Libertinos, Libertários, e Teólogos

Por Pedro Sette Câmara

 

A sigla PUC quer dizer, como é bem sabido, Pontifícia Universidade Católica. A PUC é uma universidade particular, aliás a mais incontestável representante da elite do ensino privado carioca, cujos alunos assinam, de livre e espontânea vontade e com pleno conhecimento, um contrato, e aceitam cumprir as exigências da universidade para a obtenção de um diploma no que quer que a PUC ofereça. Bem, entre as exigências da PUC, há o cumprimento de quatro matérias de Cultura Religiosa: "O Homem e o Fenômeno Religioso", "O Cristianismo", "Ética Cristã" e "Ética Profissional".

No primeiro semestre de 1997 cursei "O Cristianismo" com a professora Regina, e o que melhor entendi foram as boas razões que os índios tiveram para devorar os jesuítas. Em toda aula tive esse desejo oswalddeandradeano, talvez por ter me sentido tratado como - palavras do europeu usadas por Oswald - um bárbaro, que não sou. Ou, se sou, prefiro sê-lo a ser catequizado daquele jeito. E, como bárbaro - agora falo pelo aluno médio da PUC - preferia conversar na aula, não ir, escrever outra coisa, ler o texto de outra matéria, enfim, colorir meu tempo com alguma produtividade. Nem que fosse pensando em outra coisa, contemplando algo que não a aula. O que, filosoficamente, é ainda mais nobre, que este "Cristianismo" é coisa de bárbaros.

Tome-se como grande exemplo o livro adotado pela professora Regina e por vários outros professores(segundo, confesso, ouvi falar), cujo autor é até professor de Teologia da PUC, Alfonso Garcia Rubio. O livro, O Encontro Com Jesus Cristo Vivo(4a ed. São Paulo: Paulinas, 1994), mereceria um exame longo, mas este seria por demais nauseante e enfadonho. Vou me ater ao seu começo e a alguns "melhores momentos" que elucidarão minha argumentação - apertem o nariz e vamos lá...

Em meio a outras coisas mui esquisitas, diz o autor(págs 6-7): "Há também o difícil desafio da linguagem e da mentalidade modernas a exigir urgentemente uma explicação, uma comunicação significativa do conteúdo da fé em Jesus Cristo"[itálico do autor]. Bem, posso então presumir que até agora, nestes últimos dois mil anos, ainda não houve uma "comunicação significativa" da fé Cristã. Será que comunicação não pressupõe significado, sendo pois "comunicação significativa" uma horrível redundância? Antes, o ser humano era muito limitado e aceitava as lorotas inventadas pela Igreja. Agora, com a modernidade, estamos todos serelepes e deixamos de ser otários. A sociologia, e não a Revelação, foi quem nos salvou.

Não apenas está contida na afirmação de Rubio o pressuposto de que na modernidade há uma compreensão superior do que quer que seja (incluindo o "fenômeno religioso"), como também que esta compreensão é superior à da própria Igreja, ou da própria Teologia. Logo, é a compreensão moderna quem se torna juíza dos acontecimentos e das filosofias, uma idéia que pareceria horrível mesmo aos mais modernos - não é o grande drama intelectual de hoje em dia a incapacidade de compreender, ou a própria desistência de fazê-lo? Os próprios modernistas concordam que seus termos se tornam cada vez mais "fragmentados", específicos; que mais e mais eles se afogam no reino da quantidade e que a universalidade foi perdida. O problema, que não abordarei diretamente aqui, é que eles acham isso bom. Mas, independente de gostarem ou não, concordam que um conhecimento foi perdido. E, para meu espanto, é justamente o padre, o guardião dos ensinamentos perenes, daqueles que independem da época para serem verdadeiros, o primeiro a se assustar com a incompreensão dos intelectuais modernos, ou, para colocar em termos mais crus, com a burrice alheia. É justamente aquele que tem mais responsabilidades intelectuais que passa a ter como medida da sua própria compreensão teológica a ignorância dos outros, tomando o ódio dos ateus como um fator que deva ser considerado para se entender os Mistérios. É como se Pilatos também tivesse um pouco de razão, como se as pedras que atiraram no Cristo valessem tanto quanto Seus ensinamentos.

