Chunhyang: amor verdadeiro e modelar

Há alguns anos li um texto de Olavo de Carvalho, "A Grandeza do Céu e da Terra", que muito me impressionou. Baseado em algumas referências literárias - a Fedra, de Racine, Medida por Medida, de Shakespeare - e no hexagrama 36 do I Ching, Olavo explicava o simbolismo da ausência e do retorno do rei. Sua retirada de cena, no drama, é análoga à saída da presença iluminadora do Espírito da alma, e seu retorno equivale à volta do mesmo Espírito.

É fácil entender isto do ponto de vista "exterior": basta ver, no teatro, que o personagem Rei se retirou; ou, na vida, que aquele que para nós representa o Espírito, como um professor ou um sacerdote, viajou, morreu ou algo assim. Nos Relatos de um Peregrino Russo, acontece exatamente isto: o protagonista encontra um mestre espiritual que começa a lhe ensinar a "orar sem cessar", mas este logo morre.

Do ponto de vista interior, isto corresponde aos momentos em que, para nós, as coisas são evidentes e óbvias; aos momentos em que está claro que o certo é o certo e que a verdade é a verdade. Quando temos estas evidências presentes na mente, dificilmente fazemos algo de errado, pois para errar, ou pecar, é primeiro preciso abafar a "voz da consciência" e, para que o pecado se transforme num vício habitual, é preciso aniquilar esta voz. O ser humano tem necessidade de, ao menos no momento em que pratica um ato, acreditar ainda que parcialmente na sua validade, e suspender os juízos em contrário. É neste momento que o Rei se retira, que o Espírito é mandado de volta para o céu, de onde retornará à cata dos justos: em nosso julgamento particular, logo após a nossa morte, receberemos a plena consciência do que foi a nossa vida, e é dessa percepção que decorrerá o julgamento.

Mas é verdade, também, que nem sempre o Espírito vai embora porque O mandamos embora; Ele também pode Se retirar quando quiser: Jesus subiu aos céus, e Pentecostes não durou mais do que um dia. O Espírito tem suas próprias razões insondáveis. O que fazer, então, quando o Espírito se vai? Como Olavo mesmo disse, devemos ser fiéis ao seu legado; Jesus trouxe a "nova lei", a qual deve ser praticada na Sua ausência. Quando atinamos com certas verdades, devemos permanecer fiéis a elas mesmo nos momentos em que não somos capazes de repetir os atos de consciência que levaram a sua percepção.

Este é um dos temas principais do melhor filme que vi em muito tempo, o coreano Chunhyang. Chunhyang é a filha de uma cortesã, por quem o filho do governador da província, Mongyong Lee, se apaixona. Ele a pede em casamento, ela aceita, e tudo se consuma imediatamente. Após poucos dias de felicidade, Mongyong precisa ir com sua família para Seul, pois seu pai foi promovido na corte. Como Chunhyang é filha de uma cortesã, ele não pode assumir publicamente o casamento, para não prejudicar a carreira do pai; abandona-a, mas promete voltar. Indo para a capital, terminará seus estudos, fará um concurso público e também se tornará funcionário do rei, adquirindo grande poder.

Enquanto isso, Chunhyang é cobiçada pelo novo governador, que deseja que o costume segundo o qual "filha de cortesã, cortesã é" prevaleça sobre o costume de as esposas serem fiéis aos seus maridos. Chunhyang, que não foi criada como cortesã, mas como nobre (pois seu pai era um antigo governador) mesmo diante de um homem a quem deveria grande obediência, nega-se a satisfazer seus desejos, pois precisa cumprir o seu dever de esposa. Não importa se seu marido sumiu; não importa se talvez ele a tenha abandonado; só importa que ela deve ser fiel a ele. Mas não se trata apenas, também, de um esforço puramente marcial de adesão ao dever mesmo em face das contrariedades: Chunhyang nunca deixa de declarar que ama o marido e que seu coração só pertence a ele.

Isto faz com que Chunyang não seja apenas um símbolo da alma que, mesmo temporariamente desamparada, permanece fiel ao Espírito; ela já traz o Espírito dentro de si, e a lei se realizou em seu coração. Ela não precisa ser coagida ou coagir a si mesma através da auto-disciplina para cumprir a lei da fidelidade; ela é fiel porque não poderia ser outra coisa. Não se trata só de fazer prevalecer os laços estabelecidos por Deus sobre os laços humanos - São Tomás de Aquino mesmo diz que devemos ser fiéis às autoridades civis na medida em que elas não desrespeitam a lei natural ou a lei divina - mas de aderir a eles como mártir, porque sua vontade já está santificada e já não há mais outra realidade. É neste momento do filme, na cena em que Chunhyang é torturada por sua fidelidade, que vemos que a história faz parte daquela espécie que Aristóteles denominou imitativo elevado, e que vem a memória o fato de que a Coréia é um dos países mais católicos do mundo, o quarto em número de mártires.

Neste momento do filme, torcendo pela virtuosa Chunhyang, perguntamos: e onde está o marido, que deixa a esposa passar por isto? Mongyong acaba de passar no primeiro lugar do concurso em Seul, e tornou-se emissário do rei. Vai até a província onde seu pai foi governador e onde Chunyang sofre para verificar o estado de coisas, e descobre que o novo governador é malvado com o povo e com sua esposa. Mongyong volta disfarçado de mendigo, encontra sua sogra, e fica sabendo que, por sua desobediência, Chunhyang será executada no dia seguinte. Como emissário do Rei, prepara um ataque surpresa, liberta o povo e sua esposa, e todos ficam felizes: é restauração da ordem por que todos ansiavam. Enquanto Chunhyang representou o princípio passivo com sua fidelidade, Mongyong representa o princípio ativo, pois é sua intervenção que altera o estado de coisas; é o Espírito que volta para reclamar o que é seu.

Aqui está o molde do casamento perfeito, bastante diferente das relações preguiçosas e meramente concupiscentes que, por alguma loucura inconcebível, têm a pretensão de durar para sempre e de ser abençoadas por Deus. Se alguém quiser ter uma idéia do que é o verdadeiro amor eterno, que assista Chunhyang.

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Pontuando toda esta história, há um elemento muito importante: a recitação tradicional cantada de histórias, o Pansori. O filme abre com isto e a narração é feita assim; as cenas da história são também alternadas com cenas de sua recitação num teatro. Digo logo de uma vez: é uma das coisas mais impressionantes que já vi na minha vida e faz boa parte da (boa) poesia ocidental parecer simplesmente uma frescura, coisa de almofadinhas. Diante do Pansori, as expressões "cultura tradicional" (no sentido guénoniano do termo) e "cultura superior" ganham sentido. Ao ouvir isto, fica fácil entender o poder que tiveram em épocas remotas as grandes narrativas épicas, que não tinham versões escritas, sendo apenas recitadas por artistas de um tipo que não se encontra mais no ocidente. Diante do vigor do Pansori, nossa literatura parece mesmo um passatempo de bibliotecários; se os românticos ingleses (os únicos que podem ser levados a sério) conhecessem isto, saberiam onde encontrar aquilo que tanto procuravam.


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