Dois livros e um filme

Na hora de selecionar dois livros e um filme para um especial de fim-de-ano do Indivíduo, deparei-me com tantas dificuldades que me pareceu mais fácil - e até mais honesto, em um certo sentido - selecionar obras que tivessem sido importantes para mim no ano de 2001. Afinal, o ano passa e só levamos dele aquilo que encontramos de eterno.

 

Dois livros

1. Christian and Oriental Philosophy of Art, de Ananda Coomaraswamy, tem o dom de mudar vidas. Nele aprendemos que arte é "o modo correto de fazer as coisas" (tema que já desenvolvi em um artigo para o Globo reproduzido aqui) e adquirimos a dimensão do horror de vivermos em um mundo sem arte - pois quantos trabalhadores têm consciência de que sua profissão é uma arte?

Em vez de falar sobre o livro, achei melhor traduzir um trecho que de certo modo o resume. É o início do capítulo "Será a arte uma superstição ou um modo de vida?"

Por superstição referimo-nos a algo que "sobra" de um tempo anterior, que não mais entendemos e para o que nem temos mais utilidade. Por modo de vida, referimo-nos a um hábito que conduza ao bem do homem, e em particular à conquista de sua felicidade presente e última.

Hoje, parece, existe um consenso de que a "Arte" é parte das coisas mais elevadas da vida, para ser aproveitada em horas de lazer ganhadas por horas de "Trabalho" inartístico. Igualmente, uma das características mais óbvias de nossa cultura é a divisão de classe entre artistas e trabalhadores, entre os que por exemplo pintam em telas e os que pintam paredes de casas, ou os que manejam a caneta e os que manejam o martelo. Decerto não negamos a distinção entre a vida contemplativa e a vida ativa, ou entre a atividade livre e a servil, mas em nossa civilização fizemos, em primeiro lugar, um divórcio absoluto entre a vida contemplativa e a vida ativa, e em segundo lugar substituímos a vida contemplativa por uma vida estética - ou, como o termo implica, uma vida de prazeres. Retornaremos a este ponto. De qualquer jeito, pensamos que arte e trabalho são categorias incompatíveis, ou pelo menos independentes, e pela primeira vez na história criamos uma indústria sem arte.

Individualistas e humanistas que somos, atribuímos um valor desordenado à opinião pessoal e à experiência pessoal, sentindo um interesse insaciável pelas experiências pessoais de outros; a obra de arte tornou-se para nós uma espécie de autobiografia do artista. Tendo a arte se abstraído da atividade geral de fazer coisas para o uso material ou espiritual humano, ela passou a significar para nós a projeção, em uma forma visível, dos sentimentos ou reações da personalidade peculiarmente composta do artista, que julgamos "inspirado" ou descrevemos em termos de gênio. Por ser o gênio artístico misterioso, nós, que aceitamos o status de trabalhadores, encontramo-nos mais do que dispostos a chamar o artista de "profeta", e conceder-lhe em troca de sua "visão" muitos privilégios que um homem comum hesitaria em exercer. Celebramos sobretudo o fato de o artista ter se "emancipado" daquilo que um dia fora sua posição como servo da Igreja ou do Estado, acreditando que sua misteriosa imaginação opera melhor aleatoriamente; se um artista como Blake ainda respeita uma iconografia tradicional dizemos que ele é um artista apesar disto, e se na Rússia ou na Alemanha o Estado pretende convocar o artista, é muito mais o princípio envolvido do que a natureza daqueles governos que nos perturba. Se exercemos, nós mesmos, uma censura requerida pela inconveniência moral de certos tipos de arte, sentimos que é necessário no mínimo pedir desculpas. Se uma vez o propósito supremo da vida foi tornar-se livre de si mesmo, hoje nossa vontade é garantir o máximo de liberdade para si mesmo.

2. A Trilogia Tebana, de Sófocles, traduzido por Mário da Gama Kury. Composta de Édipo Rei, Édipo em Colona e Antígona, a trilogia parece trazer o gosto do começo da civilização, o começo daquilo que chamamos de "Ocidente". É uma obra fundamental.

Mas isto ninguém disputa, creio. O que me parece que poucos conhecem é a qualidade do tradutor desta edição da Jorge Zahar, Mário da Gama Kury. Já estive em duas faculdades de Letras e nunca ouvi este nome. Kury traduz estas (e várias outras) peças gregas no seu metro original, escreve introduções excelentes - sem qualquer idiotice ideológica - e é um poeta de mão cheia. Seu texto combina o imitativo elevado com a fluência perfeita na língua portuguesa moderna - o que, sabendo do estado da língua no Brasil, tem mais méritos do que o normal. Se você nunca leu as peças do antigo teatro grego, aproveite a oportunidade; se nunca as leu em traduções de Kury, não deixe de lê-las também.

Mário da Gama Kury ainda traduziu a Política e a Ética a Nicômaco de Aristóteles, e outros livros. Sua dedicação ao assunto é espantosa. Sinceramente, não consigo entender como sua obra de tradução não é considerada um monumento nacional. Aqui fica, assim, como uma modesta compensação, minha homenagem a este grande acadêmico.

 

Um filme

A ausência de filmes realmente bons e minimamente sérios em 2001 foi marcante. Se tivesse que escolher o lançamento do ano, seria Rush Hour 2 - uma escolha em parte devida ao meu gosto pessoal por filmes de artes marciais e em parte devida ao fato de Jackie Chan ser um herói minimamente exemplar.

Mas não há razão para ficar com o mínimo se podemos ter com o máximo e ir direto para a mãe de todos os filmes orientais de aventuras: Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa.

Como se não bastassem o bom roteiro, os diálogos econômicos, a beleza plástica das cenas e o exemplo de bravura desinteressada de guerreiros que não fogem ao seu dever de estado, os interessados em astrologia ainda podem se divertir percebendo a correspondência entre os sete samurais e os sete planetas.

Em uma época na qual a maior parte dos filmes respeitáveis não traz mais do que uma lição de moral ou uma versão romanceada de algum episódio real, o filme de Kurosawa mostra que o cinema pode ser muito mais do que isso, combinando a verossimilhança (ou a fantasia) com economia, harmonia, plasticidade e exemplo moral. Afinal - e Coomaraswamy concordaria - para que serve uma arte que não conduz à elevação do homem?

 


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