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Mais adiante, na página 8, Rubio escreve: "A Evangelização, na cultura popular, é a própria comunicação significativa da Boa Nova de Jesus Cristo no interior da expressividade, do mundo simbólico e afetivo e das necessidades e prioridades existenciais do povo, principalmente dos mais empobrecidos." Não será a própria estrutura do período obscura? Quando ele diz "… do mundo simbólico" será "no mundo simbólico", "a partir do mundo simbólico"? Ou a Evangelização é também a "comunicação significativa" das prioridades existenciais dos mais necessitados? O que é isso? E, mistério wittgensteiniano da linguagem, que será o "interior da expressividade"?

Quem dera os problemas do livro de Rubio fossem somente de ordem literária; mas, de qualquer forma, uma expressão confusa é apenas a manifestação de uma mente confusa.

Mas é no capítulo sobre a ressurreição que o autor se supera, atingindo a dupla autocontradição. Tendo escolhido trabalhar com um "Jesus histórico", filho do positivismo, e com um outro filho da ala mais popular e mais imaginativa dos fiéis - o "Cristo da fé" -, segundo a teoria de "um imbecil"(palavras apropriadíssimas de um padre cujo nome não revelarei), o "teólogo" protestante Bultman, o autor vai encaixando um no outro, não sem dor para minha inteligência. Porém, sair por aí dizendo que um homem ressuscitou dos mortos não é pouca coisa; e aí, lucidamente, ele diz que não é possível provar cientificamente que Jesus ressucitou.

E por que ele é duplamente contraditório? 1-)Porque se é possível fazer o "Cristo da Fé" entrar no Jesus que a tal História, positivisticamente, pode conhecer, ele ou não é o Cristo da Fé ou eu não preciso ter fé, já que tudo está ao alcance da razão; 2-)porque se tomarmos o pressuposto da articulação como verdadeiro então deveríamos também esperar que o autor, numa coerência com seu próprio absurdo, dissesse que a ressurreição não só é um fato histórico como isto pode ser provado por meios científicos modernos.

Mas a essência desta argumentação não é demonstrar algo verdadeiro e inteligível, mas reproduzir, ainda que inconscientemente, a concepção protestante da fé como um salto no escuro, como uma aposta naquilo que uma ciência tacanha não pode compreender. Este paradoxo, que não deixa de ser o mesmo que explicitei anteriormente, não é apenas um lapso passageiro na construção desta obra tão educativa, mas a sua fundação, numa caricatura nefasta de uma das mais famosas frases de Jesus: "A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular". E assim, com esse Jesus que é como Dr. Jekyll & Mr. Hyde, o autor caminha, tentando mostrar que um está no outro e vice-versa.

Que um padre não se dê conta disto é vergonhoso. Se se dá conta disto...

A professora também não colaborava, dando explicações materiais para os milagres de Jesus. O milagre dos pães e peixes, por exemplo, ela explicava assim: a multiplicação se deu porque na verdade cada um tinha trazido um farnelzinho de comida para a pregação de Jesus. Ao fim, Jesus tocou o coração de cada um para que dividisse com o outro (ou o "Outro", como gostam os psicólogos) o que tinha trazido. Mas, pergunto eu, se cada um tinha o seu, qual a necessidade de dividir? E por que isso mereceria o nome de milagre?

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Outro exemplo verdadeiramente exemplar do que anda sendo ensinado na PUC do Rio de Janeiro é o livro Cultura Religiosa: O Homem e o Fenômeno Religioso (São Paulo: Edições Loyola, 1994), do pe. Simões Jorge. Creio que dispensa comentários a idéia de que este livro seria sobretudo um caça-níqueis voltado aos alunos da PUC, um público perenemente obrigado a comprar esta obra tão ditosa. Mas, se dispensa comentários quanto a isto, merece que se fale um pouco de seu conteúdo, pois - tendo em vista o título etc. - parece ser a própria síntese do que a PUC pretende dar a seus alunos ao longo do tempo.

