A Vida: Bela para Uns, Bonitinha (mas Ordinária) para Outros

por Pedro Sette Câmara

Escrevo este artigo para me adiantar a uma possível polêmica. Está para chegar às telas brasileiras o filme A Vida É Bela, de Roberto Benigni. Candidato ao Oscar, ao que tudo indica. Outro candidato é o nosso Central do Brasil, ou pelo menos também ao que tudo indica. Concorrerão, nem que seja para melhor filme estrangeiro.

Longe de mim estar realmente preocupado com as premiações do Oscar. Mas posso discutir que filme é mais merecedor de um prêmio, simplesmente por ser melhor, abstraindo-me de considerações sobre a natureza mundana e industrial específica do Oscar, e tentar concluir que a premiação de um ou de outro certamente será representativa de uma tendência cultural. Para melhor ou para pior. Começo analisando o filme de Benigni.

A Vida É Bela uma comédia passada, em parte, dentro de um campo de concentração. No filme, que pude assistir em outubro em Paris, um pai judeu tenta proteger o seu filho pequeno do conhecimento do que está verdadeiramente se passando ali, dizendo a ele que tudo não passa de um jogo, e através de seus malabarismos verbais consegue salvar a vida do menino.

O fato é que o Holocausto possui uma imensa carga psíquica de revolta em torno de si, e encontrar o ponto através do qual este tema possa servir de pano de fundo a uma situação cômica é um grande desafio. O que Benigni conseguiu não é pouco: seu filme mantém um delicado equilíbrio de horror e maravilha, mesmo ao tratar de um tema tão controverso.

Que se diga de uma vez que o filme de Benigni não foi feito para rir dos judeus que foram submetidos a trabalhos forçados e à morte nos campos de concentração. Ele não está fazendo piada disto e não seria bonito fazê-lo. O que o filme mostra, em última instância, é como um fato terrível pode dar margem a um ato de bravura e heroísmo, ou seja, como o Holocausto judeu pode ter servido para que alguns judeus tivessem dado o melhor de si, entregando a própria vida para salvar seus irmãos. Muitas vezes, é nos momentos de dificuldade que acontecem os atos de maior grandeza. E o que vale mais? Uma grande destruição ou um único ato de coragem? O ato de coragem, claro. Enquanto a tragédia destrói vidas, multiplica o nada pelo nada, aborta possibilidades, um ato como o de dar a vida pelo outro se sustém por si, numa grandeza verdadeiramente metafísica – e indestrutível.

A memória de um ato heróico vale mais, na construção de uma personalidade, ou na cultura de um povo, do que a memória do Mal. A tragédia pode gerar ressentimento, e este só pode ser superado por aqueles que conheceram, antes do Mal, o Bem. Não me ocorre melhor exemplo do que o menino do filme de Benigni, que foi preservado do horror nazista graças às engenhosas gracinhas de seu pai, e pôde guardar para si a lembrança de um pai que salvou seu corpo e sua alma. Como manter o olhar inocente diante do horror é o que nos ensina este filme. Daí seu título, A Vida É Bela. É justamente este olhar da criança frente ao mundo a coisa mais importante a ser preservada, mais importante do que tudo. Alguns, agora, podem dizer que quero diminuir o Holocausto, mas não: quero dizer que devemos ser simples como as pombas e prudentes como as serpentes. Se nos deixarmos contaminar pelo veneno da serpente, desacreditando da possibilidade de grandeza da alma humana, e desistindo de enxergar o grande sentido da Criação divina, então o inimigo, nazista ou comunista, terá vencido, pois em ambos os casos trata-se do próprio Demônio.

