De como Henrik Ibsen pariu Marion Zimmer Bradley

Tendo assistido recentemente a duas produções - uma no DVD e outra no teatro - cujos personagens principais eram mulheres, pareceu-me que os problemas modernos da concepção literária ficaram mais evidenciados. Decidi compartilhar com os leitores minhas anotações mentais, pois nunca vi um crítico falar nada semelhante.

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Casa de Boneca, de Henrik Ibsen, está em cartaz aqui no Rio de Janeiro com Ana Paula Arósio, a mais competente atriz de sua idade (não é uma grande atriz, mas é esforçada e convincente, e suas colegas não conseguem nem abrir uma boca sem que entre um mosquito), e boa tradução de um antigo professor meu da PUC, Karl Erik.

O enredo é simples: Nora, uma jovem senhora, há anos falsificou a assinatura de seu pai moribundo para obter um empréstimo que salvou a vida de seu marido. Ele, porém, ignora isto e, agora que será o diretor do banco onde trabalha, pretende demitir o homem que ajudara sua esposa. Este promete sujar o nome de Nora se for mesmo demitido.

Nora nunca deixou de pagar as prestações da dívida. Contou uma mentira no passado, mas não sabemos se seu marido teria sobrevivido sem esta mentira. Por outro lado, como o próprio marido diz, ao fazer isto Nora expôs a si e à família - agora, por exemplo, está nas mãos de um homem transtornado.

Como resolver este dilema?

Ibsen seria um dramaturgo verdadeiramente grande se oferecesse qualquer solução. Por exemplo: se desse uma moderada vitória ao marido, estaria dando um voto para a honra; se a desse a Nora, o tema da peça seria o amor feminino, puro e forte nas intenções, confuso e destrambelhado nos meios. E a peça valeria talvez como uma parábola.

Mas Ibsen não faz nada: o homem que chantageia Nora muda de idéia por motivos que nada tem a ver com a questão central da peça, como se um deus ex machina baixasse; e Nora simplesmente diz ao marido que não esperava que ele a tratasse assim (e tem razão) e que agora quer abandoná-lo e aos filhos para descobrir-se a si mesma e repensar seu papel neste mundo.

Ou seja: de repente, o assunto da peça torna-se a falta de identidade das mulheres oprimidas pela sociedade. Aquilo que seria um grande drama torna-se um panfleto. Ao fim, em vez de rememorar a peça e tentar entendê-la melhor, os espectadores se limitam a dizer: "Puxa, como a Ana Paula Arósio é mesmo linda!" E a culpa disto é toda de Ibsen.

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Quando tinha 12 anos, li um livro que me impressionou muito: As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Esqueci tudo e na semana passada encontrei um DVD contendo uma minissérie americana feita a partir da obra. Aluguei-o.

Nos últimos anos, acostumamo-nos a ver fãs das Brumas interessados nos tais cultos da deusa-mãe, ritos de fertilidade (surubas, propriamente chamadas), contato com a "natureza" e tudo que parecesse diferente da tal cultura "patriarcal" do Cristianismo e semelhante aos próprios desejos.

Não consigo imaginar como alguém poderia se interessar pelo druidismo de Avalon a partir das Brumas. Afinal, todas as mulheres que de lá saíram são ou simplesmente perversas ou simplesmente imbecis. Viviane, a dama do lago, joga mulher contra marido, mata, produz uma relação incestuosa entre Arthur e Morgana, arma mil e uma intrigas e todas dão errado. Se ela fosse cristã, saberia que defender Avalon daquele jeito só poderia acabar com Avalon: Deus nunca compactuaria com aquelas coisas.

Morgana, por sua vez, é um mero brinquedo nas mãos de Viviane, e nunca chega a romper com ela como deveria. As únicas mulheres que fazem o que é certo são Igraine (mãe de Morgana) e a rainha Guinevere: após deixarem-se enredar na maldade o suficiente, decidem buscar perdão e expiação num convento.

Ficam pelo menos duas perguntas:

1. A falecida Marion Zimmer Bradley era, segundo seu website, católica praticante. Disto talvez pudéssemos depreender que seu objetivo era mesmo falar mal daqueles ritos e cultos pagãos, mostrando seus praticantes como pessoas horrorosas. Mas, ao final de tudo - da série ao menos - Morgana diz que o culto da deusa assumiu a forma do culto da Virgem Maria. Isto seria um sincretismo abjeto - como aliás todo sincretismo. Mas será que é isto mesmo que a autora está propondo?

2. Como As Brumas de Avalon pôde desempenhar um papel tão importante na criação de um ambiente pró-wicca e cultos da natureza se todos os seus personagens que praticam esta religião não são exemplo para ninguém? Talvez só um membro da escola da estética da recepção possa solucionar este enigma...

Mais: se a autora mesma disse que o culto da deusa agora vive no Cristianismo, porque os leitores que buscam a deusa não a procuram no Cristianismo? Não seria mais fácil encontrá-la numa religião que aí está, do que procurá-la em algo que sumiu há tempos?

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As confusões das Brumas de Avalon são apenas sinais de que a arte, como diz o grande Ananda Coomaraswamy, tornou-se uma superstição: algo que sobrou de um tempo que passou, e que não conseguimos mais entender. Se Marion Zimmer Bradley tivesse apenas se questionado a respeito da finalidade do seu trabalho (querer expressar algo é só vontade de falar e isso qualquer um faz), e tentado imaginar quais seriam seus efeitos nos leitores, sua obra seria mais clara e, portanto, melhor. Mas ela, como autora de romances, parece-se demais com Viviane, autora de intrigas.

Já a confusão de Ibsen não parece vir da sua incompetência, mas de um desejo consciente de torcer sua própria obra para atender a interesses feministas. A trama vai bem até a cena final, um anacoluto explicativo, um panfleto pouco sutil. Aliás, vale a pena dizer que o melhor panfleto - marxista, no caso - já escrito é My Fair Lady, de Bernard Shaw. Nunca as doutrinas modernas tiveram a seu serviço um artista tão capaz de sintetizá-las. A peça é chata, mas o marxismo está todo lá. Todos os personagens agem perfeitamente de acordo com sua ideologia de classe.

Mas bem. Ao menos, a noção de finalidade está presente, ainda que prostituída para uma causa vil. Só que foi exatamente esta prostituição das artes no começo do século, fazendo com que interesses mesquinhos pudessem ser comparados a ideais religiosos, que produziu as obras confusas que vieram depois, em que o bem e o mal estão confundidos não por uma espécie de "naturalismo" literário, mas porque os próprios autores desconhecem a diferença entre um e outro.


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