Dois Poemas Talvez em Oposição
Por Pedro Sette Câmara
I
Neste silêncio duro como o gelo
antártico, no isolamento da face
de cada um, há um implícito impasse -
porém, não sou eu que vou descrevê-lo.
Este soneto não será um apelo.
O que existe intangível no disfarce,
o formidável "Não! Que ninguém passe!"
a distinguir a obsessão do zelo,
que se esqueça, que permaneça imerso
em falsas alegrias! Cadafalso
do ser, cujo guardião é um espectro,
o resto de nós que em nós não mais se acha
senão como algo etéreo, reles sobra
de um vago amor perdido na memória...
II
Quando as gavetas forem reviradas
e as nossas cartas estiverem lidas
por pessoas que querem ser amadas
mas não têm esperança nesta vida,
quando a última cor iluminada
pelo brilho de estrelas decaídas
for na noite um farol ensimesmado
lembrando aos barcos que não há saída,
nesse dia, e somente nesse dia,
olhando da janela a chuva fria,
pergunta-te a ti mesma o que passou:
se a lembrança, metáfora do pássaro,
a um fundo neuronal lançar-se em vôo,
quem sabe encontre, mais que qualquer lástima,
a história secreta de um amor...
Pedro Sette Câmara
15 a 19 de março de 1998