POESIA

Poemas Psicografados

Por Pedro Sette Câmara

Não fui eu mais que um instrumento:

a mão de algum fantasma oculto

rende, dos silêncios do além,

esta homenagem às avessas.

 

1. Manoel de Barros

2. Elisa Lucinda

3. Chacal

4. Paulo Leminski

5. Bianca Ramoneda

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1. Manoel de Barros – de O Capiau que Tomou LSD (autobiografia póstuma), o poema “Sapiência dos Vagalumes”.

 

I. Ode à Filosofia das Plantas

 

O sonho de todo girino é ser nuvem.

Os olhos das pedras cheiram a manhã.

Os besouros enobrecem a terra.

 

Se uma pedra se pergunta “quando nasci?”

então os céus enfolham e deságuam

em vertigens e delicadezas minerais.

 

*

 

II. Compreensão da Clorofila

 

Hoje meu pâncreas fez fotossíntese.

 

*

 

III. Legalize Santo Daime

 

Conheci ontem Lucélia Santos.

Ela me passou uma paz de libélula,

dessas que nem os tuiuiús conhecem.

 

Então o céu enluarou.

Meus olhos de capivara arderam em flor.

 

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2. Elisa Lucinda – de Se Meu Fusca Conversasse com Meu Batom, o poema “Sonhos de Batedeira”, inspirada em Isaac Asimov.

 

A vida da batedeira é só bater, brum brum brum ou então ficar desligada

Ela só existe para fazer bolo, pudim, essas coisas gostosas que agradam os maridos

E dificultam a vida das empregadas domésticas que só querem ver novela.

Quando passa novela a televisão fica apaixonada

E todos os móveis da casa passam a gemer de amor e ficam só gemendo

A noite inteira e a louça que está na máquina também fica cheia de amor

Mas a batedeira que só bate brum brum brum fica toda enciumada

Porque sempre que há amor ela está muito cansada de ter ficado o dia inteiro

Batendo aqueles bolos e pudins que ela nunca vai comer.

Então ela tem um dilema: “Desligar ou não desligar?”

Porque se é para sempre perder a festa dos amigos e nunca namorar

Talvez seja melhor nem existir, pois é melhor não existir do que viver só pra escangalhar.

 

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3. Chacal – do livro O Dia em que Aprendi a Fazer Rimas, o não-poema, não-letra  de música “Meta-metafísica dos bares”

 

a vida é assim, é assim mesmo

às vezes beber, as vezes não

o que importa é ter o pé no chão

que é pra nunca andar a esmo

 

é preciso liberdade, meu irmão

é preciso que todo mundo seja feliz

e ande por aí cantando essa canção

que eu compus com meu nariz

 

a festa não pode acabar

 

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4. Paulo Leminski, de A Vida Vista do Fundo do Tietê, “Variações sobre um tema de Chacal”

 

não sei se a vida é assim mesmo

ou se assim mesmo é que é a vida

só sei que é vida e é vida mesmo

vida vida mesmo vida mesmo mesmo vida

onde é que está o mesmo da vida?

ou não está?

quem procura acha?

e se eu morrer atropelado no próximo cruzamento...

ainda assim é vida mesmo?

a cidade... as pessoas... tudo me olha

como

 

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5. Bianca Ramoneda, de Mal Acompanhada?

 

um pensamento varou a noite do meu quarto:

e se todo mundo fosse estudar filosofia?

tudo seria melhor

mas eu continuaria só.


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