Os melhores momentos do filme são justamente aqueles em que o personagem de Benigni tenta fazer seu filho acreditar que a vida no campo de concentração é na verdade um jogo muito divertido. Primeiro, porque está no ar a pergunta "Será que o garoto vai acreditar?"; segundo, porque todos nós, na platéia, já estamos envolvidos por Benigni e desejamos seu sucesso; terceiro, porque, intimamente, sabemos (ok, talvez você não saiba. Este é o jornal O Indivíduo e eu falo somente por mim mesmo) que é melhor que a criança seja preservada mesmo. Benigni mantém, como já disse, um equilíbrio delicado entre o horror nazista e a ternura de um pai, sem os sentimentalismos de Spielberg em A Lista de Schindler, e realiza o mais importante: em vez de fazer mais um filme sobre a ausência de sentido que a guerra traz, mostra que o Sentido triunfa sobre qualquer negação passageira. Em vez de falar do terror nazista e do sofrimento judaico, fala de uma grandeza universal, que vale para judeus, alemães e para todos os demais povos.

Até agora, na Europa, o filme tem sido bem recebido por alguns (como o júri do Festival de Cannes) e condenado por outros, que não gostam de ver o tema do Holocausto sendo tratado em uma comédia, simplesmente por considerar o tema tão grave que não possa ser considerado de outra maneira. Suas reclamações, aliás, vêm no mesmo tom das críticas à missa de Paulo VI; a diferença é que, enquanto a missa é central para a civilização cristã, o Holocausto não pode ter tomado o lugar central na cultura judaica. O valor negativo de uma tragédia não pode se sobrepor ao valor positivo dos ensinamentos de Moisés e dos Profetas.

Condenar o filme por ele "fazer piada com o Holocausto" seria um erro, pois o filme não faz nada disto. Condená-lo por não ser mais um filme de lamentações é querer alimentar uma cultura do sofrimento e da neurose e desejar conscientemente o mal do povo judeu. Ou então é dizer que o sofrimento de uma parte do povo judeu é mais importante que um Dom divino, dado a todas as pessoas. Não é de estranhar que as pessoas que condenam o filme o fazem dizendo que ele não é "ético", o que equivale a dizer que o filme é indesejável diante de um ideal de ordem a ser atingido. Que ordem é esta, eu não sei; mas não parece coisa boa. Enquanto Benigni faz o trabalho de um verdadeiro artista, ao extrair uma alegria genuína de um dos dados culturais mais terríveis, outros trabalham para manter o ser humano preso no reino da matéria.

Mas parece que, de alguma maneira, nossa cultura está já fadada a perder a briga, preferindo um valor "humanitário" à grandeza do espírito frente às dificuldades terrenas.

É interessante notar que este embate entre o divino e meramente humano está se travando também nas cogitações para o Oscar. A Vida É Bela é um forte candidato para muitos. E para muitos outros, forte candidato é nada menos que o todo-premiado Central do Brasil, de Walter Salles Júnior.

Central do Brasil é um filme sentimental. A mãe do menino, chamado Josué, morre nos primeiros dez minutos, o que fez um amigo meu chamar o filme de "o Bambi iraniano". Depois entra em cena um clichê muito comum entre cineastas e escritores brasileiros, que é a "realidade". Realidade, para Walter Salles Júnior (um ex-publicitário), é um menino ser morto ao ar livre, em plena luz do dia, nos arredores da estação de ônibus. Não que a polícia não seja eventualmente violenta, mas assassinar alguém de maneira tão gratuita e naquelas circunstâncias já é uma burrice inverossímil demais, além de não ter qualquer função na estrutura dramática do roteiro. Mas, para nossos cineastas, o que é "real" também é necessariamente violento e bárbaro. Uma cena como estas choca o espectador sem fazê-lo entender melhor qualquer coisa a respeito do filme ou de qualquer coisa, aliás. Para tomar um contraponto no filme de Benigni, vemos que, apesar deste se passar em um campo de concentração (um cenário perfeito para a violência), não há nele sequer uma cena violenta, quanto mais de violência gratuita.

De volta a Central do Brasil, depois da morte da mãe do menino, ele é como que "adotado" por Dora, uma senhora que vive de escrever cartas e fingir que as coloca no correio. Ok. Aí acontece o esperado: Dora, uma mulher enrijecida pela dureza da "realidade", é conquistada pelo ser indefeso e inteiramente dependente que tem nas mãos. Ela resolve ajudar o menino a ir buscar o pai, já que a mãe morreu; lembra até Obi-Wan Kenobi e Luke Skywalker. Os dois juntos vivem peripécias e demoram para se entender, até que encontram a família de Josué, que também quer saber notícias do pai. Então Dora e Josué se separam. O menino fica com os irmãos e Dora volta para o Rio de Janeiro.

