque João Uchôa, fundador da Estácio de Sá, deu uma entrevista sublime à Folha Dirigida. Seu desalinhamento com as babaquices do dia custou a character assassination da Estácio. Basicamente, o homem sabe que sua universidade oferece um serviço e disse isso com todas as letras. É um dos homens mais sinceros do Brasil.

10. Antes de terminar, vale apenas listar os desejos contraditórios presentes no senso comum brasileiro: (a) a educação deve ser para todos, mas precisa ser de qualidade, como se a sua transformação em um currículo padronizado e massificado não fosse em primeiro lugar contrária e excludente da idéia de educação; (b) só quem tem diploma deve poder exercer tal profissão, mas não pode haver indústria de diplomas; (c) o MEC tem que dar dinheiro e resolver todos os problemas, mas as universidades devem ser autônomas; (d) todos devem ir para a escola, mesmo os que não querem de jeito nenhum, e não podem chegar aos dezoito anos sem ter aprendido nada; (e) a escola deve ser de qualidade, mas alunos marginais não podem ser expulsos por isso; (f) o professor quer ser um funcionário público, trocando o estatuto de profissional liberal por excelência para um estatuto servil – fazendo greve como quaisquer trabalhadores braçais – , mas quer manter o prestígio.

Só com estes pontos já dá para ter uma idéia de como é confuso o debate sobre educação no Brasil? Pois eu vos deixo com mais uma pergunta: será que os nossos burocratas e jornalistas conseguiriam passar em uma prova séria sobre ciência política, história, filosofia? Talvez até conseguissem, tendo tempo para estudar. Mas esqueceriam tudo assim que pudessem.


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