
Arrancando a rosa púrpura do Cairo
Toda história que não é uma parábola é uma fofoca. Cada vez que se conta uma delas, é preciso pensar: qual o propósito disso? Edificar o ouvinte ou simplesmente tomar seu tempo? É claro que a maior parte dos ouvintes - ou espectadores - está mais do que disposta a jogar seu tempo fora, mas isto não quer dizer que os contadores de histórias devam aproveitar-se desta fraqueza da audiência para adulá-la.
Não é errado, portanto, esperar que as histórias que "ouvimos" - filmes, romances, peças, pois ninguém ouve mais histórias hoje em dia - encerrem algum exemplo, algo de que possamos nos lembrar. Não é errado reclamar que tal ou qual filme "não mostra nada de bom"; pois se esperamos que tudo aquilo que consumimos nos traga "algo de bom", por que não esperar a mesma coisa das artes dramáticas? Ninguém come comida podre; por que assistir a filmes podres, com personagens podres?
É certo que a esta altura alguém já dirá que há filmes, peças, romances, que mostram o mal apenas para mostrá-lo como mal. Sim, estes também têm algum valor, mas não para todos os públicos. Uma platéia elizabetana não teria o que fazer com Requiem for a Dream, ao passo que nosso mundo escapista precisa destes puxões de orelha de quando em quando.
Mas mesmo a eficácia destes panfletos anti-drogas - ou anti-ilusão - pode ser questionada quando os comparamos com obras em que o mal está contrastado com o bem; isto é, obras em que o contraste entre mal e bem está nos próprios personagens, e não na relação entre obra (o mal) e platéia (o bem). Isto acontece porque o bem é mais atrativo do que o mal é repulsivo. É mais fácil sentir-se inspirado a seguir um grande exemplo e por um bem maior abrir mão de bens menores do que simplesmente fugir do mal, sem saber para onde.
No cinema contemporâneo, não vi melhor exemplo disto do que no recente A Beautiful Mind: por mais porcamente realizado (do ponto de vista dramático, que é o que me interessa mais particularmente) que tenha sido, a história ali delineada - não importa se é verdadeira ou não - é um grande exemplo de obediência ao sentido da vida de Viktor Frankl, de superação das condições adversas pelo seguimento do dharma.
A história é bem simples: John Nash, matemático, tem "um gosto por padrões [matemáticos]" ("a taste for patterns"), segundo suas próprias palavras, e tenta enxergá-los em todas as coisas, lembrando a frase de Isaac Newton: "se conhecêssemos o movimento de todas as partículas do universo, poderíamos prever tudo o que vai acontecer". Mas, como disse Aristóteles, não é possível matematizar a natureza, e tudo que Nash consegue em sua tentativa é isolar-se em sua imaginação, chegando por fim a conviver com alucinações.
Quando finalmente aceita sua condição de doente, percebe também que não pode fugir de seus deveres reais: cuidar de sua mulher, um anjo de paciência inesgotável, e de seu filho pequeno. Ele vê que sua doença mental não é desculpa suficiente e, sem no entanto jamais ficar curado, muda sua atitude em relação a ela, o que permite que ele retome sua vida - ou melhor, que finalmente viva uma vida normal.
Seu exemplo demonstra que as coisas que acontecem com alguém não têm tanta importância quanto a reação que este alguém tem a elas. Esta é a mesma lição de Viktor Frankl: mesmo no campo de concentração, há uma oportunidade para enfrentar o sofrimento com dignidade, sem rebaixar-se ao nível do algoz. Seria fácil, e até certo ponto compreensível, que Nash se deixasse tomar pela doença mental, tornando-se um inválido; mas é certamente muito melhor levantar-se contra ela e "vencê-la", mesmo que isso não signifique curar-se.
John Nash conseguiu fazer aquilo que Cecilia, a personagem de Mia Farrow em The Purple Rose of Cairo, não conseguiu: libertou-se de suas fantasias, e centrou-se na realidade. É também aquilo que os personagens de Requiem for a Dream não conseguiram, e aquilo que muitos hoje nem querem tentar. Nem é preciso dizer que a realidade é sempre melhor que a fantasia; mas vale observar que esta mensagem está também em A Beautiful Mind: é só depois de mudar de atitude que John Nash é reconhecido, chegando a ganhar o prêmio Nobel. Uma interpretação cristã do filme permitiria dizer que o Nobel é como o paraíso que vem depois do purgatório, a recompensa e a redenção. Ou a "prova" de que a realidade, no fim das contas, compensa muito mais do que a fantasia.