O Mundo Como Rapto
Por Pedro Sette Câmara
Se não sei nada, sei o que me arrasta
O que me arrasta é um momento,
uma luz na borrasca,
um canto no tormento,
a realidade que me ataca.
As certezas não são como os sentimentos.
Se paro, respiro e contemplo
uma rosa, por exemplo,
então capto
na fragilidade da pétala
algo que está além do tempo,
e eternidade em um segundo.
Meu mosteiro é o mundo.
E se o Sentido, tão fugaz,
pede fidelidade
a algo que se vê e depois não se vê mais,
é porque sua própria ausência
recorda sem cessar que a experiência
não está lá: por isso a busca,
ou o deixar-se buscar
por um amor que nunca é findo
enquanto dura, o instante de infinito
que vive a criatura.
Um instante maior do que o futuro.
E o que nasce, o que brota
desse encontro com o real
são sinais com que marco a minha rota;
são as pegadas
do caminho do transcendente no mortal
que a lavra da intuição nos assinala:
a poesia é o que se salva
entre a verdade e a palavra.