Mas, se há componentes que fariam deste filme um verdadeiro bildungsroman, com direito a crianças e velhos, qual é o problema dele? Os personagens na verdade não se transformam, mas permanecem os mesmos. A diferença entre os personagens de A Vida É Bela e os de Central do Brasil é justamente esta: enquanto os primeiros tiram uma grandeza da alma, os segundos não se transformam. A única coisa que muda em Central do Brasil é a paisagem. O menino é levado até a casa de seu pai, e Dora volta para o Rio. Ela chora no ônibus na volta, mas este choro mais parece vir da confusão mental de quem ainda não entendeu nada do que aconteceu do que de alguém que se vê diante de algo grandioso Aliás, chorar é algo anti-espiritual, porque revela antes uma agitação da alma do que a paz do espírito.

As situações materiais em Central do Brasil se alteram, e é só isto. Alguém pode dizer: "mas Josué desperta o instinto maternal de Dora". A loba de Roma também tinha este instinto, e nem por isso deixou de ser uma loba. O instinto maternal é um instinto, note-se bem. Preservar a integridade física de uma criança, dar-lhe comida, algum conforto, tudo isto é bem diferente de saber que há algo de mais precioso, a inocência de um olhar perante o mundo (o "coração de criança" de que fala Nosso Senhor Jesus Cristo) que deve ser preservada. Este dado não está em jogo em Central do Brasil, como está em A Vida É Bela. Afinal, somente a preservação desta integridade da alma é que permite dizer que, apesar do campo de concentração, a vida é bela.

Central do Brasil troca isto por uma aura humanitária, o que talvez faça mais sucesso hoje nesses dias de ONU e natais socialistas.

Outra definição que ouvi de Central do Brasil diz que o filme foi "feito por um milionário, a respeito de pobres, para a classe média ver", o que, convenhamos, se encaixa perfeitamente. O filme, a partir do topos "realidade", constrói situações humanitárias. Isto, aliás, me foi dito pessoalmente por uma das juradas do Festival de Berlim, que tive a oportunidade de conhecer na cidade de Cluj-Napoca, na Romênia. Perguntei a ela: "Por que Central do Brasil ?", ao que ela me respondeu que "Havia um consenso no festival para premiar o filme por causa dos seus valores humanitários".

Agora eu trago uma página do escritor americano Russel Kirk para explicar o que vem a ser "humanitário":

 

Permitam que eu vos recorde do verdadeiro significado desta palavra, "humanitarismo". Propriamente definida – e esta é a definição que ainda se encontra no Dicionário Oxford da Língua Inglesa – "humanitarismo" é a doutrina segundo a qual Jesus de Nazaré possuía tão somente uma natureza humana, não sendo divino; e, por extensão, a doutrina de que a humanidade pode se tornar perfeita sem a ajuda divina. Um "humanitário" é uma pessoa de convicções inteiramente secularizadas. Mas, erroneamente, muitas pessoas usam a palavra "humanitário" para fazer um elogio. "Ele foi um grande humanitário", dizem de Albert Schweitzer. Aquele homem heróico e caridoso, cristão cioso dos princípios de sua fé, teria rejeitado este rótulo com profunda indignação.

 

Esta é a diferença entre um filme e outro. Central do Brasil é sentimentalismo materialista. A Vida É Bela mostra como a grandeza do espírito pode sobrepujar qualquer desgraça. Por si só, sem o apoio de organismos internacionais. Mas o nosso mundo prefere aquilo que faz parte dele, e é por isso que o filme de Walter Salles Jr. é mais "palatável" do que o filme de Benigni. Uns preferem viver com o Holocausto, talvez por ser melhor para eles, não sei. Outros, os maiores, simplesmente olham para o alto e percebem que as graças de Deus são suficientes para superar tudo o que acontecer.