O livro poderia ser sintetizado se mudássemos um pouco seu título, que ficaria assim: Cultura Anti-Religiosa: Como o Homem Tem Feito Para se Livrar do Fenômeno Religioso. É claro que o livro é pró-"fenômeno religioso", mas é como se dissesse: "podem escrever, seus ateus, que Deus não vai morrer". E, além disso, note-se bem: o pe. Simões Jorge gosta mesmo é do "fenômeno religioso", e não da religião, que ele aliás demonstra desconhecer amplamente. Seu capítulo "Teorias sobre a origem da religião" é incapaz de mostrar uma teoria religiosa consistente a respeito da origem da religião, ou seja, uma teoria que não se apoie sobre o materialismo. Existe sempre uma tentativa de vaselinar o irracional no racional - coisa de protestante, diga-se de passagem. O livro simplesmente não chega nem a dizer que, em se tratando da origem de uma religião, como o Cristianismo, a origem está na Revelação de Deus. Outras religiões tradicionais, como o budismo e o islamismo, encontram sua origem também em um avatara, segundo a teoria hindu. Nestes casos, trata-se dos estratos superiores da realidade comunicando-se espontaneamente com os estratos inferiores (nós aqui), sem que a alteração no estado de coisas - o aparecimento da religião - tenha sido produzido por esforço humano, mas unicamente por obra e graça da Divina Providência.

Fazendo a apologia de um cristianismo difuso, subentendendo uma equivalência entre as religiões e enchendo-as de fatores sociológicos (que não são fatores simplesmente porque não existem - até mesmo Walter Mercado tem mais poder que um "fato social"), o pe. Simões Jorge convida o leitor a nada mais que um sentimento, essa anti-espiritualidade moderna que é conhecida como "religiosidade".

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Eu me pergunto, cá com meu computador: não chegaria a ser um caso para a defesa do consumidor que uma universidade faça seus alunos lerem o pe. Simões Jorge em vez de São Tomás de Aquino? Que simplesmente se renegue a Bíblia e as obras dos santos (como Santa Teresa d’Ávila, Santa Catarina de Sena, Santo Agostinho, São Boaventura e tantos outros) em favor do pe. Simões Jorge só pode ser explicado por duas razões: ou por um desejo de imbecilizar os alunos, ou porque se considera o aluno um imbecil. Neste caso, a reitoria e o Departamento de Teologia não deveriam tomar seus alunos como um reflexo da sua incapacidade, mas contratar quem saiba coisas para ensinar. Ou então se assumir como uma universidade comunista e anticristã - o que de fato já é.

E é por essa insultuosa abordagem do Cristianismo, que a matéria não faz muito sucesso entre os bárbaros alunos. Pois, além dos livros esquisitos e incompreensíveis para pessoas minimamente razoáveis, os professores(até por escolherem estes livros) devem ter posições igualmente esquisitas quanto ao que devem dar, e como devem dá-lo. E, como no fim das contas cada um dá o que bem entende ("O Homem e o Fenômeno Religioso" é assim! Fora o trabalho sobre religiões, cada um ensina o que quer), isso me leva a crer que talvez não haja uma orientação muito clara (quase nula, talvez?) do Departamento sobre o conteúdo programático, a não ser que seja a orientação para a libertinagem acadêmica.

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Tendo todos estes dados em vista, bibliografia e atitudes, qualquer um pode perceber que o objetivo real do ensino de religião da PUC-Rio é simplesmente tentar impedir o conhecimento de qualquer coisa verdadeiramente espiritual. Tudo o que é espiritual não ofende a inteligência humana, mas antes convida suas faculdades mais elevadas a se manifestarem. A intuição, a capacidade de ver as coisas como evidências diretas, de tê-las presentes diante de si, é uma dessas faculdades, e se opõe de maneira radical a idéia protestante de fé como uma aposta no escuro, ou contra uma impossibilidade de conhecimento "racional" pressuposta. A fé é a simples fidelidade àquilo que se sabe muito bem, e não uma espécie de wishful thinking que serve para contrabalançar a "frieza" do "conhecimento racional".

