
Um ano de caça aos demônios
I have met them at close of day
Coming with vivid faces
From counter or desk among grey
Eighteenth-century houses.
I have passed with a nod of the head
Or polite meaningless words,
Or have lingered awhile and said
Polite meaningless words...
(W. B. Yeats, "Easter 1916")
De um lado, "faces vívidas"; de outro, "palavras polidas e vazias". As faces vívidas trazem o testemunho, a experiência direta dos acontecimentos; as palavras polidas e vazias não sabem abarcar o que as faces vívidas viram.
Um ano depois, parece que ainda não. Os atentados a Nova Iorque e Washington, como era de se esperar, serviram de pretexto para pseudo-análises pseudo-simbólicas, de exemplo para ideologias belicistas e anti-belicistas, pró-americanas e anti-americanas, direitistas e esquerdistas.
Recordo-me de uma conversa que tive com Olavo de Carvalho há cerca de quatro anos. Falávamos de como a literatura emudeceu diante dos fatos horríveis do século XX. "Como dar conta do comunismo? Como dar conta de 100 milhões de mortos?", ele perguntava. "Como contar essa história?" Na verdade, a história já foi contada em vários livros, mas nunca houve uma síntese unificadora, uma espécie de Ilíada ou de Lusíadas do comunismo, que simultaneamente definisse o assunto em si e todo um período. Talvez, neste caso, seja melhor que não haja, para não inspirar as futuras gerações.
Mas permanece a questão: como abraçar os atentados? Como falar deles? A quem se dirigir? E, sobretudo, falar exatamente do quê? De cada tragédia individual? Da podridão esquerdista? Do império americano?
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É possível dizer que a poesia é "intensiva" e a prosa "extensiva". Um poema fala direto do que é essencial, enquanto que a prosa esgota o assunto pelos detalhes, pela multiplicidade de abordagens que vão se superpondo. A diferença entre um poema e um romance é a diferença entre "the heart of the matter" e "the whole matter".
Mas, no caso dos atentados, uma abordagem "prosaica", ainda que contasse todas as histórias individuais, poderia tocar o "heart of the matter" se já não o conhecesse de antemão? E como conhecer isto de antemão sem possuir uma infinidade de conhecimentos, ou sem receber uma inspiração do Alto, algo que seja capaz não só de abarcar os fatos mas também de, ao menos no plano da arte, resolver suas contradições? Aí é que está a diferença entre a obra literária fundadora e a notícia de jornal.
Aqui podemos retornar a algo dito no início. É preciso trocar a análise pseudo-simbólica pela análise simbólica verdadeira, isto é, é preciso encontrar uma continuidade REAL entre o discurso e os acontecimentos. Sem apreender o "heart of the matter", ficará aquela sensação de que cada vida perdida foi apenas a vítima de uma irracionalidade absoluta, de um demônio que, agindo livremente, não pôde ser aprisionado a um papel na história de uma civilização. Aliás, em sânscrito, a palavra "asura", traduzida como demônio, quer dizer "ser desprovido de linguagem", e os asuras são considerados responsáveis pelas falhas na fala.
Se o embate pela recuperação da linguagem, da capacidade de nomear, é um embate contra os demônios, não pode ser travado em outro lugar senão no coração do homem (coração que é identificado com o intelecto e não com o sentimento) - o que nos leva, por incrível que pareça, direto ao centro dos acontecimentos mundanos. Explico. Em todas as épocas, o mundo é sustentado por alguns eremitas inteiramente desconhecidos que rezam incessantemente em suas cavernas - isto foi lembrado pelo bispo ortodoxo Kallistos Ware no colóquio "Paths to the Heart". Aí é que está o centro dos acontecimentos, o "still point of the turning world" de que Eliot fala. No coração do homem ocorre a percepção do "heart of the matter", e deste ato de percepção nasce a linguagem que elimina os demônios.
Segue-se a desagradável conclusão: os atentados - e as demais misérias do século XX - ainda não foram propriamente nomeados porque faltou a capacidade espiritual de lidar com tamanho mal, de dizer o nome do demônio e expulsá-lo de uma vez, porque "esta casta (de demônios) não se lança fora senão mediante a oração e o jejum" (Mat. XVII, 21), coisas que a Virgem pede desde suas aparições de La Salette e Fátima.
Rio de Janeiro, 11 de setembro de 2002