A Névoa Dissipada
(soneto duplo)

Por Pedro Sette Câmara

Busquei-te ao longe: me perdi na névoa.
O homem que se eleva
no exercício do amor então entende
que a gigantesca dor que o mundo leva
contém em si a semente
da própria luz, do sol intermitente

que sublima e transmuta toda treva,
e que à alma enleva.
Mas o abismo da paixão da mente
sozinha pelo objeto que a releva
cria uma dor, presente
no objeto, e também inconsciente

no motivo: existir, menos que um drama,
é um sentimento evanescente... E a luz
somente se derrama
sobre a paixão que, quando se deduz

efêmera e intocável como a chama,
em um longo suspiro se traduz -
o Amor então reclama
a névoa dissipada aos céus azuis.


 
 
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