Dando aos alunos estes ensinamentos francamente contraditórios, ou mesmo simplesmente estúpidos (como os de Leonardo Boff), a PUC-Rio se furta ao seu dever de universidade católica por dar à elite econômica carioca não a educação que ela merece e pela qual paga, mas simplesmente um adestramento ideológico que, já tendo em si os ares de uma pseudo-religião, se aproveita dos ares de uma religião verdadeira para enganar os incautos. No seio do Catolicismo, infelizmente, têm surgido mais e mais charlatães intelectuais que ensinam absurdos como se estes fossem a própria doutrina dos santos e mártires, e são estes que ocupam os quadros-negros desta universidade às avessas, desonrando, aliás, a obra do grande Pe. Leonel Franca.

O maior destes absurdos, e que parece nortear toda a mentalidade do Departamento de Teologia, é este desejo iludido de fundir a mentalidade moderna com o espírito tradicional da religião católica. A produção de vaselina retórica para facilitar este encaixe é a vocação do Departamento, que, não desejando ver as coisas tais como são, prefere continuar escrevendo livros como Cultura Religiosa: O Homem e o Fenômeno Religioso e O Encontro com Jesus Cristo Vivo.

A maior parte dos alunos da PUC, diante desta situação, sem ter o conhecimento necessário para combater esta infâmia, nutre apenas uma suspeita infelizmente saudável contra os padres e a sensação de que todo o ensino de religião é amplamente ridículo. Eu espero que com este artigo tenha ajudado a apontar aos interessados algumas das razões disto tudo, para que talvez possam protestar com algo mais que sua apatia e seu descaso - o máximo que a PUC mereceria, se o assunto não fosse tão grave.

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Só a título de nota – que o leitor dê o meu artigo por terminado. Chegou às minhas mãos o livro O Que É Religião?, de um tal de Rubem Alves. Quero apenas dizer que jamais vi algo tão avesso ao que seja religião. Não acredito sequer que o autor seja capaz de realizar as quatro operações. É a coisa mais desprezível que já li desde A Águia e a Galinha. Recomendo a todos que fujam deste livro como o diabo da Cruz.

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Apêndice

Olavo de Carvalho resume muito bem o que interessa dizer aqui sobre a oposição científica moderna à ciência tradicional católica. Os dois primeiros parágrafos de "A Ciência das Galinhas Pretas"( O Imbecil Coletivo. 3a Ed. Rio de Janeiro: Faculdade da Cidade Editora, 1996. pp 114-5):

"Desde seu nascimento, as ciências sociais tiveram por lema desbancar a metafísica. Todos os seus fundadores - Comte, Durkheim, Marx, Spencer, Weber, Mauss - acreditavam que o conhecimento positivo da sociedade poderia desempenhar sobre o conjunto do saber a função orientadora e reguladora que fora desempenhada pela metafísica.

"Esse objetivo, porém, só poderia ser alcançado por dois motivos contraditórios: de um lado, era preciso excluir da esfera do saber científico as questões metafísicas; de outro, era preciso dar a essas questões uma resposta não metafísica e mostrar que ela era mais válida do que as respostas metafísicas; e para isso era preciso reincluir na esfera do saber científico as questões metafísicas, apenas reduzidas à escala sociológica, antropológica, lingüística, etc., e amputadas de sua dimensão metafísica propriamente dita. O paradoxo é flagrante: quando as ciências sociais têm algo a dizer sobre as questões metafísicas, o que dizem não tem nenhuma significação metafísica e as questões conservam, para cima e para além da esfera social, todo o seu potencial desafiador; quando, desistindo de invadir o campo metafísico, as ciências sociais se limitam a um domínio restrito para aquém desse campo, então se desenvolve, para além da jurisdição delas, um novo interesse metafísico pelas questões que elas deixaram de fora, e a nova metafísica, por sua vez, pretende abranger e regular a esfera de validade das ciências sociais. Não há escapatória: ou as ciências sociais perdem sua autoridade científica ao pretenderem abordar o que elas mesmas colocaram para além do seu escopo legítimo, ou perdem o lugar que pretenderam tirar da metafísica, permitindo que uma metafísica cresça para além dos seus domínios e as regule desde fora. Ou se tornam pseudociências, ou aceitam subordinar-se àquilo mesmo cuja destruição ambicionavam."

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